A Croácia que levei comigo

Se nos dissessem que podíamos escolher um país europeu para viajar amanhã, seriam poucos os que escolheriam a Croácia como primeira opção. Eu escolhi e decidi partilhar a minha experiência.

Se é verdade que, na Croácia, o turismo tem vindo a aumentar desde os últimos anos, também é verdade que, em 28 países da União Europeia, a Croácia ocupa a 21ª posição em relação ao número de turistas recebidos. Visitei o país no início deste mês e seria, sem dúvida, dos países europeus que conheço (são poucos, admito) aquele a que, mais facilmente, regressaria. Em duas semanas, viajei por três cidades das quais vos falarei.

Comecei por aterrar em Zagreb, uma capital que, para quem se habituou ao caos de Lisboa, parece um sossego. Na Donji Grad, por entre as cores mortas das casas, passam elétricos azuis, uns mais antigos do que outros; seguem-se estabelecimentos de comércio, uns atrás dos outros, abandonados ou com vida, e, entre supermercados, óticas, ourivesarias, lojas de roupa e uma imensidão de cafés, abrem-se caminhos escondidos para a traseira das casas. Ao fundo destes, há galerias de arte, cabeleireiros, mais cafés. Foi, também, impossível não reparar na quantidade de lojas de fotografia, que vendiam variedades de rolos para máquinas analógicas, como a preservar o tempo e a cor morta das casas.

Admito que, mais do que nos grandes monumentos, é nos pormenores que reparo.

Por isso, lembro-me da vitrine com sapatos que saía da parede de uma casa, do verde de um pequeno jardim onde conviviam as flores de primavera, as folhas do outono e um chafariz seco, do anúncio fotográfico que parecia pertencer a um outro século.

Zagreb é, ainda, a cidade dos espaços verdes ou, pelo menos, tive a sorte de os descobrir em todas as caminhadas que fiz; de repente, enquanto cruzava uma rua movimentada, entrava num parque, cujas árvores pareciam saídas de uma floresta imensa. Fica-me, ainda, na memória a famosa Igreja de São Marcos e a Catedral da cidade. À noite, por entre os cafés já encerrados, existia um bar envidraçado onde se dançavam danças de salão; no meio de uma cidade quase deserta, a música que trespassava as paredes desse local e o cheiro a pizza vindo da loja imediatamente por baixo dele, eram os únicos sinais de vida que acompanhavam as poucas pessoas que habitavam a praça.

Após uma longa viagem de autocarro para sul, cheguei a Sibenik.

À primeira vista, as ruas estreitas e pouco habitadas faziam crer que não passava de uma pequena vila. Vim a descobrir que é uma cidade e, rapidamente, me apercebi do quão bem esta soube conservar o seu sossego. É a caraterística mais sincera que posso atribuir a Sibenik, o sossego (para mim, um elogio). Nele encontramos um sítio onde queremos ficar por longos meses, onde aprendemos, aliás, o que é querer ficar; aprendemos a caminhar lentamente junto ao rio e a observar as montanhas que brotam do mar e cortam a visão infinita do céu.

Choveu durante a maioria da minha estadia e, admito, nunca gostei tanto de chuva. A mesma chuva que fechava os turistas nos hotéis, que tornava cinzenta a outra margem do rio, que trazia a noite mais cedo, que caía com delicadeza nas penas brancas dos cisnes. A mesma chuva que enaltecia a praça do hotel que fechava os turistas e que, de madrugada, tocava música por entre a esplanada nunca desmontada, em referência, talvez, a um verão sucessivamente adiado. O centro histórico era onde muita desta realidade se passava: havia gelatarias a funcionar na falta de sol e calor, lojas de lembranças, hotéis, esplanadas, ruas encruzilhadas, estreitas, num chão que reluz por entre a chuva e as casas altas.

A Catedral de São Tiago, datada do século XV, é o mais importante marco da cidade e as referências religiosas acumulam-se em casas, em igrejas abandonadas no virar de cada esquina e nos altares dispersos pelas ruas. Os fortes permitem-nos observar a vida para lá das montanhas que, à beira do rio, nos cortam o horizonte: mais montanhas, barcos, habitações. Na calçada que, ainda molhada, brilha com o reflexo da lua, vêem-se apenas gatos. De vez em quando, uma pessoa cruza-se com eles e, em passo apressado, ignora a beleza da calçada, ainda molhada, que reflete a luz da lua enquanto, lá longe, o verão adiado soa a música clássica e a turistas que esperam o sol.

Por último, parei em Split. No fim de uma semana em Sibenik, sabia que iria ser difícil ganhar um gosto semelhante por outro lugar:

era como se eu estivesse, ainda, sentada naquele telhado onde vira o mais bonito pôr-do-sol em frente ao rio e ninguém conseguisse arrancar-me de lá os pés.

Esta última cidade, contudo, não deixava de ter os seus encantos: as caminhadas que cruzavam o mar e a areia escura, o Palácio de Diocleciano onde, em frente à Catedral, se ouvia música e bebia cerveja, ou o miradouro na zona verde, estendida por quilómetros e a desembocar no mar. No entanto, saturada de rotinas citadinas e a funcionar para os estrangeiros, Split não tem o encanto de Sibenik, onde os pescadores se levantam de madrugada e os turistas ainda fogem da chuva.

 

Por ver ficou muita coisa, 

pelo caminho, uma data de memórias,

no fim, o desejo de regressar.

 

por Marta Vicente

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