Viajar sozinho(a)

Viajar sozinho é, na minha opinião, uma das experiências obrigatórias da vida. Para quem quiser, claro. Nem toda a gente tem a necessidade, vontade, liberdade, ou ousadia para o fazer, mas isso fica sempre ao critério de cada um. Aqui permanece, apenas, o registo da minha opinião, enquanto viajante há 20 anos. Não sou viajante profissional, tenho 20 anos, e digo que viajo há 20 anos porque, efetivamente, o faço. Quando estava grávida de seis meses, a minha mãe ganhava concursos de dança do ventre e andava de dromedário no verão escaldante da Tunísia. Pouco depois de completar o meu primeiro aniversário, os meus pais foram a Lisboa buscar o novo elemento da família- a autocaravana que eu depressa apelidei de popó-casa. Sou portanto, uma viajante nata, o que quer que isso signifique. Sempre viajei acompanhada. Pelos meus pais, pelos meus professores, pelos meus amigos quando comecei a ter mais liberdade, mas nunca tinha viajado completamente sozinha. Desde pequena que o queria fazer, ir para onde me apetecesse, em determinado momento, sem ter de dar justificações a ninguém. A liberdade de viajar sozinha pode não ser meramente sonho, mas quem ainda é parcialmente dependente financeiramente dos pais tem limites, naturalmente que sim. Apesar disso, no último ano, consegui viajar sozinha algumas vezes. Pois ficam aqui algumas dicas daquilo que aprendi quando se viaja sozinha:

Tens muito mais liberdade – obviamente. Andas ao teu ritmo ( que no meu caso é bastante acelerado), não tens de esperar pelos outros e se, pelo contrário, quiseres passar duas horas a ler sentada numa esplanada ninguém te vai chatear. Fazes aquilo que bem entenderes, quando bem entenderes e não tens de conjugar, na viagem, interesses distintos- porque por muito parecidas contigo que sejam as pessoas com as quais viajas, os interesses nunca coincidem a 100 por cento. Viajar em família é muito difícil e tens de ceder em muita coisa porque as pessoas tem idades e interesses diversos, e vai haver sempre alguém que cede e vai atrás dos restantes. Viajar com amigos ainda é pior, por vezes, porque todos querem intensamente que as suas próprias ideias sejam cumpridas. E todos tem o seu ritmo e interesses próprios. A melhor opção para quando estiveres a viajar em grupo é não te prenderes demasiado a ele. Se por acaso os teus amigos querem ir a um determinado sítio que não te interessa  minimamente, separa-te deles por um dia e vai visitar aquele lugar ao qual só tu querias ir- vais ver que não vais voltar sozinho.

Ganhas um à vontade enorme para meter conversa com estranhos. Porquê? Porque tens essa necessidade. Porque estás sozinho e a interação é uma necessidade inata aos seres humanos. Muitas vezes, quando viajas com alguém deixas de conhecer pessoas incríveis porque estás na tua zona de conforto e nem te apetece sair dela para perguntar algo a alguém novo. É a esse facilitismo que nos agarramos quando temos alguém conhecido ao nosso lado. Isto não é regra, obviamente. Já conheci pessoas maravilhosas e de maneira completamente espontânea, quando estava a viajar com amigos. Exemplo disto foram as três horas passadas numa casa de banho de hostel em Edimburgo( West End Hotel, por sinal um dos melhores em que já dormi), à meia noite, depois de chegarmos do aeroporto( eu e a minha melhor amiga), a falar com um rapaz espanhol que ficou nosso amigo e foi a nossa companhia durante os dias que passamos na cidade.  Estávamos cheias de sono mas conhecer aquele miúdo foi incrível e trouxe-nos três dias incríveis passados com pessoas fantásticas que vieram por acréscimo. As melhores amizades fazem-se em qualquer lado, quer estejas sozinho ou acompanhado, mas se estiveres sozinho e deixares a vergonha em casa, nunca te vais sentir realmente só, a não ser que o queiras.

Isso também é outra vantagem de viajar sozinho – a oportunidade de te sentires realmente sozinho. De estares só, numa cidade completamente nova, com os teus pensamentos. Porque a mim isso faz-me bem à alma. Não sei como se sentem sobre isto mas, de vez em quando, preciso das minhas horas sem ninguém, sem interação nenhuma, horas em que me permito refletir… Foi incrível a sensação de estar nos bancos de jardim da faculdade do St John’s College, em Cambridge, com o meu livro no colo e sem vivalma à minha volta ( porque deviam estar todos em aulas).

Viajar sozinho é uma vantagem na medida em que não tens de esperar por ninguém para o fazer. Tens duas semanas de férias e mais ninguém tem essa sorte para se juntar a ti? Então vai. Não vais ficar em casa só porque não tens com quem ir, a não ser que sejas menor de idade, mas isso, deixa-me dizer-te, isso passa num instante. O tempo passa sem conseguires ter oportunidade de o agarrar e não deixes que a ansiedade pelo futuro te impeça de aproveitar o dia-a-dia. Aproveita as oportunidades que surgem que outras virão, a seu tempo.

