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- Fazer do medo conforto
Como transformar o medo num aliado para começares a viver os teus sonhos? Existe lá sentimento mais tenebroso do que ter medo de ter medo? Mas, o que é o medo afinal? Medo (me·do) nome masculino 1. Estado emocional resultante da consciência de perigo ou de ameaça, reais, hipotéticos ou imaginários. 2. Ausência de coragem. Ora, posto isto, quantas vezes não damos por nós a tremer, a bloquear, a preocupar-nos apenas com a remota possibilidade hipotética de um perigo? Mais vezes do que devíamos, não é? Porque o medo é isso, maior parte das vezes, o medo é um estado emocional criado por uma possibilidade que criamos na nossa cabeça. Algo que não é real. E, todos o sentimos. O medo é uma luta constante de dualidades, tanto nos protege como nos limita. O cérebro humano foi criado para estar sempre alerta de possíveis perigos - coisa que remonta aos inícios da raça humana. Por isso, o medo é uma forma do cérebro se proteger, de colocar um escudo que nos faz analisar a gravidade do possível perigo. Do lado oposto, temos o medo como sentimento limitador que nos impede de seguir sonhos e objetivos. E, lado a lado com o medo, temos a nossa mais que amada, zona de conforto. Ah… a zona de conforto! A oitava maravilha do mundo moderno! E, porquê falar do medo e da zona de conforto? A matemática é simples: se estamos na zona de conforto, é mais raro sentir medo. Se ousamos sair da zona de conforto, aí sim, aparece o medo. A decisão de parar e tirar tempo para nós, nestas nossas vidas tão corridas - seja para pensar, estudar, viajar, fazer voluntariado - acarreta uma enorme coragem. É a porta de saída da zona de conforto, e a porta de entrada dos medos e receios hipotéticos. A decisão de fazer um gap year acarreta todo esse peso emocional. Desengane-se quem pensar que só alguns sentem medo no processo de um gap year. Quando vemos alguém a fazer um gap year, já só vemos a fase final dessa decisão - onde tudo parece fácil, onde tudo parece bom, onde todas as incertezas já passaram e a pessoa só está a aproveitar! Mas, um gap year é muito mais do que aquilo que vemos nas redes sociais: Primeiro vem o desconforto, de se sentir incompleto, de querer mais, de se sentir preso. Preso a uma vida que parece não ser sua, ou preso a uma rotina que já não faz sentido. Depois vêm as ideias de tudo o que se pode fazer para deixar de se sentir assim - mas aqui entra o medo ao serviço. Porque, pensar na possibilidade de sair da zona de conforto, acarreta muito medo. É normal! Depois, após a dose ideal de coragem, tomamos a decisão de arriscar. Para muitos de nós, pode ser a decisão que muda uma vida. Paremos para pensar no peso que isso pode ter. É claro que sentimos medo. E, é isto que quero desmistificar, que todos temos medo e ninguém é excepção. Esta tem sido uma grande aprendizagem pessoal que tenho feito - o que para mim é simples, pode ser complicado para outra pessoa. Cada pessoa tem o seu timing e não somos todos iguais. Nestes dois anos, percebi o quanto tremo, congelo e fico ansiosa com o medo, com o medo de ter medo, com a possibilidade de sair da zona de conforto. Mas, há uma adrenalina em mim que é alimentada por esse sentimento e por saber que o medo dura dois segundos! E, que ao fim desses dois segundos, vem uma alegria imensa, que não dá para explicar! É uma felicidade que vem do fundo do coração, ela acontece através do orgulho de nós próprios, que com coragem, enfrentamos o medo, e percebemos que o medo é só uma cortina que nos separa da realização pessoal, de experiências, de sonhos! Dei a volta ao medo. Fiz do medo conforto. Por isso, se estás a sentir que precisas de parar, e fazer um gap year, mas que te sentes bloqueado por mil e um pensamentos de defesa que te estão a dar mil e uma razões para não o fazeres, lembra-te deste artigo, e de como o medo é apenas um reflexo do nosso instinto de sobrevivência. Arrisca. Vai sempre haver trabalho quando voltares. Vai sempre haver oportunidades de recomeçar. A tua família e amigos vão sempre estar lá. Não deixes o medo ser o fim da tua história - deixa-o ser o início da tua coragem. Vamos fazer um gap year? Texto escrito por Ana Ponte @anarfponte
- Entre o céu e o mar
Foram três dias de barco pela Indonésia. Partilhámos a travessia com pessoas locais, arroz cozido, baratas e a maresia constante do mar. O silêncio misturava-se com o som das ondas e, de vez em quando, o cheiro intenso de peixe lembrava-nos onde estávamos. Assim começou a viagem até Bau Bau - uma cidade onde ficaríamos com uma família que conhecíamos e de onde partiríamos para visitar a tribo conhecida como os ciganos do mar. O Mário, o nosso guia, acompanhou-nos desde o início. Levava sempre na sua mochila uma pequena cozinha portátil, onde preparava todas as refeições com uma calma que parecia vir do próprio mar. Lavava sempre o arroz antes de o cozinhar, e quase no final mudava-o de panela, deixando-o terminar fora do lume. Tinha sempre um frasco de kecap manis, o “ketchup original” da Indonésia - um molho doce e escuro que dava sabor a tudo. Nos dias que passámos com o Mário, falámos sobre tudo um pouco - planos, sonhos e objetivos. Percebemos que, para ele, viajar era mais do que uma profissão. Levar pessoas desconhecidas a conhecer os tesouros escondidos da sua ilha era, para ele, uma forma de partilhar amor. A cada refeição e conversa, sentíamos que o tempo passava devagar e depressa ao mesmo tempo. Aqueles três dias pareciam conter os cinco meses de jornada que já tínhamos vivido até ali. E era o nosso último grande objetivo da viagem antes de terminar. Na noite anterior à visita à aldeia dos Sama Bajau, ficámos hospedados na casa de um barqueiro, amigo do Mário. Jantámos juntos o que o Mário preparou - peixe grelhado, arroz e kecap manis. Simples, mas suficiente. Ficámos ali porque o rio que dava acesso à vila estava a encher e a corrente era demasiado forte para atravessar. O Mário contou-nos que havia crocodilos naquelas águas, e esperámos até o amanhecer. A aldeia surgiu depois de três dias no barco, quatro horas de estrada e dez minutos numa canoa de madeira. Flutuava no horizonte, serena, como se fosse um mundo à parte. As casas equilibravam-se sobre o azul do mar, ligadas por pontes estreitas. Por vezes, tudo abanava ligeiramente com as ondas. Ali, tudo se move ao ritmo da água. Fomos recebidos com sorrisos tímidos e curiosos. Falámos com o líder da comunidade, um homem de olhar tranquilo, pele queimada do sol e mãos marcadas pelo sal. Disse-nos que ali tudo começa e termina na água. Contou que antes viviam apenas em barcos, mudando-se conforme as marés e o vento. E que, apesar de agora as casas se erguem sobre pilares, a alma da comunidade continua nómada. O mar é que decide quando se pesca. É ele que alimenta, que ensina e que nos dá o sustento. Percebemos que o mar ali é casa, cozinha e abrigo. As crianças aprendem a nadar antes mesmo de saber andar. Brincam descalças nas pontes de madeira a treinar os melhores saltos para a água e apanham peixes com as mãos. Os adultos trabalham e conversam lado a lado, cada um na sua função, mas sempre em união. À mesa, que era o chão, partilhámos peixe fresco acabado de pescar. Comemos com as mãos e esquecemo-nos, por instantes, de que vínhamos de um mundo a mais de 12 mil quilómetros de distância. Ofereceram-nos o pouco que tinham - o doce de banana caramelizada preparado por três mulheres e os papagaios coloridos que os homens constroem para pescar, que dançam com o vento. Falámos sobre o mar, sobre como sabem onde encontrar os peixes e sobre como ele tem mudado. Contaram-nos que o peixe é mais escasso e que o oceano já não é tão previsível como antes. Ainda assim, continuam a confiar nele. A serenidade deles parecia vir dessa entrega - de quem aprendeu a viver em sintonia com o que não se controla. Na maré baixa, ao pôr do sol, fomos com eles à pesca. Observámos mais do que pescámos. Tocámos em estrelas do mar e tentámos compreender como apanhavam pequenos peixes e moluscos presos entre as rochas. Ali todos trabalhavam juntos - crianças, mulheres e homens, uns no barco, outros no areal. Desta vez não foi possível ir para o meio do oceano com eles, mas voltaremos para concretizar este objetivo. Já temos quarto com vista para o mar onde podemos ficar. Saímos daquela comunidade com uma certeza - que o mar, como eles, e como todos nós, tem uma linguagem própria. E que só precisamos de tempo, silêncio e entrega para a entender. Aprendemos que a abundância não está no muito, mas no essencial - e que talvez seja no simples que o mundo volta a encontrar o seu equilíbrio. Texto escrito por Laura & Julio @lauraspcouto @jdroguetti
