Voluntariado em São Tomé e Príncipe

“Já se passaram 3 anos, mas falo-te como se tivesse sido hoje”. É com grande saudade que Catarina Cunha, de 24 anos, licenciada em Gestão na Universidade Nova de Lisboa, recorda as 6 semanas que passou em São Tomé e Príncipe a fazer voluntariado. Foi em 2013 que decidiu participar no programa de voluntariado da WACT – We Are Changing Together – como Changemaker.
[spacer height=”20px”]

Como é que surgiu a oportunidade de fazeres voluntariado internacional?

Na faculdade onde eu andava, a NOVA de Economia, existia o dia do Voluntariado, no qual iam lá várias barraquinhas apresentar os seus projectos. Eu tinha uma colega minha que já que tinha participado num programa de voluntariado da WACT, em São Tomé e Príncipe, por isso já conhecia a ONG. Acabei por escolher a WACT porque a maior parte dos projectos são sempre de 6 meses e eu, na altura, não tinha essa disponibilidade. Com a WACT iria ter 6 semanas em terreno, o que dava para fazer nas férias entre as aulas. Mas, acima de tudo, escolhi a WACT porque não é uma ONG que nos põe em campo apenas a trabalhar com as crianças. Nós tínhamos de fazer um projecto na nossa área de interesse, não tinha que ser necessariamente a nossa área de formação, de maneira que eu não tinha ninguém a dizer-me o que fazer; apenas me orientavam no projecto.
[spacer height=”20px”]

Como é que se desenrolou todo o processo de candidatura?

Primeiro, tínhamos que nos inscrever através do site da WACT e de responder a diversas perguntas sobre voluntariado. Também nos pediram para escolher um problema social em Portugal e criar um projecto com a solução. Quase um mês depois, recebemos um telefonema a dizer que tínhamos passado à segunda fase. A fase seguinte era a dinâmica de grupo na qual nos deram uma notícia sobre São Tomé. No meu caso, foi uma notícia sobre São Tomé e o alcoolismo, isto porque a taxa de alcoolismo lá é muito elevada. Aqui tínhamos de arranjar, juntos, uma solução para resolver esse problema. Por fim, tínhamos uma entrevista individual com uma pessoa que já tinha passado por todo este processo. No entanto, sei que eles já mudaram o processo de candidatura, pondo mais dinâmicas de grupo.

Depois de sermos selecionados, temos uma fase motivacional com pessoas que conseguiram mudar a vida de comunidades com pequenas ideias, começamos a ter algumas ferramentas sobre empreendedorismo social, temos de fazer um estudo sobre São Tomé e, depois, chega a altura do famoso fim-de-semana da WACT, no qual fazemos uma visita virtual a São Tomé. Convidam pessoas de São Tomé para falar e temos uma simulação numa casa daquilo que será a nossa vida lá.

Depois do projecto escolhido, vamos tendo algumas avaliações para melhorá-lo. Durante todo o processo de formação temos de ir fazendo um portfólio que, basicamente, é o nosso projecto. É aí que temos o contexto de São Tomé, as razões que nos levam a fazer voluntariado lá, os detalhes daquilo que queremos fazer, etc.
[spacer height=”20px”]

Crianças em São Tomé

Crianças em São Tomé

Quais foram as primeiras coisas que te vieram à cabeça assim que pisaste o solo de São Tomé e Príncipe?

Eu estava ainda dentro do avião, todos os meus colegas estavam a dormir quando, de repente, um deles diz “Estamos a chegar!”. Eu fui até à janela espreitar e só vejo barracas! Sentei-me na cadeira, pus as mãos à cabeça e pensei “Bem, isto tem de correr bem! Não sei se vai correr bem ou mal, mas eu estou com medo”. Ainda por cima, o voo tinha sido às 8 da noite portanto íamos chegar às 7 da manhã de lá. Estávamos todos de directa, o avião aterrou numa pista mínima e tenho a sensação de sair do avião e de sentir o ar a cair-me em cima de tão húmido que era. Olho à minha volta e só vejo mato e barracas ao fundo. Pediram-nos que fossemos para um barracão porque o aeroporto estava em obras. Queríamos comer, queríamos dormir e estava uma fila enorme para entrar no aeroporto. Estavamos a desesperar!

Eu trazia um pacote de papel higiénico comigo, dentro de um caixote, porque o papel higiénico era muito mais caro lá. Mandaram-me para uma zona à parte, e uma senhora perguntou “O que é que levas aí?”. E eu disse “papel higiénico”. Desconfiada, agarra numa faca, espeta no caixote, olha lá para dentro e manda-me seguir.

