Trocar as voltas às voltas da vida

Há momentos em que a vida nos dá a volta. Quase nos prega partidas, estraga-nos planos, faz de nós reféns. Pois eu acredito que a vida é aquilo que dela fazemos, que os fatores externos que a influenciam são apenas guias, sugestões de rota, sinais, e não prisões. Gosto de fazer desses bloqueios, blocos de construção, dos quais o meu caminho se vai imperfeitamente construindo e transformando comigo.

a nossa voluntária Filipa em Veneza

Há também, dentro de tudo aquilo que um gap year é e representa, muitas voltas e reviravoltas com as quais temos de lidar. Nem só de voltas ao mundo é feito este ano de paragem; é também toda uma viagem desde o dar a volta a uma situação inesperada, até mesmo ao voltar a casa e à rotina de coração apertado e sem mãos a medir.

O meu gap year viu-se abalado e revirado por este bicho de que já todos estamos fartos de ouvir falar, mas nem por isso viu o seu fim. Pelo contrário, deixou-se prolongar e transformou-se naquilo a que gosto de chamar “a vida a acontecer”. É também uma prova de resiliência – palavra-chave neste universo do gap year – o saber-se dar a volta, mais ainda quando o mundo parece querer deixar de girar. A princípio pensei que atacara na pior altura, este bicho, neste ano que era só meu, em que só queria voar e crescer. Contudo, a seu tempo percebi que, mesmo que aquando da pandemia virológica o limite tenha deixado de ser o céu, para ser uma bolha de isolamentos e restrições, em nós, nenhum limite existe. As minhas asas ninguém corta, há muito por onde voar cá dentro. E o quanto mais não cresci eu por ver este meu ano de repente de pernas para o ar!

Dei a volta. Quando vi canceladas idas, voltas e sonhos, quando dei por mim às voltas na cama nas noites sem fim de confinamento, longe de casa, até quando voltei e não me senti de volta, e me vi obrigada a voltar a partir. No fundo, não perdi a “voltagem” nem a coragem para querer e fazer sempre mais. Tão pouco me martirizei quando não podia fazer mais nada, há que aceitar e deixar fluir. Repensei planos, adiei voos e esperei, quando o que mais queria era ir. Porém, não me deixei ficar para trás e fui reescrevendo a minha história, um bloquinho de cada vez. Pois no fundo o que importa é viver. É partir se fizer sentido e ficar quando tem de ser. Fazer dos obstáculos, aprendizagens e dos contratempos, alternativas. Entre dois gap years e uma pandemia, dei a volta à volta que a vida me deu.

Texto escrito por Filipa Pinto, voluntária na Gap Year Portugal

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