É muito mais fácil conseguires boleias e alojamento se estiveres sozinho. Se utilizares uma plataforma como o Couchsurfing ou outra do género, torna-se muito mais fácil arranjar Host se estiveres sozinho. Porque assim a pessoa que te vai receber em sua casa tem maior certeza de que tu vais querer conhecê-la, que vais querer partilhar histórias, que ela também te vai conseguir conhecer- porque é esse o espírito pretendido nesse género de experiências. Por outro lado, se estiveres acompanhado, tens sempre aquele conforto de que, se algo correr mal, não tens de te desenrascar sozinho. Também acabas por poupar dinheiro. Para além de ser mais fácil conseguires boleia para um determinado sítio ou alojamento, acabas por poupar em muitas outras coisas. Em vez de ires comer ao restaurante todos os dias, podes comer comida de rua rápida, ou ir ao supermercado e comer qualquer coisa lowcost.

Se viajares sozinho, vais ganhar imensa confiança nas tuas capacidades. Vais sentir que és capaz de tudo. Quando não dependes de ninguém e não tens ajuda vais perceber que és capaz de muito mais do que o que pensavas. As decisões são só tuas e aprendes a tomá-las baseado nos teus instintos. Pode nem sempre correr bem mas a incerteza é a piada da vida, não?

Vais perceber que o mundo não está totalmente corrompido, que o mundo é um lugar cheio de pessoas maravilhosas e que vale a pena conhecer. Vais aprender que ainda existe  espontaneidade e generosidade. Que a maior parte das pessoas estão sempre prontas a ajudar. Vais aprender a por em prática aquele ditado que te ensinaram quando eras pequeno- que não se deve julgar um livro pela capa. Vais aprender a deixar de lado os preconceitos. Vais aprender a rir-te das pequenas coisas caricatas que vês, e a apreciá-las. Se não tiveres ninguém com quem partilhar a piada, escreve, telefona para matar saudades, fala com o estranho ao teu lado, partilha com quem quiseres porque, onde quer que vás, o mundo está cheio de pessoas, que, se nunca tentares, nunca terás oportunidade de conhecer.

Vais ter memórias que não partilhas com mais ninguém, que são só tuas. Podes fazer o que quiseres que ninguém te vai julgar, ou dizer que é inapropriado. Vais poder seguir as tuas próprias regras sem as justificar a ninguém. E se fizeres algo estúpido, ninguém se vai lembrar. És anónimo e por momentos não tens de corresponder às expectativas de outros.

Não tenhas medo de fazer as coisas que queres só porque estás só. Ninguém vai ter constantemente, as mesmas ambições que tu, elas são singulares, só tuas. Vais encontrar pessoas que, eventualmente, irão cruzar o teu caminho e, quando isso acontecer, aproveita a companhia.

Como já dizia a personagem principal de Italo Calvino na obra “O Barão Trepador” – “Sei muito bem o meu caminho, o meu próprio caminho”.

E tu, sabes qual é o teu?

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13 Comments

  1. Aurélia Mota

    Bom seria que todos os jovens soubessem tão bem quanto tu qual o caminho a seguir…

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  2. Mariana Fonseca

    Gostei muito! Obrigada por partilhares 🙂

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    • Ana João

      Obrigada:)

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  3. Teresa Anjos

    Texto muito interesante ,parabens pelo blog.
    Vontade de partir para qualquer lugar 😀

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    • Ana João

      Obrigada Teresa! Transforma essa vontade numa realidade 🙂

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  4. Andre

    Grande texto. Parabéns Ana
    Já fiz retiradas, todas com +- 1 semana (festivais “não massivos”)
    tendo por isso uma noção do que aqui dás a saber e digo que não é mau de experenciar 😀

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    • Ana João

      Obrigada André! Continua com essas retiradas, que fazem sempre bem a quem aprecia viajar sozinho!!!

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    • Ana João

      Fica a dica! Obrigada Filipe e boas viagens!!

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  5. Paulo Bianchi

    Texto fantastico!!
    Visao maravilhosa!
    ja fiz uma viagem pela europa à boleia.
    E se tudo correr bem nos proximos meses irei fazer a minha 2ª viagem sozinho!

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    • GapYear_admin

      Olá Paulo! Muito obrigada e desejo te muita sorte para essa segunda viagem!!!

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  6. Sofia

    Boa noite! Gostava muito de vir a viajar sozinha, mas confesso que vejo o facto de ser do sexo feminino uma limitação… todos os gozos durante a viajem que nos permitem poupar dinheiro como as boleias ou couchsurfing tornam-se algo impossível, especialmente para uma jovem de 20 anos. Como aconselhas contornar este obstáculo?

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    • GapYear_admin

      Olá Sofia!! O que te posso aconselhar para contornares esse obstáculo: libertares a tua mente e deixares espaço para novas experiências-é o primeiro passo. O couchsurfing não é perigoso, já o fiz sozinha e tinha a tua idade (agora tenho 21) e sou mulher! O facto de seres mulher é apenas um obstáculo mental, há que ter consciência dos riscos mas esses há-os em todo o lado quer peças boleia, faças couchsurfing ou passeies ao entardecer pela tua cidade. Só tu decides que riscos estás disposta a tomar e, no que toca às boleias, pode correr bem ou menos bem mas no blog temos alguns artigos que te orientam sobre esta “prática”. A vida em si é um risco não te esqueças disso. O couchsurfing é fantástico e das experiências que tive não me arrependo de nenhuma, muito pelo contrário, ganhei amigos para a vida. Basicamente é uma questão de começares, aos poucos, a deixar que esse mundo te absorva. Vais perceber que és capaz de muito mais do que pensavas e vais ter experiências incríveis!!

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