Voltei-me a encontrar com os meus colegas. Nós éramos um grupo de 21 pessoas mas íamos ser divididos em 2. Cada grupo foi para a sua casa.

Eu e o meu grupo entrámos na famosa yasse com o condutor Milo. Os bancos estavam todos rasgados e esperava-nos uma hora de viagem até casa. Passámos pela cidade de São Tomé que é muito mais desenvolvida em comparação com Neves, onde nós estávamos.

Depois da cidade, já me sentia em África! Aquelas senhoras a andar com coisas na cabeça, crianças descalças a correr pela rua e, claro, kizomba na yasse! São Tomé só tem uma estrada e não há sinalização nenhuma na zona. Nesse momento, não me estava a sentir nada segura.

Chegámos a Neves, parámos em frente a um portão todo enferrujado e dizem “Isto vai ser a vossa casa”.
[spacer height=”20px”]

A casa de Catarina vista por fora

A casa vista por fora

Entrei em minha casa que cheirava a cimento ainda. Entrámos na sala, onde tínhamos uma secretária, dois colchões no chão e muito pó. Perguntámos à nossa coordenadora onde é que estava o sofá ao qual ela responde que o sofá eram aqueles dois colchões.
[spacer height=”20px”]

Os quartos

O sofá

Levaram-nos até à casa de banho, um poliban sem cortina, com um balde e uma caneca para tomarmos banho. Mas não me posso queixar porque tinha um closet! Era uma divisão de madeira, coberta por aranhas e dava para ouvir os ratos a passar. Em frente ao closet, tínhamos a cozinha. Tinha um frigorifico que estava quase sempre desligado porque era raro existir energia – sim porque eles lá dizem energia em vez de electricidade – e um banco de madeira que tinha massa, arroz, salsicha, atum e grão. E eu pensei logo “onde é que vou cozinhar”? Fomos até lá fora, ao quintal, que tinha um campingaz a petróleo, um banco de madeira corrido, uma mesa.
[spacer height=”20px”]

Todos juntos a jantar no quintal

Todos juntos a jantar no quintal

Eu admito que, quando lá cheguei, pensei “mas como é que eu vou conseguir viver aqui?”. Eu estava a dividir o quarto com mais três raparigas, eu que estava habituada a ter o quarto só para mim. Passado algum tempo, apercebi-me de que aquela casa era um luxo.

Mas este foi o meu primeiro grande susto. O segundo, foi quando eu fui tomar o pequeno almoço. Estávamos super cansados, a precisar de uma sesta, quando nos dizem que vamos conhecer as comunidades à volta, a pé! Mosquitos a atacar por todo o lado e nós cheios de spray. Todas as pessoas estavam a olhar para nós e a tocar-nos. “Branco, branco” e vinham todos ter connosco. Fomos primeiro a uma comunidade mais pobre, perto do mar. Eles tinham acabado de pescar uma tartaruga e eu, na minha inocência, perguntei porque é que eles queriam a tartaruga e eles disseram que era para comer. Fiquei logo escandalizada! Dirigímo-nos à zona das casas e aí é que nos deparámos com a verdadeira pobreza. Miúdos de 4 e 5 anos a brincarem sozinhos e descalços na rua com um pneu… E ver uma espécie de lago que eles lá tinham, com um porco lá dentro e as crianças a brincarem lá! Tudo à mistura!

Foi tudo muito estranho mas entranhou-se em mim. Eu nem dei conta da minha fase de habituação. Um dia acordei e senti-me em casa.
[spacer height=”20px”]

As crianças de São Tomé

As crianças de São Tomé

Como é que era o teu dia a dia? Quais eram as tuas funções?

Nós já tínhamos os dias planeados nos nossos portfólios e no WACT de tarefas, por isso eu sabia onde é que os meus colegas estavam e eles sabiam onde é que eu estava. Tínhamos várias equipas para fazer diariamente as tarefas: a equipa do pequeno-almoço, almoço e jantar, equipa das águas. A equipa do pequeno-almoço ia comprar pão, fazer chá e pôr a manteiga e a marmelada na mesa. Nós até tínhamos lugares marcados na mesa! Para tornar a casa mais nossa e mais organizada, nós prometemos não comer enquanto não estivéssemos todos na mesa.

Tomávamos todos o pequeno-almoço juntos e cheios de sono. Depois, cada um ia ter com o seu grupo para trabalharem no projecto.

