Da opressão ditatorial até à abertura ao turismo

Depois de uma licenciatura em Gestão pela Nova SBE, o Fernando percebeu que o seu caminho não era o que a maioria das pessoas considera “normal”. Foi por isso que, juntamente com dois amigos, partiu numa aventura pelo mundo, durante quase oito meses. A vontade de viajar e de conhecer mais mundo fez dele um verdadeiro aventureiro. Desta vez, conta-nos uma nova história: a sua passagem pelo MYANMAR.

Muitas vezes reconhecido como o menos explorado dos países do Sudeste Asiático, o Myanmar é garantidamente um país altamente singular. Depois de dois meses a percorrer o roteiro mais turístico do Sudeste Asiático, o sentimento e a vontade de procurar algo diferente e mais desafiante em mim permanecia. Sem ofensa… A Tailândia, Laos, Vietname e Camboja são países fantásticos, cada um com as suas características próprias e cheios de recantos por explorar mas, ainda assim, era fácil ver o quão preparados estavam para a massificação do turismo naquela zona. Por isso, ao ouvir relatos espectaculares de viajantes que passaram pelo Myanmar, e sabendo de antemão que o país havia aberto recentemente as portas ao turismo (2 anos antes), senti que era a altura certa para o visitar. Ou era ali, ou não era. Na verdade, acho que ganhei o jackpot.

Contudo, primeiro, é importante dar-vos um pequeno contexto histórico. O Myanmar, previamente conhecido por Birmânia, viveu debaixo de um forte regime ditatorial durante 50 anos, mas em 2015, ou seja, apenas um ano antes da minha visita, tiveram lugar as primeiras eleições desde 1990, dando à Liga Nacional pela Democracia uma maioria absoluta. Esta combinação de factores deram lugar a um país onde muitas vezes nos perdemos no tempo dado à paragem no desenvolvimento que por lá aconteceu.

Desde o primeiro dia em que lá estive que as diferenças eram notórias. Ao chegar a Mandalay (segunda maior cidade do Myanmar), a primeira impressão era de que estava num lugar totalmente único. Os cidadãos locais olhavam para mim como se fosse uma super estrela a passear pelo bairro e, apesar do seu baixo nível de inglês, havia sempre a simpatia de soltar um sorriso ou um “olá” na sua língua local.

Após uma visita aos sítios mais marcantes da cidade (os mosteiros, a Mandalay Hill, e a Pagoda da cidade), era hora de jantar. Entro num restaurante de rua e tento explicar o que queria comer tendo, para o efeito, de passar por todo um espetáculo de linguagem gestual. De realçar que não havia um único turista no referido restaurante… Mais à frente, a senhora que me serviu o primeiro prato chamou toda a sua família e, de repente, tinha 5 ou 6 pessoas a olhar para mim de alto a baixo durante a refeição, enquanto me traziam mais e mais delícias locais. Na hora de sair, após um manjar altamente satisfatório, foi-me cobrado um total de 1500 kyatts (1.10€ na altura).

Adicionalmente, já era tarde e a necessidade de arranjar sítio onde dormir ganhava força. No Myanmar, o alojamento é um pouco caro (é difícil arranjar albergue abaixo dos 8€ por noite) o que, para quem viaja com um orçamento tão reduzido como o meu na altura, representava um tremendo desafio… Por outro lado, dormir nas estações de comboio era totalmente permitido. Boas notícias, portanto! O alojamento gratuito estava, assim, garantido.

Depois de Mandalay, uma série de aventuras se seguiram. Noites dormidas nos templos em Bagan (com o aval dos monges locais), boleias à volta de todo o país (de longe o país mais fácil para o efeito no Sudeste Asiático), sendo que, nesta matéria, a variedade não faltou. Carros, motas, táxis, camiões, autocarros (sim! Pararam a meio da autoestrada e, quando disse que não tinha dinheiro, o motorista manda-me subir e senta-me numa cadeirinha com mantinha e garrafinha de água), e até uma carroça a cavalo naquela que foi a única vez que apanhei boleia de um veículo desse género. Uma noite dormida na rua em Nyaung Shwe, a vila mais próxima do famoso Inle Lake (não recomendável, fica mesmo frio durante a noite!), muitas noites passadas em estações de comboios na companhia de dezenas de famílias locais, muitas pessoas a pedirem para tirar fotografias comigo mas, acima de tudo, o sentir o carinho da população birmanesa em locais onde eu era o único estrangeiro. Até um agente da polícia foi de propósito a uma estação de autocarros comprar um bilhete para mim, sem cobrar um cêntimo pelo mesmo! No final, esta combinação de boleias e alojamento alternativo permitiu-me manter um orçamento de 3.7€ por dia, o que prova que não é preciso ser-se milionário para viajar.

Ainda assim, o que mais me surpreendeu foi a cultura que todo o povo tem. Todos conheciam Portugal e não apenas pelo nosso querido Cristiano Ronaldo. Além de mencionarem outras grandes estrelas do desporto português como o Figo e o Rui Costa, até cheguei a encontrar um senhor local cuja primeira reação quando disse que era português foi o nome de Vasco da Gama. Surpresa total! Nem nos meus sonhos pensaria que iria encontrar alguém que associasse de imediato o nome do nosso país ao grande explorador do século XV. Muito respeito para si amigo! Essa nota fez o meu dia.

No geral, a aventura pelo Myanmar foi uma das maiores da minha vida. Não só pelo país, que por si só foi um dos meus 3 países favoritos pelo mundo inteiro, mas pelo registo particular em que o fiz. Aliado à conjuntura política da altura, foi o contacto puro e genuíno estabelecido com as comunidades locais que tornaram estas semanas absolutamente mágicas.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *