Into The Wild: a caminhada para o “Magic Bus”

Depois de uma licenciatura em Gestão pela Nova SBE, o Fernando percebeu que o seu caminho não era o que a maioria das pessoas considera “normal”. Foi por isso que, juntamente com dois amigos, partiu numa aventura pelo mundo, durante quase oito meses. A vontade de viajar e de conhecer mais mundo fez dele um verdadeiro aventureiro. Desta vez, leva-nos numa rota invejável: a caminhada até ao autocarro do filme Into The Wild. Agora partilha o seu testemunho.

“If we admit that human life can be ruled by reason, the possibility of life is destroyed”

 

Meados de Maio de 2016, Fairbanks, Alasca. Depois de mil aventuras pelo Sudeste Asiático, Austrália, Nova Zelândia, Tahiti, Ilha de Páscoa e toda a costa Oeste dos Estados Unidos e Canadá, era finalmente hora de explorar o fabuloso estado do Alasca. A viagem, cujo título “The Longest Way to Alaska” apelava àquele remoto estado Norte-Americano, chegava finalmente ao seu destino, ainda que se seguissem mais dois meses de desafios pelo resto do Canadá, Estados Unidos, e Europa. Inspirados pelo famoso filme “Into the Wild”, Fernando, João e Alex aproveitaram a estadia para visitar o mítico “Magic Bus”, local que ganhara fama em 1996 quando Jon Krakauer publicara, em livro, a jornada de Chris McCandless por todo o continente Norte-Americano, fama essa consolidada em 2007 aquando da adaptação para filme por Sean Penn. McCandless havia largado a vida de recém licenciado, tendo sido um aluno de excelência com óptimas perspectivas profissionais, optando por uma busca do seu próprio ser através da viagem, do conhecer novas pessoas e realidades, aprendendo ao máximo com cada uma, desafiando-se numa base diária, quebrando muito do espectro de julgamento e preconceito, infelizmente ainda presente na nossa sociedade. Não obstante, e apesar de amado pela sua família, McCandless tinha vários problemas com os seus pais que, segundo ele, viviam numa constante mentira (o seu pai, Walt, manteve dois casamentos, mesmo depois do nascimento de Chris), que preferiram mascarar sob medo de enfrentar a realidade. Tristemente, McCandless canalizou a sua energia de forma excessiva e acabou por perecer na floresta do Alasca, após tentar viver durante meses exclusivamente daquilo que a natureza lhe dava. A sua paixão pela vida e, acima de tudo, inspiração para vivermos de acordo com a nossa essência continua, no entanto, a servir como motivação para toda uma geração que tem contacto com a sua história.

“It should not be denied that being footloose has always exhilarated us”

 

Os 3 amigos não quiseram levar a sua viagem a um ponto tão extremo mas, reconhecendo a valência da vida de McCandless e a inspiração que esta lhes havia dado, decidiram fazer uma visita ao autocarro onde Chris passou os seus últimos dias. Chegar lá, no entanto, era um desafio por si só e a preparação teve de ser muito cuidada. Desde logo, houve necessidade de ter várias conversas com caçadores locais que, naturalmente, conheciam melhor que ninguém o terreno envolvente. Desde o que levar na mochila, que comida escolher, que roupa, botas, previsões sobre as condições do trajecto, todos estes conselhos foram de enorme relevância na hora de fazer caminho rumo ao famoso autocarro. Afinal, eram 60 quilómetros, ida e volta, por terra lamacenta, com dois rios pelo meio, e, por vezes, troços de neve impossíveis de evitar. O dia começara com uma boleia para sair de Fairbanks em direção a Healy, última cidade antes do mítico “Stampede Trail onde o autocarro ainda se encontra. O trilho, esse, encontra-se até bastante bem sinalizado durante toda a extensão e eram cerca das 18h locais quando finalmente iniciam caminho. Um dos pontos positivos daquela zona do mundo é que, por ser tão a Norte, nos meses de Verão o Sol não se põe, evitando assim constrangimentos a nível de horas para começar/ acabar a caminhada diária. Os primeiros 20kms são relativamente acessíveis e os 3 acabaram por acampar num pequeno e confortável recanto da floresta do Alasca. No dia seguinte, seguiu-se o atravessar do Rio Teklanika, o mais forte da zona, e, já pelas 23h mas ainda com luz solar, a chegada ao mítico “Magic Bus”. O autocarro ainda se encontra em relativo bom estado, contando com várias crónicas e mensagens de outros viajantes que, motivados pela mesma energia, visitam o local. No regresso, acabaram por acampar no mesmo sítio da primeira noite para, finalmente, voltar à estrada rumo a Fairbanks onde já tinham feito amizades locais que prontamente ofereceram estadia quando necessário. Foram 3 dias de constante alerta para os perigos envolventes (o João ainda acha que viu um urso), muita cautela no racionamento da comida (poucos frescos, pois são estes que atraem a fauna local), muito espírito de equipa e união (atravessar o rio foi um autêntico desafio, principalmente no regresso, quando a corrente era muito mais forte), mas que, no final deixaram uma tremenda sensação de realização pessoal por ver um dos grande objectivos de viagem cumpridos.

“The core of man’s spirit comes from new experiences”

 

Viajar, conhecer pessoas, aprender com cada uma delas, não julgar ninguém à partida com base apenas no aspecto de cada um. Ensinar, partilhar histórias, inspirar, “fazer acontecer”. Acabam por ser estes os aspectos mais positivos ligados a McCandless e que, pessoalmente, mais gosto de recordar. Vivemos constantemente numa tremenda pressão para seguirmos caminhos que, muitas vezes, nem são os nossos e desprezamos a força que a nossa própria vontade pode ter em nós. Convivemos diariamente com mentiras e preconceitos, preocupados com os julgamentos que os outros podem eventualmente fazer de nós, em vez de nos concentrarmos na nossa própria essência e vivermos a vida de acordo com as nossas crenças e vontades. Passamos a vida a tentar agradar a terceiros, mesmo que, por vezes, isso signifique ir contra aquilo em que verdadeiramente acreditamos. Desprezamos a força que a nossa vontade tem em nós próprios. Acabamos, assim, por passar anos e anos à procura do nosso verdadeiro ser, até que vemos a vida a passar-nos à frente sem termos feito nada para a aproveitar ao máximo. Acabamos, assim, a viver a vida que outros querem que vivamos, ignorando tudo aquilo que verdadeiramente nos move, nos apaixona, nos acende o coração.

 

Aquela que foi apenas uma caminhada para um autocarro abandonado, acabou por servir, também, como um ponto alto nesta forma que tanto gosto de viver a minha vida. Procurar desafios e novas experiências está ao alcance de cada um. Basta querer. Porque a partir do momento que queremos algo, nada nos pode impedir de o alcançar.

 

Fernando Vaz

Vê o trailer do filme que inspirou este texto

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