Sobre a inquietação do viajante

Todos falamos do incrível que é viajar, partir do nosso dia-a-dia rotineiro para umas semanas ou meses de aventura e descoberta. Nunca ninguém fala do que vem a seguir. Do regressar. Não o fazemos porque por vezes é difícil demais lidar com isso. Difícil voltar a uma rotina. Difícil regressar ao dia-a-dia que era o nosso, meses atrás. Difícil esquecer e calar as aventuras pelas quais outrora passámos. Nos primeiros dias, é tudo muito bonito, contar as novidades, matar saudades dos amigos e surpreendê-los com postais trazidos do outro lado do mundo. Na primeira semana ouvem com atenção (às vezes) as tuas aventuras e dizem-te que também gostavam de ir, que da próxima vez irão contigo. Tu até ficas entusiasmado por partilhar aquilo que gostas com os que gostas, e até te disponibilizas para ajudar  em viagens, em planos…mas, lá no fundo, sabes que eles não irão contigo. Às vezes ainda tens aquela réstia de esperança que eles estejam a falar a sério. Mas não, sabes que não o farão. Adoram as histórias, durante os primeiros tempos, mas o entusiasmo passa porque eles não são como tu. Porque a tua inquietude te é intrínseca e teve anos para ganhar raízes.

Com o tempo, eles fartam-se das histórias e a rotina até o teu corpo  arrasta. Os outros emergem no quotidiano e tu ficas sozinho, com os teus sonhos e recordações, que não desaparecem com o tempo. A tua mente permanece presa num limbo, porque as memórias são demasiado fortes, e porque sentes a tua verdadeira vida lá muito longínqua. Porque és do mundo e queres o mundo e nem toda a gente é como tu. Porque procuras aventura mesmo que te sintas em casa. Porque nunca deixas de fazer planos, de sonhar, de querer. Porque a tua alma é de viajante e nunca te conformas com o que te dizem ser impossível.  Porque não te contentas com o que é considerado normal. Porque os teus instintos te narram histórias improváveis de mundos que para muitos soam imaginários mas tu sabes serem reais.

E, assim, vais-te afastando de tantos. Porque não percebem a tua ânsia por coisas novas, porque tu não consegues passar um dia sem consultar um mapa, sem ir procurar a história de um determinado país. Porque metade dos e-mails que recebes são alertas de preços de companhias aéreas. Porque a tua aplicação do google earth está cheia de pontinhos amarelos, de sítios que planeias visitar. Porque a tua bucket list vai aumentando cada vez mais, e os “100 pontos” iniciais já não são apenas cem. Porque cada vez que realizas um desses pontos, te surge outro para o substituir. Porque a tua inquietação perante o desconhecido não cessa. E é difícil conjugar a tua inquietação com um suposto quotidiano, com a vida que tens normalmente. Com a vida que queres deixar de ter. Porque até entendes a forma de viver dos outros, mas tens a certeza que não é esse o teu caminho. E assim te afastas…lenta, mas inevitavelmente.

Porque o teu caminho é só teu, e ninguém o pode trilhar por ti. E tens a certeza que irá ser fantástico. Pelo  menos esperas que assim seja. E às vezes também tens dúvidas, medos. Lanças-te ao desconhecido sem hesitar e, muito mais tarde,  quando estás de cara voltada para ele, surge aquela réstia de medo, que estava algures escondido no teu subconsciente. Mas logo percebes que isso é bom, que significa que tens consciência e que és um ser humano. E aprender a lidar com o medo faz parte da tua história. É só mais uma coisa para superar, afinal, não és tu que adoras a aventura?!

O medo de ficar também te consome, o medo de que os sonhos cessem, de que a realidade te obrigue a ser como os outros, a acabar um curso, a arranjar emprego, a assentar. O medo que te tentam impingir porque não conhecem a tua alma, porque não sabem que a tua inquietação não pode ser domada, e, assim tentam. E tu ouves, vezes e vezes sem conta. Muitas vezes nem ligas mas uma réstia desses falares não te sai dos ouvidos. Porque foram ditos por pessoas que supostamente sabem mais que tu, e é assim que o medo nasce. Tu sabes que és forte o suficiente para o ultrapassar, tens a certeza que és melhor que ele, mas ele continua a não deixar os teus sonhos, a par das aventuras. E continuam a dizer-te que é bom que ele lá esteja, que não podes divagar a vida toda, que um dia tens que encarar a realidade.

E tu sabes, bem lá no fundo, que a única realidade que terás de encarar, é a que tu escolheres. Que nunca irás deixar alguém escolhê-la por ti. Que não vai ser fácil, que nem sempre te vão apoiar, que te vais afastar de muitos, que vais conhecer muita gente pelo percurso… mas tens a certeza que o caminho só pode ser esse, para ti.

E continuas entusiasmado, porque esse caminho, que tu sabes querer percorrer, te reserva tanto de novo; As vontades já tu tens e ninguém tas consegue tirar;

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Então porque esperas viajante?

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1 Comment

  1. sophi6

    Olá Ana, conseguiste descrever me tal como o Bruce Chatwin.. Sophia ..+ 351 915276090

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