- À boleia até à Austrália
Recentemente terminei uma caminhada de 800km naquela que é considerada uma das estradas mais bonitas do mundo: A “ Pamir Highway ”, no Quirguistão e Tajiquistão. Foi, sem dúvida, um dos maiores desafios a que já me submeti, tanto a nível físico como mental, mas estes 38 dias foram apenas uma parte da verdadeira aventura a que me propus: i r à boleia de Portugal até à Austrália. Já lá vão 6 meses desde que saí de Coimbra em busca de conhecer diferentes culturas, e uma das perguntas que mais me fazem é “de onde veio esta ideia?” . A verdade é que tudo começou com um simples projeto de voluntariado. Eram as férias de verão entre o meu 2º e 3º ano da Faculdade e eu queria fazer algo diferente. E fiz. Passei 1 mês na Polónia com mais 9 voluntários de vários países, com o objetivo de promover sustentabilidade a crianças de diversas vilas. Gostei tanto desses 30 dias que disse para mim mesma “ todos os verões quero fazer algo do género ”. No verão seguinte estava a ir para a Grécia, para voluntariar na minha primeira Eco-comunidade. Mais 1 mês no meio de pessoas incríveis com quem aprendi muito e foi então que percebi: 1 mês por ano não é suficiente. Eu precisava de mais . Mais desta liberdade, comunidade, aprendizagem informal…de estar no meio da natureza desligada do meu telemóvel, mas extremamente conectada com aquilo e aqueles que me rodeavam. No final desse mês decidi que queria tirar um gap year para fazer mais projetos de voluntariado. Honestamente, eu queria fazê-lo logo, mas só me faltava 1 ano para terminar a faculdade. Já tinha orientadores de estágio de quem gostava muito e sabia também que os meus pais não iam gostar nada da ideia de deixar o curso em stand-by. No fundo, eu sabia que se fizesse o gap year naquela altura dificilmente quereria voltar para terminar o curso… para mim era claro que me ia apaixonar por aquele estilo de vida . Assim, voltei para Portugal. Foi um ano complicado em que só conseguia pensar em viajar. Tudo o que eu queria era defender a tese e voltar para a Grécia...e assim foi. 1 semana depois da minha defesa estava a caminho daquela mesma comunidade grega, para começar aquele que seria o melhor ano da minha vida até agora . Passei 6 semanas nessa comunidade antes de ir para o Perú por 3 meses e meio. Metade desse tempo foi passado na floresta Amazónia a trabalhar com frutas tropicais e construção com materiais naturais. Mas claro, conheci também o deserto, as montanhas e as praias com o Oceano Pacífico. Com muita pena minha tive de voltar para a Europa, pois já não tinha mais dinheiro. Os projetos que fiz na Europa foram através de uma plataforma incrível: European Solidarity Corps. Não só me cobriram todos os custos em termos de transporte, alimentação e alojamento, como ainda me davam um “pocket money” de 5€/dia, dos quais eu não gastava quase nada. Cheguei a fazer mais 3 projetos com esta organização, na Grécia (sim, outra vez a mesma comunidade), Hungria e Eslovénia, antes de voltar a Portugal para uma pequena aventura a solo: uma viagem de bicicleta de Coimbra até ao Algarve . 700km pedalados em 9 dias para chegar a Albufeira , onde voluntariei num campo de surf. Em Setembro fui para uma eco-comunidade na Suécia para o projeto de voluntariado que fechava este gap year. Nesta altura eu já sabia que não era só um gap year. Eu não me conseguia imaginar a voltar para a faculdade para fazer o meu mestrado, nem a arranjar um trabalho “normal”. Era impossível pensar nisso sequer. E eu digo isto como alguém que sempre adorou a escola e a faculdade. Aprender e estudar sempre foram uma das minhas maiores paixões, e inclusive ganhei 3 prémios na faculdade por ser uma excelente aluna. Mas durante este ano percebi que tal não se limita a instituições educacionais. Uma das coisas que eu não gostei na faculdade foi a falta de tempo para estudar sobre temas para além do que era ensinado no meu curso . Eu estava a estudar nutrição, mas queria ter tempo também para aprender sobre neurociência ou matemática, e não tinha. Mas durante este gap year, eu consegui ouvir inúmeros podcasts e ler muitos artigos científicos sobre 4 ou 5 áreas de estudos distintas. Isso, para além de tudo o que aprendi na prática no que toca a permacultura, bio construção, como viver com pouco dinheiro, etc. Eu aprendi mais neste ano do que em 2 anos na faculdade. Foi um ano intenso em vários aspetos, mas principalmente um ano de muito auto-conhecimento. Cruzei também caminho com muitos viajantes, alguns deles a fazer viagens como a que eu estou a fazer agora: a cruzar continentes à boleia, de bicicleta, ou até a caminhar . Estas pessoas introduziram-me a um estilo de vida que eu desconhecia totalmente, mas que despertou uma curiosidade gigante dentro de mim. No início desse gap year experimentei andar à boleia pela primeira vez com uns amigos na Grécia. E lentamente fui adotando este estilo de viagem e gostando cada vez mais do mesmo. Tanto que quando decidi que queria embarcar numa viagem longa e sem voar, ir à boleia foi logo uma das primeiras opções . Já estou na estrada há quase 7 meses. Cruzei a Europa, Turquia, Geórgia, Rússia e 4 países da Ásia Central , e agora vou em direção à China. Experienciei momentos muito difíceis, desde doença a assédio, mas a hospitalidade com que fui recebida por inúmeras pessoas, a natureza que tive a oportunidade de explorar e todas as aprendizagens que já tive são o que ficam na memória! Texto escrito por Ana Lucas @the_sustainable_backpacker
- Entre o frio e as auroras: os desafios de trabalhar na Lapónia
O Nelson embarcou numa aventura única: trabalhar na Finlândia durante cinco meses no inverno, em Rovaniemi , a capital da Lapónia e lar da famosa Vila do Pai Natal, a Santa Claus Village. O objetivo da viagem é unir trabalho à sua paixão pela natureza e viver uma experiência longa e transformadora. No artigo de hoje, ele conta-nos como foi o primeiro mês da sua experiência em Rovaniemi. Chegámos a Rovaniemi, a cidade conhecida pela cidade do pai natal, na Finlândia. Depois de uma viagem de 18 dias de autocaravana desde Portugal até ao norte da Europa, atravessando 13 países e percorrendo 6200km, chegou finalmente o momento onde começa uma nova fase da minha vida. (Podem saber mais através deste post que fiz sobre a minha vinda para a Finlândia, aqui !) Fomos os segundos a chegar à casa que a empresa nos facultou para viver até março. Isto possibilitou escolher um dos melhores quartos da casa, uma vez que a mesma tem 8 quartos. Dois deles improvisados com paredes de pladur e com condições um bocado duvidosas. Um deles foi “construído” na sala, colocaram uma parede de pladur e deixaram a parte superior aberta. Ou seja, toda a luz e o barulho da sala passa automaticamente para o quarto... Algo um pouco mau para uma renda de 400€, tendo em conta que temos de dividir o quarto com outra pessoa. A situação da habitação em Rovaniemi não está muito famosa devido ao facto do turismo aqui estar a aumentar a um ritmo alucinante. Apesar destes pequenos detalhes, a casa no geral tem muitas boas condições, uma cozinha grande, um sistema de aquecimento bom e até uma sauna! Em 2024, só no aeroporto de Rovaniemi, aterraram cerca de 948.000 pessoas (+29% em relação a 2023) , totalizando 41 rotas de voo diretos europeus. Não esquecendo o facto de outros meios de transportes também serem bastante usados para chegar cá, como por exemplo o comboio ou os autocarros. Este