Todos os livros podem ser de viagem

Conhecem aqueles dias em que temos tudo para fazer, como passar a ferro, estruturar um pitch para o trabalho e estudar para um exame, por exemplo, e não fazemos absolutamente nada do que tínhamos planeado? Já vos estou a imaginar a ler isto e a abanar a cabeça afirmativamente, porque o sentimento é comum, mas ao mesmo tempo a fazerem um qualquer sinal de reprovação porque essa mudança de planos geralmente significa alguma inércia e vem associada a uma vontade terrível de ver séries. No sofá. O dia inteiro.

Asseguro-vos que não foi nada disso.

O meu dia, apesar de ter tido o seu quê de netflix & chill, teve mais de vontade de querer partilhar mil e uma coisas. E a parte do não fazer nada do que me tinha proposto acontece por isso mesmo. Tenho dois temas já delineados para futuros textos aqui do blog, mas quis escrever sobre outra coisa. Vamos a isso?

Sempre adorei mapas. E sempre adorei livros. Então de livros com mapas nem vos digo nada. Mas só os descobri mais tarde, não estão comigo desde criança.

Foi já quase na idade adulta que aprendi a viajar entre páginas. Viver a história de um livro sempre vivi, mas imaginar-me a ir para um dos sítios retratados no livro foi uma descoberta tardia e chegou com um livro que nos apresenta algumas limitações na hora de visitarmos aquele país. O livro que, estranhamente, me abriu as portas do mundo foi “Dentro do Segredo”, de José Luís Peixoto, que nos revela o interior da Coreia do Norte, esse canto isolado, opressivo e repressivo do mundo. Foi a minha primeira leitura de viagens e trouxe-me um sentimento algo confuso de querer visitar, mas de não querer visitar em simultâneo.

Depois do primeiro, vieram as ideias. Cada livro que lia tinha o seu próprio espaço. Porque não visitá-los a todos numa espécie de viagem literária? Viver a experiência quase completa, indo aos locais onde a ação se desenrola. E qual é que ia ser o primeiro sítio? A Normandia onde Madame Bovary desafiou as normas da sociedade dita dos bons costumes.

Vieram muitos livros a seguir, para os quais me quis transportar, mas nunca o fiz. Ainda recentemente, quis ir ter com o Elio do “Call Me By Your Name” à Riviera Italiana e andar de bicicleta para trás e para a frente, por entre ruas e caminhos. Mas fiquei-me sempre pela parte do planear, talvez por ter outras prioridades definidas na altura da leitura, talvez por preguiça ou mesmo por alguma força interna me sussurrar ao ouvido que aquele ainda não era o destino literário certo.

Mas isso mudou. Nos últimos meses fiquei profundamente marcada pelo mapa da Patagónia delineado por Luís Sepúlveda nas primeiras páginas da edição portuguesa de “Patagónia Express”. Neste livro, o autor dá a conhecer os seus apontamentos de viagem pela América do Sul, desde os seus anos de prisão, aos anos de exílio e de liberdade já na Patagónia, e deu-me a conhecer a mim uma forte vontade de rumar ao trajeto de um comboio que já não existe, mas cujo percurso me deslumbrou em 158 páginas, ao local de misteriosas lendas e costumes, como as mentiras que os locais contavam para se entreterem e serem felizes, de aventurosos furtos de Butch Cassidy e Sundance Kid e que me deu a conhecer um outro livro que me servirá certamente como guia de viagem – “In Patagonia”, de Bruce Chatwin.

Este vai ser o meu gap year daqui por uns tempos. De extremos e muito literário, tal como eu. O do Simão e do Pedro será por África entre missões de voluntariado, work exchange e sempre com humor à mistura.

E o teu, como é que vai ser?

Por Joana Ribeiro

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