O Lado Turístico da Palestina

Entre muros, destruição, vigilância estrita, calor e muita História, constrói-se a Palestina. Nos últimos anos, as barreiras erguidas funcionaram não só como cerco aos palestinianos, mas também como um obstáculo a viajantes e estrangeiros. Quase todos os que se aventuram por aquela zona do Médio Oriente fazem-no por Israel, por Jerusálem e pelas praias de Tel Aviv. A verdade é que este país que, ao contrário de Israel, não deixou que as suas ruas se transformassem numa extensão do ocidente, tem muito para oferecer. Deixo-vos com um pequeno relato das três cidades que visitei.

A primeira pergunta que surge, para todos aqueles que estão a par da situação política ou que imaginam o pior dos cenários sobre viajar no Médio Oriente, diz respeito à segurança. É seguro, sim. O conflito com Israel torna o país inseguro para aqueles que lhe pertencem, não para quem está de passagem. Há que, certamente, tomar precauções – nada que não se faça noutro ponto do globo –, confiar em que nos parece confiável e ignorar quem se intromete de mais. Precaução, para as mulheres, implica, entre outras coisas, não vestir roupas que exponham o corpo.

Comecei por visitar Belém. No centro da cidade, entre as ruas estreitas, as casas antigas, o azul das portas e o cheiro das especiarias, encontramos a Igreja da Natividade, onde se acredita ter nascido Jesus. Uma boa ideia é perderem-se pelas ruas que rodeiam a igreja, onde irão encontrar vistas panorâmicas, extensos mercados e uma loja de chá e café muito especial. Belém é, ainda, conhecida pelo muro que Israel ergueu na fronteira entre os dois territórios; também chamado muro do apartheid, tornou-se um dos pontos turísticos da cidade. Para todos os interessados pela história e situação vivida na Palestina, os campos de refugiados são um lugar a visitar; aí, podem encontrar várias associações a trabalhar no terreno que, rapidamente, se disponibilizam para vos apresentar o lugar.

Jericó acredita ser-se a cidade mais antiga do mundo ainda existente. Aqui, a vida quotidiana dos palestinianos cruza-se com os poucos turistas que vão aparecendo rumo ao Monte das Tentações, onde uma espécie de castelo se pode observar no alto da colina. Um teleférico transporta-nos até ao topo e permite-nos observar toda a paisagem – seca, desértica, de tons claros, repleta de palmeiras. Apesar das altas temperaturas, vale a pena caminhar a pé entre o Monte e a cidade pelas estradas estreitas e desabitadas que nos vão oferecendo pequenas vistas sobre as redondezas.

Por último, visitei Hebron, o reflexo, em ponto pequeno, da situação do país. Os checkpoints (pontos de paragem entre as cidades palestinianas, onde os militares israelitas controlam diariamente quem se movimenta dentro do território), que nos habituamos a ver separar cidades entre si, aqui, dividem-na por dentro. Por outras palavras, existem, em Hebron, três zonas: a israelita, a palestiniana controlada pelos palestinianos e a palestiniana controlada pelos israelitas. Entre a parte de Israel e da Palestina, ergueram-se checkpoints vigiados por militares que controlam, ao milímetro, o movimento entre os dois territórios e impedem que um cidadão palestiniano cruze o lado que não lhe pertence. O Túmulo dos Patriarcas, um ponto a visitar, onde se acredita estarem enterradas figuras bíblicas de extrema importância, encontra-se, ele próprio, dividido em dois.

Para além deste monumento, devem percorrer-se as ruas que o circundam, pertencentes à parte palestiniana. Quem tenha passado por Jerusalém e se aventura, agora, por esta cidade, deparar-se-á com inúmeras semelhanças. A parte antiga desta última segue a mesma lógica de construção que as velhas ruas de Hebron; no entanto, estas últimas, estão desabitadas, vazias, despidas e, quem lhe resiste, parece estar numa corrida rápida contra o tempo. O pouco comércio, ainda, ativo têm um pouco de tudo – para lá das tradicionais lembranças, da fruta e dos sumos naturais, encontramos, entre outras coisas, uma oficina de construção de peças em vidro, um ateliê de desenhos de areia em pequenas garrafas e uma loja de fabrico de doces típicos.

Nablus e Ramallah são outros dos pontos a registar nesta rota mas que, infelizmente, deixo para uma próxima vez.

Para se chegar à Palestina, a maneira mais fácil é através do aeroporto Ben Gurion, em Israel, e, de seguida, apanhar um autocarro para Jerusalém. Só a partir desta cidade é possível entrar em território palestiniano; as maiores e mais próximas de Jerusalém, como Ramallah e Belém, encontram-se a curtas viagens de autocarro, possíveis de apanhar ao lado da cidade antiga, perto da Damascus Gate. Os transportes públicos responsáveis por estas ligações são de baixo custo, seguros e regulares. Já na Palestina, o transporte coletivo é feito através de carrinhas de nove lugares partilhadas que, muitas vezes, não oferecem ligações diretas e tardam em partir porque só o fazem quando estão cheias (foi assim que fiz a viagem entre Belém e Jericó); ainda assim, é a maneira mais económica de viajar.

Um destino improvável que, por entre mercados, especiarias, casas de pedra antiga, histórias bíblicas e cheiro a falafel, merece ser visitado.

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