crescendo no turismo também traz os seus problemas. Tendo a cidade cerca de 66 mil pessoas a viver e os proprietários preferirem ter alojamentos para estadias de curta duração faz com que seja muito difícil o acesso a uma habitação de longa duração. Chegámos dia 29 de outubro (quinta feira) e o nosso trabalho começaria oficialmente dia 3 de novembro (segunda-feira), então tivemos algum tempo para conhecer as pessoas, as redondezas da nossa casa e até uma festinha na nossa casa com o pessoal! A primeira semana foi essencialmente tratar de burocracias das finanças, apresentações das regras e procedimentos da empresa, apresentação das atividades que a mesma oferece e também algumas “aulas” sobre as motas de neve. Digo “aulas”, porque no momento em que chegámos, a neve ainda não tinha chegado. Aliás, à data que escrevo este artigo (8 de dezembro) ainda não tivemos neve “a sério”. Nevou durante 3 dias sem parar e foi isso. Recentemente as temperaturas têm estado perto de 0, algo não muito benéfico para a neve pois a mesma quando cai, acaba por derreter no dia a seguir. Mas foi na primeira semana que aconteceu algo que nunca pensei que viria a acontecer. Cortei um pedaço do dedo, ficando com a ponta pendurada e desprendida da unha. Parti a ponta do osso do dedo e levei 5 pontos. Que belo início de temporada! E como é que isto aconteceu? Simplesmente carregando pedras no local onde viria a ser a pista das motas de neve para as crianças. Ao pousar uma pedra pesada com outro rapaz, a minha mão ficou por ligeiros milissegundos entre duas pedras e ao remover a mesma, já estava com a mão a pingar sangue. Surpreendentemente mantive a calma e lidei bem com a ferida até ao momento em que fui para o hospital e levei os pontos. Esperei cerca de 4 horas até me chamarem e apesar de algumas dores, consegui manter-me firme. Passei 14 dias em casa, de baixa médica, sem poder trabalhar. Gosto de estar sozinho e até foi bom para recarregar a minha bateria social. Os primeiros dias na casa foram intensos, muitas caras novas, muitas histórias e muita convivência. Sou uma pessoa que gosta do seu espaço e inicialmente foi um choque grande o facto de ter partilhar casa com tanta gente. Foi durante este período que tivemos a oportunidade de ver pela primeira vez nesta temporada auroras boreais. E mesmo à porta de casa! Uma hora de puro espetáculo nos ceús. As primeiras auroras. Chegou a um ponto em que me senti um pouco em baixo pelo facto de não conseguir fazer nada e apenas ter de esperar que o dedo curasse. Ver a malta a chegar a casa toda entusiasmada, a criarem laços entre eles e a partilharem histórias e acontecimentos do dia. E eu ali, sem nada para dizer, a sentir-me um pouco de lado. Tentei combater o tédio com a edição das fotos da viagem até cá e com algumas pequenas caminhadas pelas redondezas (temos uma floresta e uma torre de vigia a 20 minutos de casa!). Na semana a seguir ainda consegui fazer o cursos de primeiros socorros, pois era a única oportunidade para o fazer. Foi algo que pelo menos me possibilitou sair de casa e ter alguma interação com o resto dos guias. Aprendemos o básico do suporte de vida, tais como as compressões, respirações e o uso de desfibrilador. Como estamos num clima extremo de frio (com mínimas até -25º!!), também tivemos a oportunidade de aprender técnicas para aquecer possíveis clientes que possam entrar em hipotermia. A questão do frio nesta zona é um tema sério e é super importante estar preparado para agir neste tipo de situações. Ainda nos dias de baixa, aproveitei para dar uma volta pela cidade e conhecer um pouco mais sobre a mesma. Rovaniemi é uma cidade recente, pois 90% foi totalmente destruída através de um incêndio provocado pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial. Na sua reconstrução, um arquiteto chamado Alvar Aalto desempenhou um papel super interessante. Foi ele quem idealizou o novo plano urbanístico da cidade, concebendo-o em forma de rena - um símbolo profundamente ligado à Lapónia. As principais estradas que ligam Rovaniemi representam os chifres, o rio Kemijoki o corpo e o centro funciona como a cabeça do animal. Que ideia genial! Os dias de baixa passaram e finalmente chegou o dia de tirar os pontos. Apanhei um autocarro até à cidade e dirigi-me à clinica. Correu tudo bem, os pontos deram alguma luta devido ao sangue coagulado mas no geral a cura estava bem encaminhada. Estava mesmo contente nesse dia e super entusiasmado por finalmente começar a trabalhar, ainda que de forma lenta e consciente. No dia a seguir fui para a loja na cidade, e apesar de ainda não começar a fazer as tours em si, foi bom começar a conhecer alguns processos. Antes das atividades temos de ajudar os clientes a vestir os overalls de inverno, as botas e as luvas. Pode parecer secante, mas para mim significou o início do trabalho, o início daquilo que estava planeado fazer com a viagem até cá. No dia seguinte “avancei” um pouco mais e fiz de táxi. Os transportes públicos não funcionam ao fim de semana na cidade e, por isso, fui delegado a ser táxi para algumas pessoas que dependem de transportes. Foi bom para conhecer as pessoas e para conhecer a cidade em si. Lentamente, fui colocado nas tours e foi mesmo engraçado pois nas primeiras vezes estava tão entusiasmado quanto os clientes. Era um guia, mas naquele momento também era um cliente! Algo desafiante para os guias é fazer com que a experiência seja especial para todos os clientes. Apesar de algum tempo depois estarmos “fartos” de fazer aquela atividade, não podemos esquecer que para o cliente é a primeira vez (e muito provavelmente a última) e por isso temos de transmitir o entusiasmo e a melhor experiência possível! A empresa (e quase todas na verdade) oferece essencialmente 5 atividades principais: Passeios de Renas e Huskies, tours de motas de neve, tours de auroras boreais (de carro ou de mota) e ice-fishing (de carro ou de mota também). Após algumas atividades de renas e huskies, fui fazer a minha primeira tour de aurora boreal e não podia ter corrido de melhor forma. Tive um casal com dois filhos pequenos do Reino Unido, super tranquilos e carinhosos. Ver auroras boreais nem sempre é fácil e depende de imensos fatores para as ver. Fomos para a primeira localização mas não tivemos sucesso. O céu estava limpo, no entanto, as auroras não apareceram. Fomos para outra localização, um lago congelado, e mal chegámos o espetáculo começou. Ver auroras boreais é algo sem explicação. Tinha a câmara e o tripé comigo e ainda consegui tirar umas fotos “profissionais” para os clientes. Ficaram mesmo contentes com o resultado e fico mesmo de coração cheio pelo facto de ter a possibilidade de oferecer fotos melhores para os meus clientes. Antes de terminar a tour ainda fomos para um Lavu (local típico finlandês para fazer fogueiras), fizemos uma fogueira, bebemos um sumo quentinho e comemos uns marshmallows. Algo muito comum cá na Finlândia. No final da tour ainda tive direito a uma gorjeta (primeira tour de auroras, primeira gorjeta!). À medida que os dias foram passando o meu dedo foi curando melhor, o sangue seco foi desaparecendo e a pele foi regenerando. Chegou o momento de finalmente andar de mota de neve. Foram 10km de pura alegria e satisfação. Finalmente pude fazer aquilo que estava planeado fazer. Lentamente fui “desbloqueando” todas as atividades que vou fazer durante a temporada e comecei finalmente a sentir-me vivo, com propósito. Felizmente o feedback tem sido bom, a interação com as pessoas tem corrido super bem, a equipa é super dinâmica e o trabalho em equipa flui de forma muito natural. Somos 40 guias ao todo, com origens e personalidades diferentes. Há pessoas que se dedicam mais que outras, tal como acontece em todas as empresas. Não vou mentir, na primeira semana houve momentos em que meti em causa a minha decisão, se estava no sítio certo. As primeiras duas semanas não foram fáceis, a minha comunicação com o inglês estava travada e sentia-me desmotivado. Depois o acontecimento do acidente do dedo fez com que pensasse ainda mais na minha decisão. Mas de alguma forma, mantive o pensamento positivo e acreditei que as coisas poderiam melhorar. Hoje, passado mais de 1 mês cá, numa altura em que o trabalho está a aumentar cada vez mais devido à época alta, não poderia estar mais satisfeito com a minha decisão. A relação boa com as pessoas no trabalho e em casa, o bom feedback do meu trabalho, a satisfação dos clientes no fim de cada tour e o desafio de viver num clima e cultura tão diferente tem sido o meu incentivo no dia-a-dia e a confirmação de que foi das melhores decisões que tomei na vida. Texto escrito por Nelson Sousa @nelsonrsousa
