Dicas para andares à boleia

O ano passado percorri quase 10000 km pela América Central e Europa no meu gap year (podem saber mais sobre a minha viagem aqui e ver os vídeos da viagem aqui e aqui).

Assim venho desmistificar um bocado esta maneira de viajar e deixar-te com algumas dicas com alguns exemplos práticos que se passaram comigo.

1 – Antes de mais, percebe que as pessoas são o mais importante

As pessoas e a ligação com as pessoas são para mim o objectivo desta viagem. Se estás simplesmente a pensar fazer isto para poupar dinheiro podes parar de ler o artigo por aqui.

Além das histórias que vais ouvir, da cultura que vais conhecer, dos meios de comunicação que vais utilizar (que podem variar de desenhos a sorrisos), das realidades com as quais te vais identificar vais perceber que as pessoas são mais generosas do que aquilo que normalmente se diz.

Vais perceber que com um simples sorriso podes mudar um dia duma pessoa e em troca receber a confiança e o carinho da mesma. Fora de sentimentalismos as boleias além de serem um meio de transporte um pouco fora-do-comum representam em que vivemos representam muito a sociedade pela qual irás passar e também as pessoas que vais encontrar.

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Em Munique com o Hermes e o Lorenzo.

 

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Em Lyon na casa da Veronick e do Laurent.

2 – Escolhe o teu estilo de boleia

Sim, deves logo de inicio saber o que queres fazer. Embora não possas escolher o horário da boleia nem a sua rota podes sempre definir se vais pelo caminho mais rápido (costumam ser as estradas com mais tráfego ou maiores) ou se tens muito tempo e queres desfrutar ainda mais do sossego da cidade (esta alternativa torna as coisas mais difíceis quando queres viajar por algum tempo, porque pode ser mais cansativo). E um conselho, se queres viajar à boleia tens que ter tempo. Se tiveres tempo vais estar mais relaxado e por isso mais tolerante a todas as situações que se possam passar.

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Numa entrada duma auto-estrada com o Steffen e as Alinas, perto de Barcelona, Espanha.

 

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A pedir boleia directamente na estrada (nacional) perto de Avignon, França.

 

3 – Tem espírito positivo, paciência e entretem-te com um hobbie

Se não tiveres paciência podes-te cansar facilmente. O ideal para o tempo que passas nas estações de serviço/estradas é ocupares-te com alguma coisa que gostes (ler um livro, tirar fotografias, escrever, etc etc). Além de não ficares enervado, ocupas o teu tempo e ficas com uma melhor aura para estares com a pessoa que te vai dar boleia.

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Momento de relax á beira rio, Graz, Austria.

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4 – Utiliza estações de serviço e estradas com tráfego

Independentemente do tempo e estilo de boleia numa fase inicial e em países desenvolvidos vais quase sempre ter que passar por estações de serviço. As estações de serviço são então como as estações de comboio e os aeroportos correspondentes a este tipo de viagem. Vais encontrar mais movimento, camiões e carros. Vais ter lugar para descansar e até se for o caso passar a noite e vais encontrar outras pessoas tal como tu a pedir boleia.

Nas estações de serviço abordares as pessoas é uma das dicas que me fez esperar 15-20 min em vez de 1-2 horas. Se abordares as pessoas directamente e lhe explicares os teus propósitos e projectos elas vão estar muito mais dispostas a ajudar-te do que se estiveres apenas com a placa e o dedo levantado.

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Autocolante numa estação de serviço na Eslovénia.

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Estação de serviço em Aachen, Alemanha.

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5 – Escreve uma placa visível com um destino, mantém contacto visual e sorri

“Just smile and wave boys” esta frase célebre da animação da pixar Madagáscar representa muito este momento. Nem sempre é possivel abordar as pessoas e por isso mesmo é que vos digo que uma placa visível e um sorriso feliz vai-vos ajudar nessas situações.

Mantém contacto visual com os condutores. Tira os óculos de sol, levanta bem o chapéu e mostra o teu “olhar puro”. Isso vai certamente ser uma ajuda.

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Um exemplo duma placa pouco funcional.

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Sorriso e placa funcionais. Fotografia da Joana Paulino Mendes

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6 – Tem em atenção à meteorologia

Como sabes o clima varia consoante o lugar em que estás no mundo. Se vais para o frio e chuva aconselho-te a levares um guarda-chuva/poncho e proteger-te numa estação de serviço. Tanto não vais ficar confortável se ficares molhado como também ninguém quer uma pessoa encharcada no carro. Por outro lado, as pessoas podem ser mais amáveis por te ver à chuva e por isso mais facilmente arranjas boleia.

Para dias de sol, uma sombra para teres as coisas e relaxares é uma coisa essencial. E mesmo que não seja possível arranjares boleia nesse lugar, deixa lá as tuas coisas e vai esticando o dedo entre pausas.

 

7 – Não peças boleia de noite

Pedir boleia de noite pode ser mais perigoso. É escuro e os condutores não te veem e se existem rumores para o que te pode acontecer quando apanhas uma boleia de dia também esses se aplicam para a noite (embora não concorde com nenhum desses rumores).

Além disso também os próprios condutores ficam menos dispostos a ajudar-te de noite, naturalmente.

8 – Utiliza o hitchwiki

O melhor site para te dar informações sobre andar à boleia. Dá-te informações sobre as cidades, maneiras de chegar a elas e sair delas e muitas outras informações. Descobre tudo aqui.

9 – Não tenhas medo. Vais sempre ter sorte e no fim vai tudo dar certo. 

Como falei a generosidade das pessoas não tem limites. E além disso, por muito que pareça que a chuva não para ou que simplesmente não tens sitio para dormir, tudo se resolve no fim.  Quando partem à aventura, as mais variadíssimas coisas podem-vos acontecer. E no fim vão ter muitas histórias para contar.

Por exemplo estava em Leoben, na Áustria e passado algumas horas na estrada percebi que de noite não ia ter sorte. Tinha que arranjar uma solução. Assim foi, sem medo nem vergonha pedi à Evelyn, uma senhora que morava perto da estrada e já me tinha dado algumas informações, para acampar no quintal dela. E assim foi, como veem nas imagens:

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Casa da Evelyn prózima da estrada.

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Acampamento no jardim da Evelyn.

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Pequeno-almoço complementado com muitos outros sacos de comida que de manhã a Evelyn tinha preparado para mim.

 

 

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Uma boleia com dois polícias que me ajudaram depois de dizer que não podia estar a acampar onde estava. Na Eslovénia.

 

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Boleia em cima dum camião TIR que transportava areia. Na Guatemala.

 

Outros assuntos importantes:

Entradas e saídas nas grandes cidades 

Este foi um dos meus maiores problemas. Arranjar maneira de chegar a uma cidade grande ou sair dela não é tão fácil quanto parece e no fim da minha viagem comecei a tentar menos parar nestes pontos e preferi andar mais a pé.

O que se passa é que nestes sítios independentemente se há muito tráfego ou não, é muito difícil os carros terem um lugar bom para parar. Para sair da auto-estrada para o centro duma cidade aconselho-te a falares directamente com as pessoas e perguntar se elas te podem levar para lá.

Para sair da cidade, em vez de ficares na entrada da auto-estrada é preferível andares mais uma hora a pé ou em autocarros até a primeira estação de serviço. Porque assim que aí estas é um “tirinho”.

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Numa entrada para a auto-estrada.

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Acampamento selvagem nos arredores da auto-estrada

Sozinho, a dois ou a três

Já viajei sozinho e acompanhado e as duas maneiras são enriquecedoras e possíveis. Basta nos adaptarmos.

Na Guatemala e Honduras viajei dois meses à boleia com duas pessoas e fizemos-lo facilmente, mas lá o controle é diferente e a existência de pick-ups facilita muito todo o processo. Na Europa, pelo contrário, pode ser mais complicado. Normalmente, o mais fácil é uma rapariga viajar sozinha (o que também pode ser considerado perigoso por alguns), mas de todas as maneiras com persistência e alguma sorte consegue-se tudo.

Ainda assim, atenção: Os camionistas normalmente não podem levar mais que uma pessoa; Quando são duas pessoas uma pode guardar as coisas enquanto a outra vai falando com os condutores; Mais de três devem-se dividir em grupo; Viajar sozinho pode ser menos seguro e mais difícil, mas é certamente mais desafiante;

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Uma boleia na Guatemala na traseira duma pick-up

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Uma portuguesa e uma alemã que apanharam boleia comigo em Lyon, França

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Uma boleia sozinho em Genebra com o Kevin.

 

Na verdade quer usasse auto-estradas ou estradas desertas, viajasse sozinho ou acompanhado, de barco ou de carro e fizesse sol ou fizesse frio vais percebi que poder contar com a generosidade das outras pessoas sem ter que dar nada em troca é uma coisa deveras gratificante. Não pelos quilómetros que percorri nem pelos lanches que recebi mas pela bondade que ainda existe por partilhar e e pelas pessoas que há por conhecer.

Deixo-vos aqui um artigo complementar para vos inspirar a partir à aventura. Não se esqueçam, a próxima história pode ser a vossa, mas acima de tudo melhor que as histórias que vão contar vão ser os momentos que vão viver.

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