Interrail Vintage

Esta semana trazemos-te mais uma vez o Luís Caeiro de Sá. É gestor de profissão, mas a sua grande paixão são as viagens.

A sua primeira aventura de longa duração fora de Portugal foi aos 20 anos, quando embarcou no seu primeiro interrail (sim, o Luís fez 3 interrails pela Europa). A partir daí, o bichinho pelas viagens nunca mais parou.

Já viajou por quase todos os cantos do mundo. Todos os anos faz pelo menos 2 viagens grandes em família – fora as que faz mensalmente em trabalho – e já teve a oportunidade de explorar países como o Sri Lanka, Islândia, São Tomé, Indonésia e o México.

Vê as viagens como a melhor forma de crescermos, tanto a nível pessoal como profissional, e passou a sua vontade de arrecadar milhas aos seus filhos, que vêem qualquer semana de férias como uma maneira de escaparem e viajarem até ao outro lado do mundo.

Hoje, traz-nos algumas vivências e aventuras dos seus 3 interrails nos anos 80.

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2 dos 3 passes dos interrails

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A pedido da equipa da Gap Year Portugal, algumas palavras sobre as minhas vivências e aventuras passadas nos meus interrails.

Fiz três interrails, todos com destinos diversos. Por norma, evitei sempre grandes capitais, na esperança e expectativa que mais tarde seria mais fácil e acessível ir lá. Felizmente, não me enganei! Comecei pelo Reino Unido, com destaque para a Escócia e Gales, no segundo a Europa central e Grécia, e no terceiro fui para norte até Dinamarca.

Tive todas as situações possíveis de viagem. Com colegas de faculdade, com os meus melhores amigos de infância, sozinho, só com um amigo de infância. Qual a que gostei mais… Talvez com os meus 4 amigos de infância … 5 “gajos” à solta a caminho das ilhas gregas! Ui!

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Luís e os 4 amigos de infância nas Ilhas Gregas, no 2º interrail

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Este interrail, o segundo, tem algumas histórias para contar. Por causa do meu part time, tinha datas diferentes das deles, pelo que comecei duas semanas antes e sozinho. Fui daqui para a Áustria, via Suiça. Em Viena fui para casa de umas amigas que tinha conhecido um ano antes na Escócia e que já tinham vindo a Portugal, também em interrail, tendo ficado nas nossas casas. Em Viena, pegaram em mim e levaram-me a todos os locais especiais, dia e noite. Numa noite lá acharam que me deviam mostrar algo típico (como aqui ir aos fados)… e aqui faço um parênteses cultural pelo menos naquela época, todos o(as) austríacos cresciam a dominar integralmente duas coisas, ski e … valsa. Pois lá me levaram a um local “in” na altura que era uma discoteca normal na cave e pista de valsa em cima! Centenas de casais a deslizar harmoniosamente e um “gajo” com pés de chumbo a olhar para aquilo. Minutos depois lá estavam elas a dançar valsa e eu na discoteca..

Mas a partir dali fui a locais maravilhosos… procurem “Zell Am Zee” ou “Grossglockner”…  e terminei na Hungria. Mas antes, a Petra, uma das minhas amigas, levou-me a um Banco local, segundo ela, paragem obrigatória para qualquer austríaco que fosse à Hungria. Devíamos sempre trocar a moeda na Áustria porque o câmbio era “10 vezes melhor” que na Hungria. Lá troquei o dinheiro e no final o caixa disse algo do género “ Claro que sabe que se for apanhado são vários anos de trabalhos forçados por tráfico de divisas… “ O quê?!?! Agora é que me dizes isso! Animal!! E agora, que faço! “Calma”, disse a Petra… “Todos fazemos isso”… Nem por isso mais tranquilo, lá fui… No dia seguinte, comboio para Budapeste… Atravessar a “Cortina de Ferro”, passar pelo inimigo… A carruagem ia cheia de ocidentais como eu, tudo a olhar uns para os outros.  A aproximação à fronteira era imponente. Um descampado imenso só com relva e torres de vigia espalhadas pela paisagem, todas com um guarda armado e um cão. E todos a olhar na mesma direcção! Ao fundo, via-se o que parecia ser uma cortina de árvores. Ao aproximar, era mesmo um “tipo sebe” de árvores e arbustos, seguido de sebes metálicas com arame farpado. A Hungria… O comboio entrou numa floresta e, de repente, de um dos lados, centenas de tanques e veículos blindados, cobertos por redes de camuflagem. Uma das famosas divisões russas, prontas a “atacar o ocidente” – a guerra fria no seu melhor! O comboio pára logo a seguir numa estação e entram de imediato dúzias de homens fardados e com AK47, acompanhados com umas revisoras super giras a perguntar “Passport” e “Money Exchange”. Não referi, mas desde há uns bons minutos que estava absolutamente aflito por causa do dinheiro… nem comento! Disse que não queria dinheiro “Ai, Ai ! “ ao que elas sorriram e carimbaram o visto do passaporte. Tudo Ok, siga! Claro que na carruagem ninguém quis dinheiro porque todos traziam e até aquele momento estava tudo tão aflito como eu… Budapeste era espectacular. Era o destino de férias dos jovens da Europa de leste. Só posso dizer bem do que vi, ou fiz! Claro que era um desafio à navegação. Ninguém falava qualquer língua ocidental e o húngaro não é propriamente acessível. E comparativamente mais barato que o sudoeste asiático hoje…

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Budapeste, Hungria

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Mas indo adiante, tinha combinado com os meus amigos no dia “X” em Veneza entre as 12h e as 13h na porta principal da Catedral na Praça de S. Marcos… Combinações antes das novas tecnologias… No tal dia “X”, cheguei bem cedo a Veneza e na estação, fui andando à procura do depósito de bagagens para largar a mochila. Vi uma fila de centenas de pessoas com mochila às costas… Bolas, é mesmo aqui! Fui andando para ver se não havia alternativa… 2 ou 3 tipos antes do final da fila estavam os meus 4 amigos!!!… Deixem lá os abraços, tomem é a mochila! E lá fomos ver Veneza e depois Grécia. Atravessámos a Jugoslávia ! 2 dias de calor infernal, num comboio sobrelotado, com revisores e locais cuja formação de base parecia ser de como “chatear e sacar” ao viajante ocidental… Paisagens , usos e costumes a embrutecer à medida que íamos para sul. De Sarajevo, lembro-me do comboio vir de cima pelas colinas tristemente célebres na guerra da Bósnia, uns anos mais tarde. Atenas estava infernal, quase 50º. Nas fontes não nos refrescávamos, atirávamo-nos lá para dentro!

A seguir, Ilhas! O barco a zarpar do Pireu ao pôr-do-sol! Que sensação de aventura! De ilha em ilha até a um local mítico na altura: “Ios”. Uma ilha sussurrada de boca em boca na Europa, famosa pelo seu ambiente,  “beach by day, party by night”, “all night long baby, all night long!”. Pessoas de toda a Europa misturavam-se numa festa contínua… Lembro-me que apenas se devia evitar ajuntamentos de italianos a olhar para ingleses e vice-versa. Eram recentes as batalhas campais de hooligans e os acontecimentos da batalha de Heysel Park, pelo que tinham ocorrido alguns ajustes de contas, especialmente entre bêbados que era coisa que não faltava…

Nos 3 interrails, nem tudo foi festa. Aproveitei e visitei monumentos, museus (Guggenheim de Veneza, Acrópole e museu, Nacional da Escócia, Castle Rock em Edimburgo, Vikings em Roskilde, o Van Gogh em Amesterdão, etc, etc), na Escócia fomos uma manhã bem cedo ver umas cascatas onde os salmões saltavam ao subir o rio para a desova… aquilo que se vê nos documentários da TV! Posso dizer que pelo menos aqueles salmões eram bem grandes. Antes de os ver pensavam que eram do tamanho de carapaus ou parecido! (Nessa altura, não havia quase salmão à venda em Portugal). Ou num youth hostel no meio de um parque natural na Escócia onde à noite se ouvia distintamente os veados a bramir! Há, sim… e esta pousada de juventude era um castelo…

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Pousada de juventude na Escócia que, para além de ser um castelo, é a maior da Europa. Loch Lomond

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As histórias e memórias felizes são muitas. Aliás, não tenho qualquer situação chata ou infeliz a relatar… mas termino com uma aventura na Escócia. Numa pousada de juventude, situada no meio do nada nas Highlands, fomos com um australiano que lá trabalhava a um Pub nas proximidades. Estava eu, um colega de faculdade e uns italianos que tínhamos conhecido. Era um barracão isolado. Quando entrámos, foi uma cena à filme. Estava cheio, de gajos com cabelo “mohawk” ou pior. E garanto que o barracão quase ficou em silêncio com aquela malta a olhar para nós. A situação não melhorou quando um italiano para “quebrar o gelo” perguntou “Are you english?”, ao que a resposta irada veio de imediato de várias bocas “No, we’re scotish!!” Mas, de seguida, perguntaram de que clube eram os italianos (eram do Inter) e logo começaram a todos com cânticos de estádio. Eram apoiantes do Glasgow Rangers, que tinham ganho ao Inter nesse ano na Europa. E tudo continuou numa noite fenomenal de cânticos e copos, pela noite dentro, com o Pub já fechado.

Que me deu esta experiência? Uma visão nova e mais alargada das pessoas, da inter-ajuda, do desenrascanço. Novos horizontes, novas culturas, uma vontade imensa de conhecer mais e ir mais além. Sem dúvida que me tornou numa nova e melhor pessoa e me influenciou muito positivamente toda a minha vida pessoal e profissional!

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Mapa do interrail de 1985

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Passei esse bichinho aos meus filhos e à minha esposa. Aliás, que melhor prova disso! Na lua-de-mel, tivemos de optar entre sofás e 3 semanas na Turquia. Decisão fácil e rápida! Lá fomos nós com as duas primeiras e as duas ultimas noites marcadas… o resto lá nos orientámos! Ainda hoje, sempre que podemos, aí vamos nós, aí vão eles.

A quem puder, não hesite! E para obter dinheiro e/ou disponibilidade para ir, tudo na vida se gere por prioridades e opções! Trabalhei e optei por abdicar de coisas para poder ir. E nunca me arrependi!

Luís Caeiro de Sá

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