Couchsurfing- os múltiplos lados da experiência

Esta aventura começou em janeiro de 2015. Nem um ano passou e eu sinto que a minha vida sofreu uma reviravolta de alto a baixo, se calhar mais um upgrade. Através de uma entrevista que vi no jornal ” O Público”, tive conhecimento da plataforma do couchsurfing. Fiquei deliciada, apaixonada e completamente rendida ao conceito e ao website. Tomei logo a iniciativa de receber uma rapariga neo zelandesa que pedia um “host” em Braga. Logo que vi o pedido público para a cidade de Braga, mandei-lhe mensagem. Foi aquele momento que mudou o meu ano e que me fez conhecer algumas pessoas incríveis que habitam este mundo. A rapariga, a Jenny, é agora uma grande amiga e vive, atualmente, em Praga, onde espero revisitá-la este ano. Andava a viajar pelo mundo há quase um ano quando eu a conheci. Veio para minha casa com um amigo que tinha conhecido uma semana antes, em Lisboa. O contacto com eles abriu ainda mais a minha perspetiva de mundo. Comecei a receber imensas pessoas em casa, através da plataforma. Os meus pais alinharam logo na ideia e, depois de ter recebido pessoas em Braga na casa deles,  consegui convencer as minhas colegas de casa a receber pessoal no Porto.

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Festa  com amigos e couchsurfers

Para aqueles que nunca tiveram contacto com o website, devo dizer que é bastante simples e seguro. É baseado num sistema de referências e num perfil que pode ser mais ou menos completo. Há pessoas estúpidas (perdoem-me o termo mas é mesmo assim) em todo o lado. Desde que se leia com atenção as referências e o perfil da pessoa com quem vamos contactar, não há problema. Após um ano de contacto com pessoas através do couchsurfing, posso constatar que as pessoas são exatamente aquilo que escrevem- verdade pura e dura. A maneira de escrever de uma pessoa, e não estou a falar só em termos gramaticais  (porque toda a gente dá erros, ainda por cima em Inglês), é uma ferramenta incrível para se perceber o seu caráter.

Tive oportunidade de ser recebida por outras pessoas em sua casa diversas vezes: uma vez sozinha, 5 vezes acompanhada pela minha melhor amiga e as experiências foram sempre divertidas, educativas e libertadoras.

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Passeio por Braga com couchsurfers brasileiras

A experiência mais incrível desta minha aventura, que ainda agora começou e que pretendo continuar, aconteceu na Escócia, em Inverness. Tínhamos (eu e a minha melhor amiga) combinado com o nosso host numa pequena estação de comboios a 15 minutos de Inverness. Ele foi-nos buscar de carro e tinha tirado a carta no dia anterior. Sabíamos, pelo perfil dele na plataforma, que ele tinha passado o último ano a percorrer a Europa, a pé, desde o Reino Unido até à Turquia com o cão. Falámos disso a viagem de carro toda e ele também queria saber das nossas aventuras. Era muito fácil conversar com ele e a viagem até casa passou num instante. Andámos uns bons 15 minutos pelo verde das planícies escocesas, até que entramos numa casa enorme com jardins até onde a vista já não podia alcançar. Nem queríamos acreditar! Esta iria ser lembrada como a noite que passamos numa “espécie” de castelo escocês.  Estava imensa gente na casa: amigos, outras pessoas que iam dormir lá através do couchsurfing, imensos cães, crianças da família. Tudo gente bem-disposta. Estava tudo pronto para a churrascada/festa até que começou a chover e passámos para o interior da casa. Foi uma noite incrível, cheia de conversas sobre viagens, rodeados de arte e livros, três das coisas que eu mais prezo. A festa foi à luz das velas, numa sala enorme com a lareira sempre a funcionar e durou até tarde. Foi uma noite de risos, cansaço (estávamos exaustas depois de festas nos três dias anteriores), cães (dos quais eu normalmente não sou fã mas estes fizeram-me apaixonar por eles, nomeadamente a cadelinha mais pequena dele que passou o jantar no meu colo a roubar-me comida). Aprendemos jogos tradicionais que eles fazem sempre que vão a uma festa e havia sempre tema de conversa. Quando perguntámos onde íamos dormir, o nosso host disse que não era muito confortável porque os quartos estavam todos ocupados e, mal acaba de dizer isto, leva-nos para o quarto da irmã dele, que estava de férias noutro lugar, e diz-nos que é o nosso quarto. Escusado será dizer que mal entrámos no quarto nos sentimos da realeza e que ele estava a brincar connosco. De manhã, aconteceu uma situação caricata. Adormecemos e queríamos despachar-nos a tomar banho para ir ter com toda a gente à sala, por isso tinha de ser um banho rápido. Acontece que a banheira era daquelas que se vê nos filmes, antiga, com uma torneira de água fria e outra quente, e sem chuveiro tendo, para se tomar banho, que encher a banheira e misturar as duas águas. Esse banho foi feito com a água gelada, porque a quente estava a escaldar com as mãos em concha a atirar água para cima de mim, porque não havia tempo para encher a banheira e tomar um banho de imersão que até me teria sabido pela vida.