Nós pensámos “Se queremos começar por algum lado, temos de começar pelas crianças”. Tínhamos um grupo de cerca de 50 rapazes e raparigas, dos 12 aos 24, de todas as comunidades e demos-lhes objectivos semanais. Decidimos fazer uma parceria com as irmãs franciscanas porque elas tinham uma sala de costura e foi através disso que os pusemos a trabalhar em conjunto. O que é certo é que ao fim de algumas semanas, eles já tinham roupas feitas por eles!
[spacer height=”20px”]

As crianças a costurar

As crianças a costurar

No entanto, para termos a tal sala, tive de fazer uma troca por troca com as irmãs. Cedi os meus conhecimentos de economia para ajudar alguns funcionários da escola poupar porque eles não tinham noção nenhuma de como o fazer. Eles recebiam à semana e, por isso, gastavam-no num ápice. Para eles terem noção do dinheiro que lhes sobrava no final da semana, dei-lhes uns cadernos para registarem os gastos. No início, registavam apenas o café da manhã e ficavam-se por aí mas, passado algumas semanas, já tinham tudo escrito no caderno! Juntos criamos ainda, um mealheiro para cada, feito com uma lata de coca-cola.

Nessa mesma escola, para além de ajudar as crianças e os funcionários, também ajudei na reconstrução da escola. E não estava sozinha! Crianças que estavam de férias iam de propósito de manhã até à tarde ajudar a lixar as mesas, arranjar as cadeiras. Eram a minha maior motivação!
[spacer height=”20px”]

IMG_0629

“Eu queria sentir-me como eles e fazer o que eles habitualmente fazem.”

Ainda criámos grupos de 20 jovens para ajudar na reabilitação de um balneário. Esse era dos maiores problemas daquela comunidade. Nós simplesmente fomos buscar uma verba à câmara, mas eles é que fizeram tudo sozinhos. Quando regressamos a Portugal, o projecto ainda estava a ser reconstruído mas uns colegas nossos que foram uns meses depois disseram-nos que eles levaram aquilo até ao fim.
[spacer height=”20px”]

Com certeza tens histórias engraçadas e caricatas. Quais foram aquelas que estão mais presentes na tua memória?

Eu e três amigos meus fomos à cidade e, no regresso, voltámos nas famosas yasses. O problema é que a yasse estava cheia! “Onde é que eu vou?” No porta-bagagens, claro! Durante uma hora e meia fui lá atrás rodeada de peixes que tinham sido pescados no dia e de um porco com as patas atadas! Um porco vivo! Estive durante a viagem toda de cocoras e na companhia desses bichos… Mas cá, em Lisboa, se for preciso, eu não entro num autocarro se vir que está estilo sardinha em lata!
[spacer height=”20px”]

A famosa yasse

A famosa yasse

Lembro-me de outro episódio, em que atropelámos um guaxinim e nós ficámos todos preocupados, claro. E eles respondem-nos muito serenos, “Já temos jantar!”. O mesmo se passou quando eu perguntei porque é que tratavam tão mal os cães mas os gatos eram todos gordos. “Queremos os gatos para comer!”. No início, era tudo muito estranho e super diferente da nossa realidade mas, às tantas, já me parecia tudo normal.

Na minha primeira vez a lavar a roupa, a Xinha, a rapariga que nos fazia o pequeno almoço, desatou a rir a olhar para mim. “Tu não sabes lavar a roupa.” e eu disse “Pois, em Portugal temos máquina de lavar roupa” e ela “Máquina de lavar roupa?”. Foi engraçado explicar-lhe e ver que ela estava a seguir os movimentos da minha mão. Ela lá me explicou como é que se lavava a roupa e, quando viu o meu sabão azul e branco, os olhos dela abriram e ela pediu-me por favor para eu lhe dar o sabão. Eles lá tinham muito pouco sabao azul e branco, algo que, para nós é banal.
[spacer height=”20px”]

Como é que foi o regresso à “outra casa”?

Nós apercebemo-nos de que era a última semana e que estava na hora das despedidas. Eu é que fui mexer no dia-a-dia deles, apesar deles terem mexido comigo. Mas eu sabia que eles iam sentir uma mossa maior porque eu é que fui lá ajudá-los, eu é que entrei na vida deles.