- O Postal do Mosteiro onde vivi - Wat Pa Tam Wua, Tailândia
Antes de vir, antes sequer de Portugal sair, tinha toda uma ideia do que seria esta semana. Escrevi no meu plano, "passar 10 dias em silêncio!" . Uma exclamação em desafio. O de enfrentar o medo, do silêncio, e em segredo, de mim. Do eu isolado de recreios e vícios sociais. Não sabia nada quando escrevi aquilo. Não sabia o que era estar em silêncio tanto tempo, e ainda não sei. Não sabia que não ia precisar dele, para enfrentar esta minha, tão meticulosamente evitada, solidão. Sabia sim que seria uma experiência diferente, exatamente do que vim à procura. Sabia que seria por aqui que aprenderia a viver uma paz que nunca senti, e nela, encontrar cura. Não sei onde fui buscar esta mania de Miss independente. Este orgulho que nem tive por mim durante tanto tempo. Este pensamento, de que para ultrapassar uma mente descontente, é preciso distanciamento. Mas nem sempre é certo. E neste caso não era. Este combater fogo com fogo, atear lenha a uma fogueira já quase extinta, não me traria mais crescimento do que o calor do momento em si. O momento que já vivi, e escrito em extremo, sobrevivi. A solidão tornou-se medo algures pelo caminho. Lembro-me vagamente de ter 7 ou 8 anos, e de nem me importar com quem ia passear no intervalo. Lembro-me de nem ter presente a necessidade de fazer amigos. Que me bastava a mim. Algo muda como um salto em altura, e uma mudança de escola. Mas algo maior muda com todas as vezes que, já não por escolha minha, me vi sozinha. Curioso o que nos faz a consciência, que tantas vezes nem é nossa. Mas estes dias, muito perto do início da viagem mudaram tudo. Mudaram o meu à vontade com o silêncio, a minha capacidade de sentir-me bem só comigo de novo, e mudaram-me a mim, em muitos cantos interiores diferentes. Escrevo já depois de voltar, com a certeza que foi das experiências que mais me preencheram , mais me encheram de propósito. Vou contar-vos sobre o meu dia-a-dia neste lugar. Aliás, começo por vos contar sobre este lugar. Um refúgio entre a natureza, onde nada mais se ouve se não a mesma. Rodeados de verde, e da energia mais pura que alguma vez senti. O Wat Pa Tam Wua vive de um horário simples, quase austero, e talvez por isso, profundamente transformador. O dia começava cedo, às 4:45h da manhã , bem ainda antes do sol. O primeiro despertador, ainda que apenas em modo vibração, não pede pressa, pede presença. Acordávamos para meditar no nosso quarto, em silêncio. E é curioso como o silêncio da madrugada não pesa, embala. Seguia, juntamente com outros voluntários para a pequena cozinha, onde um casal de Tailandeses, sozinhos, cozinhavam - e bem! - para cerca de 100 pessoas. Entre descascar batatas, cortar cenouras e curgetes, existiam poucas palavras de conversa. Muitos em silêncio absoluto, outros em sintonia. Das experiências mais enriquecedoras, uma mesa de 6, 7, 8 pessoas às 5 da manhã , pronta para ajudar tanta gente. Às 6h30 , seguíamos para o Dhamma Hall para a oferenda de arroz aos monges. Um gesto pequeno, repetido, e humilde. Aprendi ali que servir pode ser tão meditativo como sentar de olhos fechados. Não há palavras, não há trocas - há intenção. O pequeno-almoço, logo a seguir era simples, vegetariano, suficiente. Nada de excessos. E, estranhamente, nada de faltas. A primeira coisa que comia depois de 2 horas acordada. O corpo adapta-se mais rápido do que a mente. Até às 8h , tínhamos alguns minutos livres. Uns voltavam aos quartos, outros limpavam a cozinha. Eu decidi a minha rotina bem perto dos primeiros dias. Sentar-me num ponto de vista estratégico, e desenhar. Sempre no mesmo canto, e no mesmo caderno. Soava o sino bem alto, que informava horas e ações. Hora de escolher um dos colchões verdes do Hall, que tinham sido dispostos por alguém nesse tempo livre. Começava a primeira palestra, e a aula de meditação. Sentados no chão, durante horas, entre ensinamentos e prática. O corpo reclama, a mente negocia, e depois… algo cede. Não sei explicar quando, mas sei que acontece. O tempo abranda. O desconforto ensina . Às 10h30 , nova oferenda aos monges, e às 11h , almoçávamos todos - a última refeição sólida do dia. Parece radical quando o escrevo agora. Parece impossível quando se imagina. E depois torna-se natural. O corpo aprende limites, e a mente, desapego. À tarde, depois de outro descanso silencioso, um novo bloco de meditação, 12h50. Primeiro em movimento, numa volta com todos. Uma fila única que percorria em silêncio a natureza. Descalços, todos os sentidos apontados para o tato. E talvez para a audição. E sem dúvida para a visão, com aquelas paisagens! Foi difícil incorporar este estilo de meditação, em movimento, mas uns dias de repetição e conhecimento do caminho constante, trouxeram-me o compreender que talvez seja a melhor forma para um coração ansioso, em pulgas e sempre ativo. Às 16h , a hora oficial do voluntariado, pois senti que num ambiente de entreajuda como aquele, difícil seria não querer ajudar e participar a tempo inteiro - o meu coração voltou carregado de bom karma! Limpar casas de banho, varrer folhas, lavar chão. Trabalho físico, mente vazia. Nunca pensei que esfregar um balde pudesse ser um ato espiritual, mas ali era. Descobri, com pena minha, o meu ato de servir favorito, só ao quarto dia. Queria tê-lo feito o máximo possível! Sentir bem os pés naquela terra, o sol de fim de dia na cara e nas cores, os sorrisos das poucas pessoas que descobriram que aquilo valia como trabalho voluntário oficial: Ajudar a plantar e manter a horta. E a minha parte preferida deste momento, era fazê-lo juntamente com um dos monges mais antigos. Sábios e tão calados. Que naquele específico momento, falava sobre tudo! Sobre ele, sobre o mosteiro, sobre nós. Perdi a conta da quantidade de perguntas que nos fez! A curiosidade dele era bicuda e emotiva. Vê-lo e senti-lo viver a vida lá fora através de nós, deixou-me feliz, porém ao mesmo tempo com um sentimento de aperto, com alguma certeza de que me seria difícil tomar aquela decisão de vida, esquecer tudo o resto, imaginar o mundo, em vez de o viver. Às 17h , um pequeno intervalo: chá, café, chocolate quente. Um mimo discreto, quase cerimonial. Nada é distração, tudo é consciência. Às 18h , o coração do dia: cânticos, meditação longa, e nova palestra. O corpo já cansado, a mente mais aberta. É aqui que muitas coisas caem. Defesas, histórias, identidades. Algumas noites foram leves. Outras, difíceis. Todas necessárias. Às 20h30 , chá novamente e descanso. Sem telemóveis. Sem conversas desnecessárias. Sem fugir de nada. Dormir cedo passa a ser um presente, não uma obrigação. E assim se repetiam os dias. Iguais por fora, profundamente diferentes por dentro. Não era um retiro de relaxamento. Era um mosteiro. E isso sente-se. Nada ali existe para nos agradar - existe para nos acordar. E talvez tenha sido isso que me devolveu algo que eu julgava perdido: uma relação honesta comigo mesma. Não precisei do silêncio absoluto que planeei. Precisei do ritmo. Da estrutura. De deixar de decidir constantemente. De confiar. Saí de lá sem respostas definitivas, mas com algo melhor: espaço. Espaço interno. Espaço para sentir sem fugir. Espaço para estar comigo sem medo. E talvez seja isso que este postal quer dizer. Não é sobre o lugar onde vivi. É sobre o lugar onde voltei a caber. Texto escrito por Inês Simões @ _inessimoes__
- O problema é ir