Foi uma experiência surreal, uma daquelas surpresas que acontecem espontaneamente se deixares os preconceitos de lado e te surpreenderes com  novas experiências.

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Eu e a Xana com a nossa Host espetacular em Glasgow

Queria partilhar convosco esta história – porque existem tantas más por aí a circular sobre  a prática do couchsurfing – e gostaria que percebessem que é um modo económico e divertido de viajar. Receber pessoas em casa, de todo o lado, foi das experiências mais gratificantes que tive este ano e que me fez mudar de mentalidade. Ser recebida por outras pessoas – na vida, cultura, ambiente delas –  foram, por sua vez, experiências que pretendo repetir quando viajar, sozinha ou acompanhada.

Mesmo que não consigas receber pessoas em tua casa, seja porque os teus pais não alinham nisso ou porque os teus colegas de casa também não, não deixes de conhecer pessoas através deste website. Outra das experiências mais gratificante que tive foi a amizade de um estudante de arquitetura norueguês que conheci através da plataforma porque ele estava a fazer um estágio em Braga e combinámos um café. Convidei a minha melhor amiga para ir comigo e, naquele dia, ganhámos um amigo incrível. Foi através do couchsurfing que esta experiência se proporcionou e, apesar de ele nunca ter ficado em minha casa, foi igualmente enriquecedora e aprendi bastante com ele e com as pessoas que conheci através dele, nos quatro meses que ele passou em Portugal.

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Serralves em Festa com amigos que conheci através do couchsurfing

Resumindo, e não me alongando mais, as experiências que terás estão sempre dependentes da tua vontade de fazeres algo diferente ou não. O couchsurfing é uma aventura que não é para todos, mas aqueles que estiverem dispostos a ter algumas das melhores experiências que o homem pode ter, a interação com pessoas de todo o lado do mundo, vão ganhar muitas histórias para contar. Eu sei que espero continuar a colecioná-las.

Se já as tiverem, partilhem-nas connosco.

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4 Comments

  1. Jonas Felipe

    Olá, o meu nome é Jonas. Gostei muito das fotografias (especialmente dos postais na primeira foto, só faltam umas cervejas na mesa e quase parecia uma das casas onde já estive). É interessante ver como conseguiste, através do couchsurfing, conhecer pessoas de culturas diferentes. Conseguiste manter as amizades? 🙂

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    • Ana João

      Olá Jonas. Obrigada pelo comentário! Respondendo à tua pergunta, consegui manter a maior parte das amizades. Por exemplo, a minha host em Glasgow vem cá a Portugal daqui a uns meses a meu convite. A amiga de que falo na primeira história, a Jenny, já ficou em minha casa mais do que uma vez com meses de intervalo, porque ficámos sempre em contacto e nos tornámos verdadeiramente amigas. Algumas pessoas que conheci através do couchsurfing não mantive a amizade porque não me identifiquei tanto com elas, mas, mesmo assim, nunca me arrependi de nenhuma experiência. Às vezes é difícil manteres as amizades mas a internet é uma ferramenta maravilhosa para isso, se a tal estiveres disposto. Dá trabalho, no entanto, a maior parte das vezes vale a pena trabalhar um bocadinho para continuares com essas amizades.

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  2. Natalia

    Ola Ana,
    Assino por baixo tudo que escreveste. Já recebi pessoas em casa e foi sempre uma partilha de histórias hilariantes. Voltei agora duma viagem pelo mundo de 7 meses onde o couchsurfing foi sem dúvida uma óptima experiência, seja por ter ajudado imenso a poupar, mas especialmente pelas pessoas espectaculares que se encontra. As pessoas são muito generosas, dão dicas e tivemos até quem nos emprestasse o carro logo no segundo dia. Foram sempre pessoas que nos deram a conhecer a cultura delas é que também mostraram interesse pela nossa. Estou completamente rendida ao conceito de couchsurfing.

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    • GapYear_admin

      Olá Natalia! Muito obrigada por partilhares a tua experiência. Tal como tu eu também me rendi a esse conceito e ajudar a desmistificá-lo é sempre um prazer!!!

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