A história de uma Síria que já não existe

A Síria que Luís Santos conheceu em 2005 é, hoje, uma zona mergulhada na destruição e no terror do Estado Islâmico. Esta é a história de um país que já não existe. São memórias que se tornam preciosas, numa altura em que não se sabe quando é que a normalidade voltará às ruas sírias.

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Em que ano esteve na Síria?

Visitei a Síria em 2005. Comecei a minha viagem no Cairo, passei pelo Monte Sinai, atravessei o Mar Vermelho de ferry para a Jordânia e terminei em Damasco.

O que é que o levou a viajar até à Síria?

O gosto pela aventura, natureza e história. A Síria tem um passado extremamente rico.

Como descreve a Síria que os seus olhos conheceram?

A Síria não me pareceu um país de extremismo religioso. Não vi muitas mulheres de burca e entrei em várias mesquitas em Damasco, mesmo as mais importantes. Na aldeia de Maaloula, os cristãos ortodoxos vestiam-se como nós, falavam o aramaico e conviviam pacificamente com os muçulmanos. Para além disso, dos países que conheço na região, a Síria era o mais organizado, as ruas limpas e sem grande turismo. Ao contrário do que acontece nos mercados do Egito, por exemplo, os produtos são de qualidade, não é necessário regatear preços e os comerciantes não nos puxam para dentro das lojas.

A língua foi um problema?

A língua nunca foi um problema. Algumas pessoas falam inglês ou francês.

Como descreve o povo sírio?

Bastante simpático. Recordo-me de um domingo na cidade de Hamah onde fui caminhar junto ao rio. Cruzei-me com algumas famílias que passeavam nos jardins que me cumprimentaram e permitiam às crianças interagirem sem qualquer restrição ou receio.

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Encontrou (outras) dificuldades na sua viagem?

Cheguei num sábado à tarde a Hamah, conhecida pelas noras gigantes junto ao rio Orontes. A cidade estava um caos, com multidões aos gritos e bandeiras. Fiquei um pouco apreensivo porque era muito diferente do que até ao momento tinha visto na Síria. Depois percebi que só estavam a comemorar a vitória do clube de futebol da cidade…

Diga-nos duas ou três coisas que o tenham surpreendido na Síria (?)

No dia de regresso, o voo era às 3 horas da manhã. O meu guia, que sempre foi muito simpático, fez questão que visitasse a sua casa e passasse o serão com a família. À chegada, ofereceu-me chá e bolos. O filho, que tinha 15 anos, falava bem inglês e mostrou muito interesse em saber mais sobre Portugal. O que conhecia melhor era o futebol. Depois ligou a televisão na RTP Internacional para que me sentisse em casa.

Durante a visita ao Museu Nacional em Damasco, um indivíduo juntou-se ao grupo, interrompendo sucessivamente o guia com questões. Este respondia-lhe em árabe mas de uma forma um pouco brusca na tentativa de o afastar. No final explicou a razão: era iraquiano e na altura quem tinha dinheiro fugia para a Síria para investir, o que não era bem visto pela população.

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Durante o período que esteve na Síria, teve a oportunidade de visitar a cidade de Palmira. O que é que encontrou de especial?

Apesar de Palmira ser dos sítios arqueológicos mais famosos do mundo, não está vedada e há uma estrada que passa no meio da ruínas.Percorrer a colunata, ir o teatro, entrar no templo de Bel e ver a imensidão dos túmulos torre são experiências que não esqueço, mas a mais fabulosa foi subir ao castelo e ver a dimensão da cidade rodeada de areia dourada.

O exército sírio recuperou recentemente o controlo da cidade de Palmira. A mesma cidade tinha vários monumentos classificados pela Unesco. Teme que parte, ou total, desse património tenha sido destruído pelo Daesh?

Sim, é bem provável que algum do património se tenha perdido.

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Recentemente foi publicado um vídeo, captado por um drone, que mostrava um cenário de destruição na Síria. Como é que lidou com o estado de guerra que se abateu sobre um país que já visitou?

Sinto bastante tristeza sempre que vejo as cidades destruídas pelos bombardeamos mas penso sobretudo nas pessoas que conheci e no drama que atinge os milhares de refugiados.

Acha que a Síria poderá voltar a ser o país que conheceu?

Pelas imagens que tenho visto vai demorar muitos anos até o pais voltar a ser o que era…

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Fotografias: Luís Santos – Blog: (http://www.documentaromundo.com/)

Página de Facebook (https://www.facebook.com/documentaromundo/).

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