Apresentam-nos o mundo nos livros, desenham-no em mapas e apontam-nos onde andamos nós e onde andam os outros. Existimos nós e os outros. O cá e o lá. Aqui é seguro, aqui sabes como tudo funciona, onde ir, o que fazer, com quem ir, por onde caminhar. Lá, por esse mundo fora, é incerto, e na incerteza mora o medo. Não sabes onde aterras, não conheces o olhar das pessoas nem a língua que falam, o que comem ou o que fazem. Se quiseres ir para descobrir, dizem-te para marcares a tour, o hotel, o restaurante, não vás tu ter algum azar e depois não sabes como tudo funciona, nesse lugar que não é o teu. Tu nem sequer és dali… O problema é quando mesmo assim, decides ir. Para desafiar essa linha que alguém desenhou do teu lugar seguro. Para te desafiares a ti. Para provares que és de qualquer parte, afinal somos todos do mesmo mundo, ou não? Vais e descobres que as pessoas do lado de lá são exatamente como tu, têm hábitos diferentes dos teus, vestem-se de outra forma e acreditam num outro Deus, mas isso traz-lhes uma magia e a ti acrescenta-te um pedacinho. Foi assim que me senti quando naveguei pelos sentidos do sudeste asiático quando parti pela primeira vez sozinha para fora da Europa, o nosso continente das seguranças e confortos. E depois de descobrir que as linhas que outrora alguém desenhou não são minhas, o mundo, por si só, tornou-se o meu lugar seguro, e o medo de ir metamorfizou-se na vontade de descobrir o que há onde ainda não fui, e por isso, continuo a ir. Hoje escrevo desde a Nova Zelândia. O meu novo lugar, pelo menos durante este ano. Vim um bocadinho mais longe, estou o mais afastada que poderia estar de onde está o meu quarto, troquei-o pela cama tripartida de uma carrinha que se converte na minha mesa de jantar, e ainda que as minhas costas nem sempre concordem, o coração continua a dizer para ir, para continuar. Desta vez venho acompanhada do ombro do meu melhor amigo, que é como trazer o amor pela mão, e o cheiro de casa na roupa. Viemos os dois, com poucas certezas, 2 noites marcadas e umas mensagens enviadas a quem procurava novo dono para o nosso novo T0 e um primeiro trabalho casual arranjado. A partir daí, conduzimos por onde quis o destino. Queríamos tempo, e o tempo vem com a responsabilidade de aqui nos conseguirmos manter, por isso vamo-nos dividindo entre a viagem e algumas paragens para enchermos as nossas carteiras. A Nova Zelândia não é um país barato para poder apenas viajar durante 1 ano. A nossa solução para contornar este pequeno entrave foi termos conseguido o visto de Working Holiday. O problema é mesmo ir a primeira vez, depois disso começa-se a encontrar 1001 maneiras para conseguir ir de novo. Passamos as semanas a mudar de residência e de trabalho. Há sempre uma nova pessoa para conhecer e que nos dá uns trocos para arranjar o jardim, limpar a garagem ou ajudar na quinta. Viemos com a expectativa de encontrar trabalhos em empresas e grandes negócios, mas temos sido essencialmente o tempo e o esforço que as pessoas não têm no seu dia a dia. E assim temos conseguido continuar. Os nossos dois pares de mãos já não chegam para contar as pessoas que nos abriram a porta e nos confiaram a sua casa para cuidar. Com isso vieram os jantares tradicionais, a partilha do modo de vida e dos costumes, a ida à caça e à pesca, o alimentar bezerros e carneiros. Temos vivido nos lugares mais remotos da Nova Zelândia e descoberto as pérolas escondidas nos lugares intocados, onde só quem é de cá sabe. O tempo dá-nos isso, a liberdade para dizer que sim à aventura que surge no momento, à oportunidade que não promete nada ou de fazer aquela estrada que não sabemos onde vai dar, mas nos surpreende pelo caminho. Sempre vi o tempo que temos neste mundo como a maior riqueza que nos foi dada. E foi oferecida assim, de graça, sem premissas ou cláusulas, por algo maior que nós, que não nos diz o que fazer com ele, mas que nos deixa fazer o que quisermos. E se este relógio biológico é o que de maior valor temos, que façamos o que bem nos apetecer com ele. Texto escrito por Matilde Manuel @ _dharma_travel
- Aprender a ir
O que acontece quando deixamos o vento nos guiar? É isso que a Beatriz nos conta hoje. Fazer uma pausa nos meus estudos e escolher tirar um ano nunca foi só sobre parar. Foi sobre confiar. Confiar que o vento sabia mais do que eu. E segui-lo - mesmo sem saber para onde ia. Saí de Portugal com uma mochila às costas e um nó na garganta. Durante as 25h de voos chorava, sem saber se estava a fugir ou a procurar. Hoje sei: estava a ir ao meu encontro. Durante cinco meses e meio, cruzei oito países. Viajei sozinha, adoeci, fiquei longe de quem amo. Mas encontrei bem mais do que perdi. Encontrei silêncio numa estrada vazia. Paz num jardim de mosteiro. Liberdade numa praia esquecida. E abrigo nos gestos de quem não me conhecia, mas cuidou de mim como se conhecesse. Houve quem tratasse dos meus papéis quando não conseguia levantar-me. Quem me levasse pela mão quando estava perdida. Quem me oferecesse fruta, remédios, chávenas de presença. Quem me visse vulnerável, e ficasse. Passei dias sem banhos, noites em camas duras, semanas a viver com o mínimo, meses sem mais do que cabia numa mochila. Cheguei a caminhar pela selva sob o sol, sem muda de roupa e com o corpo a doer. Mas ali, num rio, depois de dois dias sem nada, senti tudo. Gratidão. Entrega. Vida. Aprendi a escutar - os outros, o mundo, o que se passa cá dentro. As conversas com os monges ensinaram-me a importância do silêncio e mostraram-me o valor de estar ali, presente, sem pressas. Lembro-me da venerável que todos os dias me chamava ao seu escritório para me dar um pedaço de ananás, e da outra que, quando me viu a tossir, fez um remédio natural para me ajudar. Os templos tiraram-me o fôlego. Abriam espaço para que eu me sentasse e apenas existisse - deixava o tempo escorrer devagar, enquanto via as pessoas entregues à sua meditação e oração, um ritual silencioso de entrega e presença. As vilas ensinaram-me muito sobre comunidade e ajuda mútua. Lembro-me de quando tiraram uma colmeia de abelhas de uma árvore e depois distribuíram um pouco do mel por todas as casas - um gesto simples, mas cheio de significado. Também participei em recolhas de lixo semanais, um esforço coletivo que mostrava como pequenas ações fazem toda a diferença. As crianças foram talvez a maior lição: eram crianças de verdade, sem telemóveis, usando a criatividade para inventar brincadeiras, tirando do seu tempo livre para aprender mais e sair da zona de conforto. Todos os dias vinham visitar-me, trazendo algo - uma flor da rua, um sorriso - e acabavam por ajudar nas tarefas que tínhamos a fazer. Com elas aprendi que ainda é possível crescer devagar, dia a dia. E nos voluntariados, apercebi-me que não é preciso muito para fazer diferença. Basta estar. Ouvir. Dar um pouco do nosso tempo - ou do nosso cuidado. Perceber que o mundo é muito mais do que aquilo que a sociedade ocidental nos mostra avida toda é uma experiência que nos abana o chão. Crescemos a acreditar que é assim que se vive: cada um por si, sempre a correr, desconectados uns dos outros e de tudo à nossa volta. Chamam-lhe progresso, chamam-lhe normal. Mas foi do outro lado - o lado que tantos evitam, por medo ou preconceito - que encontrei a humanidade mais pura no ser humano. Vi o que é viver em comunidade. Vi o que é estar presente, simplesmente por estar. Onde tudo parece acontecer a alta velocidade, mas o tempo passa devagar. Onde o caos tem ordem, e o humano tem espaço para ser. E depois disso, como aceitar que a vida tem de ser um 9-5, dias iguais, a olhar para o chão, desligados do que importa? Descobri que não, que não tem de ser assim. Que há outras formas de viver, mais conectadas, mais conscientes, mais nossas. E talvez o rumo que tantas vezes sentimos perdido não esteja nas respostas que nos deram, mas nas perguntas que começamos finalmente a fazer. Também houve dias em que quis voltar. Dias em que o coração doía de saudade. Mas mesmo nesses momentos, havia algo mais forte: um sentimento profundo de que estava exatamente onde devia estar. E se o vento me levou até ali, por