Havia uma miúda, a Joana, cuja avó era portuguesa. No dia da despedida, jogámos com eles à bola, brincámos, fizemos aquilo que eles queriam porque o dia era deles. Nesse dia, uma das crianças vem ter comigo e disse-me que a Joana não se vinha despedir porque não conseguia. Foi aí que eu me apercebi que me ia mesmo embora. “Bateu-me a ficha”. E custou-me imenso porque eu revia-me na Joana. Ela era toda maria-rapaz, reguila, tal como eu quando era mais nova. Despedir-me dos miúdos custou-me muito mesmo. Muitos deles não se lembravam de que eu me ia embora e até me disseram “Até amanhã!”. Eu não tive coragem de lhes dizer que me ia embora… Mas ver aqueles miúdos (que sabiam que eu me iam embora) a chorar por mim… Eu que nem sou de chorar, chorei imenso.
[spacer height=”20px”]

Nós e o grupo de jovens

Nós e o grupo de jovens

Quando aterrei em Portugal, a adaptação foi muito mais difícil do que quando eu cheguei a São Tomé. Senti-me bem porque foi bom ver a família e os amigos mas…não era o mesmo. Nesse mesmo dia, combinei ir tomar um copo com a minha equipa lá de São Tomé porque já nos fazia impressão estar esse tempo separados.

Olhar à volta e ver tudo feito…era estranho! Só me vinha à cabeça “Mas o que é que eu estou aqui a fazer? Já está tudo feito. No que é que eu posso ajudar?”.

Por isso, digo mesmo que me senti em casa lá. Uma casa completamente diferente da minha cá em Portugal mas sim, senti-me em casa.
[spacer height=”20px”]

Não esperes mais. Faz como a Catarina e aventura-te num programa de voluntariado!

Categories

7 Comments

  1. Luis

    Boa noite,

    Estive em São Tomé em 2013 e fiquei com imensa vontade de lá voltar para poder ajudar as comunidades.

    Penso fazer uma viagem em Dezembro e gostava de voltar a São Tomé e poder contribuir com alguma instituição e dar um pouco de mim às gentes de lá.

    Pode indicar-me a quem me dirigir e quais as possibilidades de o fazer?

    Obrigado
    Luís e Andreia

    Reply
    • Marta Cunha Grilo

      Olá, Luís. A Catarina, a entrevistada, fez voluntariado em São Tomé e Príncipe através do programa de voluntariado da WACT – We Are Changing Together. No entanto, este é um programa que requer a criação de um projecto durante diversos meses para que depois possa ser implementado. Experimenta ver aqui: http://www.paraonde.org/programa/sao-tome-e-principe

      Reply
  2. Silvia Mateus

    Olá,
    Somos um grupo de 4 amigos que gostaria de fazer voluntariado durante o mês de Agosto em São Tomé e Príncipe, alguém nos pode ajudar a encontrar uma associação onde seja possível desenvolver os contactos para nos inscrevermos?

    Obrigado

    Reply
    • Gap Year Portugal

      Olá Silvia!
      Existem vários projectos em São Tomé, mas todos com processos e objectivos diferentes. Deixamos-lhe algumas sugestões:
      – WACT (que tem custos e uma formação de 6 meses)
      – Move (desenvolve projetos de microcredito, com duração mínima de 6 meses. Também tem custos para o voluntário, com o voo, a alimentação e outros gastos que queiram ter, mas a move assegura o pagamento da casa e das despesas associadas a ela e todos os custos relacionados com o trabalho)
      – Equipa d’ Africa (assegura alojamento e alimentação. Tem projetos de curta e longa duração e exige uma formação que vai de novembro a julho, ou seja, podem começar este ano para ir apenas no próximo)
      – GASTagus (não tem custos mas envolve angariação de fundos e encontros de formação durante 9 meses. A acção no terreno acontece no mês de agosto)

      Esperemos ter ajudado e boa sorte! 🙂

      Reply
  3. Joana Cordeiro

    Bom dia! Obrigada pela história tão realista e sincera, onde foi possível rever muitos dos receios que uma pessoa têm em relação ao voluntariado em África mas, ao mesmo tempo, ficar a perceber que são medos comuns e que depois de lá estar tudo isso se ultrapassa.
    Já há algum tempo que penso em integrar um projecto de voluntariado, mas surge-me sempre a dúvida “mas em que é que eu posso contribuir?”.
    Já li alguns projectos mas confesso que fico sempre um pouco perdida pois sou Fisioterapeuta e muitos projectos estão na base do empreendedorismo, o que me dá a sensação que a minha área não encaixa…
    Há algum sitio que me possam aconselhar para me dar algumas ideias ?

    Reply
    • Gap Year Portugal

      Olá Joana!
      O Para Onde? é um bom ponto de partida para averiguar se existe alguma acção na sua área. Uma outra opção é o Mundo a Sorrir, que costuma procurar dentistas, higienistas e enfermeiros – poderão, porventura, precisar também de fisioterapeutas.

      Esperamos ter ajudado! 🙂

      Reply
  4. Ana Lacerda

    Muito legal o seu artigo! Sou brasileira e quero fazer o mesmo que tu, obrigada por dividir a sua experiência, ajudou bastante! Um abraço.

    Reply

Submit a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *