Mãe e filha à descoberta do (seu) mundo

Vamos ser sinceros. Quando embarcas numa aventura por um país desconhecido, a tua mãe não será a escolha mais óbvia de companhia. Mas confia em mim quando te digo que é uma experiência tão ou mais enriquecedora do que viajar com amigos, sozinha ou com um namorado. Já tive oportunidade de me aventurar nas quatro (embora a viagem sozinha seja uma afirmação arriscada e com o seu quê de ficção, tratou-se apenas de um retiro de quatro dias a poucos quilómetros de casa) e a viagem que mais marcou foi, sem dúvida, atravessar a Suíça de comboio durante nove dias com a minha mãe.

Zurich – Foto tirada pela minha mãe

Aqui me confesso. Tive alguns receios, claro. O primeiro foi pensar que se alguma coisa corresse mal entre as duas, talvez tivéssemos que regressar mais cedo para casa. Imaginem duas mulheres com uma personalidade vincada e teimosas q.b. (vai ser hoje que vou perceber efetivamente se lê o que escrevo!), a discutirem por algum motivo tolo. Se acontece por cá, quando estamos cada uma no seu trabalho o dia todo, não haveria de acontecer em nove dias na companhia uma da outra 24/7? Claro que sim. Nem que fosse pelos ingredientes da pizza do almoço que partilhámos em Genebra (uma para duas, que 20 CHF é dose…sim, aconteceu mesmo). Mas há maneira de contornar a situação. Já lá vamos.

O segundo receio foi pensar que iria ter que alterar alguns dos meus hábitos de viagem, por se tratar da minha mãe. Desenganem-se. No que toca a partilhar com os filhos uma experiência nova ou a entrar um bocadinho no seu mundo, as mães estão dispostas a tudo. Só querem ver o mundo pelos nossos olhos.

Luzern – Foto tirada pela minha mãe.

Vamos a isso. Mãe e filha a bordo de um avião a caminho de Zurique, depois de tomada a decisão de só levarmos o mínimo indispensável para vestir. As Birkenstock de que tanto gostamos as duas ficaram em casa. O conforto máximo pelo cansaço mínimo pede ténis. Chegadas à cidade, temi. O check-in no hostel só podia ser feito algumas horas depois e não tínhamos nada planeado para preencher aquele tempo morto. Sem demoras, a minha mãe tomou a decisão de metermos a mochila às costas e de começarmos a conhecer a cidade a pé. Em espírito aventureiro e energia, já começava a ganhar (1-0, vantagem para a mãe).

Então e no hostel, perguntam vocês? Nem todas as mães alinhavam nisso e a minha surpreendeu-me a cada minuto que passava. A única exigência era termos uma casa de banho só para as duas e alguma privacidade. De resto, não eram necessários mais luxos nenhuns. No quarto do hostel em Zurique, não conseguíamos estar as duas de pé ao mesmo tempo, saltávamos do chuveiro para a cama e da cama para o chuveiro e jantávamos uma no parapeito da janela e a outra no fundo da cama. Mas foi super divertido. Neste campo, Berna vai sempre ganhar pontos porque conseguimos ficar num hotel. Foi tão podermos ir à casa de banho sem tropeçar uma na outra.

Com o dinheiro que já tínhamos que gastar no cartão da SBB (para pagarmos metade do preço em todas as viagens de comboio entre cidades – a Suíça tem uma das melhores linhas de comboio do mundo e uma das mais caras também), a solução para pouparmos uns trocos enquanto nos deslocávamos dentro delas era uma combinação entre os elétricos gratuitos em quase todas as cidades para quem fica alojado pelo mínimo de uma noite nalgum estabelecimento local (nem todos os hostels e guest houses têm essa possibilidade, no entanto) e andar a pé. E eu sou fã da última opção. Não há nada como reservar alojamento fora do centro da cidade e ir e voltar “a penantes” todos os dias. Quilómetros atrás de quilómetros todos os dias? Para mim era fácil, achava eu, mas será que também seria para a minha mãe? Fiquei a aprender que subvalorizamos as suas capacidades e força de vontade. Que temos as nossas mães todas num patamar meio sagrado, onde achamos que pela sua idade não são capazes de fazer isto ou aquilo ou até mesmo de partir à aventura. Que já só querem estabilidade e que não alinham num bom desafio. Ensinam-nos o contrário quando as levamos a arriscar. Nunca nos deixam ficar mal, exceto quando contam histórias embaraçosas de quando tínhamos sete anos.

Montreux – Também podia ter sido tirada pela minha mãe, mas esta é das minhas.

No comboio entre Montreux e Gruyères (nos Alpes) tive alguma ansiedade. Um comboio já antigo e com muitas carruagens, caminhos de ferro estreitos e uma subida que parecia não acabar a causarem-me um tamanho desconforto e a não me deixarem desfrutar do percurso em pleno. Há pequenas coisas que mexem comigo e relativamente às quais estou a trabalhar, mas ali, naquele momento, a solução foi olhar para a minha mãe que ia delirante e deliciada no banco em frente, a olhar para a janela. Contemplava tudo o que acontecia, os verdes dos alpes (fomos no verão), as casas perdidas no meio das montanhas, os pequenos apeadeiros por onde íamos parando e as suas peculiaridades, as manadas que iam aparecendo, e ia tirando notas dos nomes das terras para, chegada a noite, fazer o relato ao meu pai e para nunca mais se esquecer (ainda hoje, se por acaso nos deparamos com o nome de algum desses sítios me pergunta se me lembro e solta um sorriso de satisfação e reconhecimento).

Como vês, ter a tua mãe ao teu lado só melhora a experiência. Quando saímos na estação de comboios errada e nos aventurámos por La Tour-de-Trême até vir o comboio seguinte, podia ter corrido tudo mal. No dia mais planeado de toda a viagem, em que íamos a Broc visitar a fábrica de chocolates e a Gruyères ver como se fazia o queijo, saímos do comboio uma estação antes do que era suposto e para tentar remediar o assunto decidimos seguir uma família de chineses que sabia para onde ia ainda menos que nós. Estávamos a perder horas, mas a minha mãe não stressou. Já que não podemos fazer nada a não ser esperar, vamos ver onde podemos comer qualquer coisa. E foi nessa procura que descobrimos aquela que foi uma das vilas mais portuguesas que encontrámos naqueles nove dias, uma terriola no meio dos Alpes de onde nunca mais nos vamos esquecer do restaurante Chez Rosa com o símbolo da Super Bock colado várias vezes na mesma montra.

Foi uma viagem de ponderação, de superação, de muito carinho e compreensão. Pequenas zangas e birras que passaram com cedências das duas partes. Não somos todos iguais e não gostamos todos do mesmo, é perfeitamente normal que discordemos. Só temos é que tirar partido dessas diferenças. E uma coisa é certa. Fazem com que os momentos passados valham muito mais do que alguma vez podíamos imaginar.

Para terminar este texto e concluir o meu ponto, fiz o exercício de perguntar à minha melhor amiga que embarcou numa viagem com a mãe na semana passada como estava a correr. Muda o país (no caso delas andaram a conhecer Itália, Croácia, Montenegro, Albânia e Grécia), mas o testemunho mantém-se. Uma viagem assim só serve para comprovar que as nossas mães não têm mesmo medo de nada (a minha carregou-me praticamente ao colo quando tive um ataque de pânico no meio de um parque em Genebra e a mãe da minha amiga enfrentou uma viagem de autocarro por Montenegro em contramão na maior das tranquilidades), que vão buscar força ninguém sabe bem onde para nos sentirmos seguros e que afinal até conseguem tirar boas fotos. Até punha aqui uma selfie da minha, mas já gastei os meus créditos ao dizer que era teimosa.

Por Joana Ribeiro

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