Gap Year: Desmistificar o Conceito

Ainda que esteja cada vez mais difundida, a ideia associada ao gap year continua a ser alvo de confusões e de interpretações erradas. Clarificar o conceito, numa tentativa de descomplexificar a sua realização prática, é uma das principais missões que temos na Gap Year Portugal e, nesse sentido, resumimos, em seguida, alguns dos mal-entendidos que, com maior ou menor frequência, lhe são associados.

Fazer um gap year continua a estar fortemente associado à ideia de fazer um ano de pausa. Este é um pensamento bastante comum – todos nós já o tivemos ou já fomos confrontados com ele –, que contém, numa só frase, duas ideias erradas. Por um lado, o conceito não é traduzido à letra, o que significa que a questão da duração do gap year é variável e nada obriga a que se cumpra um ano completo. Se viajares cinco, seis ou sete meses, estarás a realizar, também, um gap year

Por outro lado, a ideia de “pausa” não está, por si só, totalmente errada – dependerá de cada interpretação. Em Portugal, onde, todos nós – jovens –, fomos habituados à narrativa de que dificilmente podemos conjugar a escola com outros sonhos, a dita “pausa” é vista como um ano “passado no sofá”, sem cumprir aquela que é entendida como a missão absoluta e exclusiva dos jovens, cumprir a escolaridade obrigatória, ingressar na faculdade e, por fim, no mercado de trabalho. Uma visão bastante redutora do mundo e dos próprios jovens. Se quisermos entender o gap year enquanto uma pausa, temos de lhe atribuir a ideia de quebra no percurso dito “normal” de um jovem ou, como lhe chamei, na missão absoluta e exclusiva que nos incutem.

Ainda que me tenha debruçado sobre os jovens no último parágrafo, a verdade é que o gap year não escolhe idades e, qualquer pessoa que quebre a sua rotina e saia da sua zona de conforto, mesmo que já integrada no mercado de trabalho, é entendida como um gapper, ou seja, alguém que faz um gap year. Por ser mais comum entre jovens que se encontram a frequentar a escolaridade obrigatória ou o ensino superior, este é outra das falsas interpretações existentes.

Vigorosamente associado ao primeiro mito, existe a ideia de que um gap year ésó” viajar. Viajar é, por si, uma forma de obter autoconhecimento e consciência sobre o mundo, ambas dimensões importantes no desenvolvimento pessoal de cada um, o que torna incompreensível a noção de ser “só viajar”. Mais ainda, fazer um gap year é mais do que fazer uma viagem no sentido em que a entendemos; não implica, necessariamente, comprar uma viagem de avião, reservar hotéis num outro país, visitar monumentos ou fazer praia. Não há um padrão sobre o que um este implica, mas atividades como voluntariado, estágio, ou aprendizagem de uma língua estão-lhe fortemente conectadas e extravasam a conceção mais simples de uma viagem. Cai, ainda, por terra o mito de que fazer um gap year é ir de férias ou que é uma perda de tempo.

Existem, também, perceções erradas do conceito de natureza mais prática. A ideia de que um gap year tem de ser feito no estrangeiro não é verdadeira. És tu quem decide onde queres passar este tempo e é perfeitamente normal que te decidas ficar pelo território nacional.Outro dos grandes mitos é a necessidade de ser-se rico. Não só existem formas de juntar dinheiro, por exemplo, arranjando um emprego, como também, hoje em dia, temos acesso a mil e uma dicas de poupança ou de viagem low budget que, acreditem, tornam a questão monetária um desafio dependente exclusivamente da nossa força de vontade.

A ideia de que, após um gap year, é mais difícil regressar à rotina, seja ela dentro do mundo laboral ou académico representa, também, um dos obstáculos (falsos) à sua realização. Pelas suas caraterísticas, o gap year dar-te-á a vontade necessária para um regresso em força, com baterias carregadas e espírito novo, à vida normal. O conhecimento que vais obter e a autodescoberta que farás dar-te-ão uma série de ferramentas que quererás, o mais rápido possível, aplicar no teu dia-a-dia.

Relacionado com esta ideia, existe o mito de que será mais complicado obter um emprego aquando do regresso à rotina, considerando o tempo que nos afastámos dela. É totalmente o oposto porque, para além de estares mais apto, pelo que aprendeste durante a tua experiência, para conseguires um emprego, a realização de um gap year é um elemento de grande valorização no currículo.

Por último, e se, neste momento, já não te deixas levar por nenhuma das conceções erradas do conceito, está, também, na hora de largares a ideia “o gap year não é para mim”. Fazer um gap year é para todos aqueles a quem a ideia desperta o mínimo interesse. É para os curiosos e para os tímidos, para os aventureiros e para os mais medrosos, para os estudantes e para os trabalhadores, para aqueles que se desafiam constantemente e para os que procuram sair da sua zona de conforto, para todos aqueles que alcançam o sonho e não deixam que os outros o cumpram por ele.  

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