que haveria eu de lutar contra ele? Descobri partes de mim que talvez sempre cá tenham estado, à espera de espaço para respirar. Percebi que sou curiosa: pelas pessoas, pelas histórias, pelos silêncios que também falam. Que encontro paz a caminhar sozinha, mas brilho quando partilho um lava cake do 7/11 com alguém que acabei de conhecer no meu quarto de hostel. Que sou feita de contrastes: gosto da plenitude do fundo do mar, mas também do caos colorido dos mercados. Que sou mais corajosa do que pensava, e mais sensível do que deixava transparecer. Que o meu lugar não está num mapa, mas em cada momento em que me sinto inteira. Sou alguém que se emociona com um pôr do sol, que ri sozinha numa scooter, que sente o mundo nos pequenos gestos. E que aprendeu, finalmente, a estar - só estar. Mais leve. Mais presente. Sem pressa, sem filtros, sem precisar de muito para estar bem. Mais do que um gap year, este foi o tempo que dei a mim mesma para me reencontrar. Para viver com verdade, sem máscaras nem planos fixos. Para aprender a confiar - no vento, nas pessoas, na vida. Agora que volto, volto diferente. Trago menos certezas, mas mais clareza. Levo menos peso, mais paz. E a certeza de que tudo começa quando temos coragem de seguir o vento. Texto escrito por Beatriz Soares @ pela.rotadovento
- Virar-me para a Luz
Um ano para me aproximar de mim, do mundo e dos outros. Tirar um ano para mim nunca foi sobre parar. Foi sobre procurar. Sabia que precisava de sair, mas não para fugir, para me aproximar. De mim, do mundo e das pessoas. Lembro-me de pensar no girassol quando tomei essa decisão. Aquela flor que todos os dias se vira, naturalmente, para onde está a luz. Era isso que eu queria fazer também: virar-me para aquilo que me alimenta. Durante este ano, fui empurrada para realidades diferentes. Entrei em cidades onde o caos era tão grande que só me restava aceitar. Observei o mundo acontecer à minha frente, sem filtros, sentada em cada canto dos países que me acolheram. Aprendi a estar sem fazer, a ouvir sem responder, a ver sem precisar de entender logo. Havia beleza e generosidade mesmo nas situações mais desconcertantes. Senti isso sentada no chão de um templo aparentemente discreto, onde pessoas anónimas me convidaram a partilhar uma refeição, sem me conhecerem. Não é de encher a alma encontrar um espaço onde voluntários trabalham 24/7 para alimentar o corpo e o coração de quem mais precisa? Senti o mesmo quando uma família, numa aldeia nas montanhas do Vietname, me ofereceu um banco de madeira, uma chávena de chá e uma tarde inteira de histórias. Não romantizo o que vivi: Dormi em tábuas de madeira, partilhei quartos com ratos ou com quinze desconhecidos. Houve dias em que só queria estar em casa. Foram raras as vezes em que tomei um banho de água quente, e adoeci mais do que uma vez. Cheguei até a pernoitar num hospital. Foram momentos que se transformaram em histórias. Ensinar numa escola, numa vila remota, em dias em que a energia não chegava para manter a atenção de trinta miúdos num calor de 40 graus, foi um desafio. Mas mesmo no cansaço, havia ternura - no sorriso de uma criança, na paz de um voluntário mais velho que me fazia lembrar um girassol. Ao longo do caminho, fui conhecendo pessoas que se tornaram referências silenciosas: Um homem reformado que, com 70 anos, viaja o mundo para ensinar inglês onde é preciso. Uma mulher que dedica os dias a cuidar de animais abandonados numa ilha na Tailândia. Um rapaz indiano que hoje chamo de amigo, que, depois de um acidente que lhe mudou a vida, reencontrou o equilíbrio através da fé e da prática do yoga. Pessoas que, como os girassóis, seguem a sua própria luz e que, sem saberem, acenderam um bocadinho da minha também. Com o tempo, deixei de procurar lugares “bonitos” e comecei a procurar lugares vivos. Fugi dos sítios turísticos e fui ao encontro das pessoas. Aprendi a conversar com gestos e olhares quando as palavras não serviam. A observar com mais calma. A reconhecer quando estava a tentar controlar o que não se controla. Vi muito do mundo, mas também vi muito de mim. Descobri que sou mais flexível do que pensava, e que não preciso de muito para estar bem: uma refeição partilhada, uma troca de ideias, um canto tranquilo. Também aprendi que há outra forma de estar: mais presente, mais ligada ao que me rodeia. Em comunidades próximas da natureza, do silêncio e da espiritualidade, percebi que talvez sejamos nós que complicamos demais. Entre montanhas, campos de arroz e mergulhos em águas onde me esquecia do tempo, fui sentindo que cada pequena coisa tinha valor. Perdi-me a observar a simples vida de um agricultor, ou a rotina monótona de um peixe. Aprendi a não dramatizar, a relativizar, a confiar mais no fluxo das coisas e nas pessoas. O mundo são as pessoas. E a natureza. E os animais. E, acima de tudo, aprendi a lembrar-me de que aquilo que damos volta sempre. Agora que volto a casa, não trago apenas histórias ou fotografias. Trago uma nova forma de olhar. De viver. De me virar, sempre, para onde há luz. Como um girassol. Texto escrito por Mariana Batalha @girassol_giraterra
- O meu Postal ao Mundo
Querido Mundo, Por onde começo?! Talvez salte já para o que se refere no fim dos postais, não consigo conter! Tenho saudades tuas, do tamanho… bem, do teu tamanho. Tenho saudades da constante possibilidade, da velocidade com que podia ser quem quisesse, estar onde me apetecesse. Podia ser aspirante a monge na Tailândia num dia, a pintar um mural num infantário muçulmano na Malásia no outro. Explorar o Vietname de mota nas mesmas curvas que o King Kong num dia, e viver na selva com uma tribo da Indonésia no outro. Participar num festival único na Índia num dia, e passar a fronteira até Laos de barco, durante dois outros. Tenho saudades também da menina que era antes da viagem, daquele sentimento nervoso, do choro dos primeiros dias, de alguém que não fazia mesmo ideia do que era vivenciar o mundo desta forma. É uma forma muito diferente de viajar! Não é do tipo em que se coleciona lembranças, mas do que as vive. A mala talvez venha com peso a mais. Do casaco que tive de comprar pela ingenuidade de achar que ia ser sempre verão, do manual de 300 páginas do mês que passei a tentar dominar o Yoga, ou do diário de uma rapariga espanhola que encontrei perdido e achei triste demais deixá-lo para trás. Felizmente as companhias aéreas só pesam mochilas, porque este coração transbordaria a escala. Tanto que não sei onde lhe colocar o excesso! Esta certeza que durante esta aventura, escolhi dizer que sim, a qualquer coisa que me chegasse. Disse que sim a conversas soltas num comboio, e acabei alimentada, cuidada e de convite feito a ir à Austrália visitar, ao que depois de horas de conversa, já parecia ser a minha família também. Disse que sim a um acordar cedo para fazer um trilho com pessoas que conheci horas antes, e acabei por criar um grupo de amigos, com quem, não só viajei por uma semana inteira depois disso, como fiz questão de visitar depois de regressar. Disse que sim a um local quando comentou comigo que conhecia alguém que fazia o tipo de experiência que andava à procura, e acabei a acampar nos Himalaias com um grupo de 90 indianos, a aprender sobre a cultura em primeira mão, e a dar-lhes uma outra nas subidas acentuadas até ao topo. Foram 8 meses. Foram 84 locais de sono. As minhas costas recusam-se a chamar de camas a alguns deles. Mas locais de sono assenta-lhes bem! Foram desde os colchões mais confortáveis onde já dormi, a chão de madeira e camisolas enroladas a fazer de almofada. Foram demasiadas cadeiras de aeroportos, e horas a mais em autocarros com 50 bancos inclináveis a 180º. Foram noites a ser banquete a mosquitos locais, e outras rodeada de formigas que só cumprimentei de manhã. Foram desde casas só para mim, a cantos de sótão divididos por mais pessoas do que a lei permitiria. Foram tendas, barcos, relvados, montanhas geladas, hosteis a cair aos bocados, comboios de filme… Foram relento, alento e turbulento, e não trocava local nenhum (escrevo agora que durmo confortavelmente). Há um ano não imaginaria nada disto. Há um ano comprava o voo para o que seria a aventura de uma vida. Hoje, no mesmo quarto onde o fiz, arrisco dizer que não foi pontual. Foi começo. Foi um recomeço de um modo de vida. Com o desenrascar de quem arranjou sempre forma de chegar a tempo a todos os transportes, mesmo que por vezes tivesse de fazer caminhadas de 2 horas e 25 quilos por não haver boleias naquela rua. Com o confiar de quem salta para a mota de alguém que diz conhecer outro alguém na cidade do lado que me arranjaria o telemóvel, e depois o deixar ser dissecado por uma hora (e sim, acabar por funcionar!). Com um bicho carpinteiro maior do que com o que sai, daqueles que me fizeram tentar tantas versões, brincar às profissões, e analisar de perto tantas religiões. Sempre fez parte de mim, esta ansiedade perante o sossego. O avesso do apego. Que correndo contra o tempo, me perco por andar sempre sem vagar. Escrevi este verso na candidatura à bolsa da Gap Year Portugal. Esta alma inquieta… Que de tanto querer viver Acaba sem saber A quem é, responder. Escrevi-o com uma convicção de quem previa que depois de uma viagem destas se volta com a cabeça resolvida, e a direção assistida. Tenho algumas saudades dessa menina perdida… que ainda te tinha a ti, Mundo, pela frente! A ti e a tantos seres humanos. Abracei mais de 300. E sim, escrevi-lhes os nomes! Porque foram todos uma lição. E é extraordinário como o balanço é sempre positivo nesse teu continente de comida picante e sorriso fácil. Juro que as pessoas lá vivem um paralelo do universo onde nada é assim tão sério, o tempo anda mais devagar e as cores brilham. Escrevi-lhes os nomes porque, sim, os sítios que visitei foram lindos de morrer, mas o que de facto me possibilitou a sobrevivência, foram as pessoas. E desgraçada sorte a minha que me fazia esbarrar sempre com a companhia certa, com os seres que tinha de conhecer, e com aqueles que passados apenas 10 minutos de conversa já estaria a planear uma viagem de mota com 4 mochilas formato casa. Desgraçada sorte que me deixava pistas no percurso até chegar às cidades novas, exatamente ao mesmo tempo. Ou que mas fazia conhecer pelo caminho. Desgraçada sorte que me fazia escapar dos cúmulos do viajante e das intoxicações alimentares. E se continuar a escrever sobre toda a sorte que tive nestes meses, não me sobrava postais para mais nada! Mundo, Não sabia arrancar, e agora não sei parar! E talvez seja este o único mal de ir… Este saber da bondade que existe lá fora, e o que ainda falta ver e conhecer. Mas sabes? Não trocava este sentimento agridoce de quem furou a expectativa de regressar com a mente organizada, nem nenhum caminho de segurança, por todos os riscos que corri lá fora. Que nunca me esqueça deste modo de te viver, Mundo. Sem medos, e de coração aberto de novo a confiar no que poderá estar à minha espera no próximo ferry. Foi uma aventura de uma vida. Só que está só a começar ⭐️ Texto escrito por Inês Simões @ _inessimoes__
- O mundo que cabe na casa da Dona Maria
Entre a ansiedade que a sufocava e a morabeza que a abraçou, a ilha do Maio - e uma mulher chamada Dona Maria - mudaram o rumo do gap year da Beatriz. Falta de ar, calafrios, coração a palpitar a mil, pensamentos acelerados que não dão tréguas… Poderia ser a adrenalina do início do meu gap year, não? Na verdade era só um dia normal numa vida tantas vezes passada em “modo auto-piloto”... Sem questionar, como tantas outras pessoas, fui construindo durante anos a vida “aparentemente perfeita” - o trabalho certo (foco na carreira é importante, dizem!), a relação longa, e objetivos bem definidos: carro, casa e mais uns quantos itens da clássica checklist. E a vozinha interior que me dizia para largar tudo? Só devia estar louca… Pensei muitas vezes que só poderia haver algo de errado comigo. Que largar tudo era muito má ideia… Não sei dizer exatamente o momento em que tomei coragem para me despedir e ir simplesmente viajar. Lembro-me contudo do peso que me saiu de cima quando o fiz. Lembro-me da ansiedade só diminuir nas primeiras viagens, do alívio de estar longe das expectativas alheias ser tão grande… E sentir que podia ser simplesmente eu… E depois vieram aventuras infindáveis que por si só dariam mil histórias! Da natureza às pessoas com quem cruzei caminho e que me mudaram! Viver na pele aquilo que já sabia - nós não fomos feitos para estar dentro de 4 paredes (muito menos em frente a ecrãs!). Fomos feitos para ir para o mundo, para viver, para partilhar o melhor que nós temos. E é muito curioso que é preciso ganharmos coragem para nos ouvirmos a nós mesmos quando deveria ser a coisa mais natural do mundo… Ao longo do meu gap year conheci pessoas com histórias bem mais interessantes que a minha, por isso vou abstrair-me de falar mais de mim (acreditem, iam ficar aborrecidos). Sinto-me na liberdade de contar uma delas - provavelmente a história de uma das minhas pessoas preferidas no mundo: a Dona Maria. A Dona Maria viveu na ilha do Maio a vida toda - é a sua casa. O Maio… esta ilha meio esquecida no Atlântico, onde muitas vezes falta a água mas nunca falta a bondade e a morabeza. A Dona Maria tem três filhos, já criados. Vive sozinha mas nunca está só porque assim é o Maio. O Maio é comunidade. E todos os dias passam à porta da Dona Maria crianças da nossa rua a querer brincar, vizinhos e amigos que dizem “onde está a Maria?”, “Maria, trouxe-te queijo”, “Maria, como correu o médico?”. A Dona Maria tem 2 trabalhos, algo muito pouco comum no Maio, onde o trabalho é escasso. Mas a maior particularidade da Dona Maria é a boa disposição mesmo quando a vida nem sempre sorri de volta. Ah, ela também está sempre preocupada se comeste o suficiente (vai sempre achar que não). A Dona Maria fica feliz com coisas simples. Coisas como ter uma casa equipada com torneira e um depósito de água no telhado. Coisas como ter a parede da sala pintada. E, sem dúvida alguma, coisas como uma boa cachupa. Tive muita sorte em viver na casa da Dona Maria durante os meses em que estive no Maio. Sei que lhe dei trabalho! Enchi muitas vezes a casa de areia depois da praia, deixei muitas vezes metade da comida no tacho e ainda fiquei doente lá pelo meio. Mas ela sempre cuidou de mim, como faz com todos. Já em Portugal, depois de muitas despedidas, envio à Dona Maria uma figura de Santo António, num agradecimento meio desajeitado, sabendo eu que é difícil agradecer como merecido a alguém que tocou a nossa vida e o nosso coração. Mas claro que ela me envia de volta a mensagem mais feliz do mundo (não seria de esperar outra coisa). E agora, de vez em quando quando dou por mim a reclamar da vida, lembro-me do Maio, da alegria de quem me recebeu, e lembro-me da Dona Maria. E depois disso reclamo um bocadinho menos… Texto escrito por Beatriz Ribau @beatrizriba u
- O Encanto dos Mercados de Natal na Europa
Os mercados de Natal na Europa são uma tradição mágica que remonta há séculos e proporcionam uma experiência que te vai encantar. Com luzes cintilantes, aromas de especiarias e vinhos quentes, e uma atmosfera única, cada mercado oferece algo especial. Quer sejas fã dos destinos mais clássicos ou prefiras descobrir hidden gems , este guia leva-te numa viagem encantada! Sabias que os mercados de Natal surgiram no século XIV, na Alemanha? O mercado de Dresden, por exemplo, é de 1434 e continua a ser um dos mais famosos. Estes mercados eram originalmente uma forma de celebrar o Advento e rapidamente se tornaram parte da cultura natalícia europeia. Hoje, são celebrações repletas de gastronomia, artesanato e tradição. Os mercados de Natal mais famosos Alemanha: Onde Tudo Começou Nuremberg (Christkindlesmarkt) : Este é um dos mercados mais antigos e autênticos, inaugurado pelo Christkind. Experimenta o Lebkuchen (biscoito de gengibre) e explora os brinquedos artesanais. Dresden (Striezelmarkt) : Aqui vais encontrar o famoso bolo Stollen e uma impressionante Pirâmide de Natal de 14 metros. Áustria: Natal nos Alpes Viena : A Câmara Municipal transforma-se num cenário mágico, com vinho quente (Glühwein) e pistas de gelo. Salzburgo : Combina o encanto medieval com a herança musical de Mozart. Passeia pelos mercados e deixa-te envolver pela música clássica e o aroma de castanhas assadas. Extra : Faz uma paragem em Hallstatt , a icónica aldeia alpina, para um cenário de postal. França: Elegância Festiva Estrasburgo : Conhecida como a "Capital do Natal", é famosa pela árvore de Natal gigante e pelas luzes deslumbrantes. Colmar : Esta vila parece saída de um conto de fadas, com mercados temáticos espalhados pelas ruas. Extra : Explora a Rota dos Vinhos da Alsácia para um toque ainda mais especial. Reino Unido: Uma Abordagem Moderna Londres (Winter Wonderland) : Mais do que um mercado, é um grande evento com pista de gelo e atrações. Extra : Localizado a uma hora e meia de Londres, fica o Blenheim Palace , um palácio repleto de decorações natalícias, tanto interiores como exteriores. Este ano o tema da decoração interior é o filme Peter Pan. Edimburgo : Localizado nos Jardins de Princes Street, oferece produtos locais e vistas deslumbrantes do castelo. República Checa: História e Tradição Praga (Praça da Cidade Velha) : A atmosfera mágica combina com o cenário do relógio astronómico. Prova o famoso trdelník e desfruta dos coros natalícios. Extra : Caminha até ao Castelo de Praga para vistas deslumbrantes da cidade iluminada e faz um passeio pelo Bairro de Malá Strana. Os mercados de Natal menos conhecidos, as hidden gems Para te afastares das multidões, estes mercados são uma alternativa encantadora: Riga, Letónia : Diz-se que a tradição da árvore de Natal decorada começou aqui, em 1510. O mercado realiza-se na Praça da Catedral e é um dos mais pitorescos da região báltica. Montreux Noël, Suíça : Este mercado situa-se junto ao Lago Genebra, oferecendo vistas incríveis dos Alpes. Há também um "comboio do Pai Natal" que leva os visitantes até à aldeia natalícia em Rochers-de-Naye. Bratislava, Eslováquia : Localizado na Praça Principal da cidade, este mercado é menos turístico e mais voltado para os habitantes locais, mas com gastronomia deliciosa e preços acessíveis. Graz, Áustria : Este mercado é menos movimentado que Viena ou Salzburgo, mas igualmente encantador. A Praça Hauptplatz ganha vida com luzes e música. Rothenburg ob der Tauber, Alemanha : Esta pequena cidade medieval na Rota Romântica da Alemanha é uma jóia por si só. O mercado natalício combina a arquitetura medieval com tradições autênticas. O museu do Natal, aberto todo o ano, é um complemento perfeito para a visita ao mercado. Gengenbach, Alemanha : Este mercado na Floresta Negra tem a maior "Calendário do Advento" do mundo, onde as janelas do edifício da Câmara Municipal se transformam em aberturas do calendário. Pestera, Roménia : Localizado na aldeia de Pestera, no sopé dos Montes Cárpatos, este mercado é pequeno, mas oferece uma experiência rústica e autêntica. Os mercados de Natal mais originais Govone (Il Magico Paese di Natale), Itália : Este mercado, localizado na região de Piemonte, transforma a aldeia num mundo de fantasia inspirado no Natal. Com espetáculos teatrais, oficinas para crianças e vinho Barolo da região, a entrada é cerca de 12€ por adulto e as crianças até aos 10 anos entram gratuitamente. Valkenburg, Países Baixos : Realizado dentro de grutas subterrâneas, é um dos mercados de Natal mais singulares da Europa. Com decorações em pedra, esculturas e artesanato local, a entrada é cerca de 9-12€ por pessoa, dependendo da gruta. Helsínquia, Finlândia (Mercado de Santa Lúcia) : Este mercado destaca tradições finlandesas e escandinavas. No dia 13 de Dezembro, há um desfile para celebrar o Dia de Santa Lúcia. Dicas Práticas Preços : A maioria dos mercados são gratuitos, no entanto, há mercados temáticos como o de Valkenburg (9-12€) ou o Montreux Noël (50 CHF para o comboio até à aldeia natalícia) que podem ter custos. Gastronomia : Não te esqueças de experimentar delícias típicas como Glühwein (vinho quente), biscoitos de gengibre, salsichas e Goulash (encontras estas iguarias em mercados como os da Alemanha e Hungria) e Trdelník (um doce em forma de espiral clássico nos mercados checos). Canecas de recordação : Nos mercados, o vinho quente é servido em canecas reutilizáveis (depósito de 3-5€). Se quiseres, podes guardá-las como recordação. Alojamento alternativo : Para ser mais económico, podes optar por ficar em cidades próximas e viajar de comboio. Como pudeste ler, opções não te faltam! Por isso, escolhe um destes mercados e aproveita a magia natalícia que se sente neste período do ano. Não te esqueças de partilhar connosco a tua experiência e se tiveres alguma sugestão, podes sempre deixar nos comentários. Boas viagens e feliz Natal! ✨
- Mãe, Pai, quero fazer um gap year
Na hora de planear o gap year, surgem sempre muitas dúvidas e problemas, sendo que um deles é, frequentemente, conseguir convencer os pais. Damos-te algumas dicas que podem ser úteis para que eles entendam a importância que este ano de pausa pode ter na tua vida. Planear, planear e planear Há quem pense que um gap year não deve ser muito planeado: voos comprados e um passaporte bastam, o resto decide-se pelo caminho. Mas, no que toca a um projeto desta dimensão, o planeamento pode ser realmente necessário. Ninguém pode dizer que não a um projeto delineado consoante a tua vontade e aquilo que necessitas. Estuda os meios de transporte, vê os alojamentos, cria tabelas com as despesas prováveis , tudo para que demonstres o teu interesse na viagem. Mostra que vais estar bem A saúde e a segurança em viagem são dois pontos fulcrais do teu gap year. Acidentes e perdas de documentos são cenários possíveis, ainda que os queiramos evitar. Obviamente, não podemos prever todos os incidentes da nossa viagem, mas há algumas coisas que podemos prevenir , ainda em casa: ter aulas de defesa pessoal ou artes marciais, fazer cópias do passaporte (tê-lo digitalizado no telemóvel pode ser uma ideia) e, sobretudo, investir num seguro de viagem (descobre como obter um desconto nos seguros Iati aqui ). Pesquisar para prosperar Ideias de fazer voluntariado? Ótimo! Primeiro passo? Fazer uma pesquisa (de preferência alargada!) de organizações que desenvolvam projetos com os quais te identificas e que sejam bons para a comunidade em que estão inseridos . Infelizmente, nem todas as oportunidades de voluntariado geram tantos benefícios quanto pensamos. Para auxiliar nesta escolha e evitar constrangimentos. Trabalhar para viajar Um dos maiores preconceitos acerca de um gap year é que só os ricos o podem fazer. Isto é FALSO! A maioria dos gappers trabalha antes ou até durante a viagem para poder pagar as suas despesas . O aconselhável é trabalhar durante alguns meses antes de partir. E se mesmo assim faltar dinheiro, nem tudo está perdido! Há muitos locais que oferecem alojamento em troca de trabalho. Nesta era tecnológica, o que não falta são plataformas como a Workaway ou Worldpackers para te auxiliarem nesta necessidade. Ou então, podes incluir tempo de trabalho como parte da tua viagem. É uma possibilidade bastante enriquecedora para o teu currículo! Mantém-te em contacto Nos dias que correm, estar incontactável é praticamente impossível mas, ainda assim, pode acontecer. Faz sentido que te informes sobre o custo das chamadas no teu destino. Se achares necessário, podes investir num cartão de telecomunicações que te permita falares com alguém que esteja do outro lado do mundo. Há ainda quem crie páginas onde possa relatar a sua vivência e os acontecimentos do dia a dia . Não existe uma fórmula mágica para que possas convencer os teus pais. Cada pessoa vê o mundo à sua maneira, que pode não coincidir com a nossa visão das coisas. Há certas decisões que levam tempo a ser tomadas e ideias que precisam de amadurecer. Ouvir um “não” duas ou três vezes não implica que essa será a resposta para sempre. Aceita a opinião dos teus pais, mas não te deixes reger unicamente por ela: é da tua vida que estamos a falar, podes vivê-la como achares que faz mais sentido. Texto escrito por Helena Fonseca











