Fotografia, viagens e jornalismo. A receita do sucesso de Gabriel Mendes.

Gabriel Soeiro Mendes combina no blog – Uma foto, Uma história – três paixões da sua vida: fotografia, viagens e jornalismo. A receita valeu-lhe, nos últimos três anos, o prémio de melhor bloque de Fotografia de viagem, atribuído pela Blogger Travel Awards (BTA). Troca os aviões, pelas viagens de autocarro e comboio. As viagens com amigos, pela companhia da máquina fotográfica. Rouba horas ao sono e levanta-se de madrugada em busca da luz perfeita para fotografar. É no contacto com as populações locais que encontra as melhores histórias e é esse o seu predilecto modo de viajar.

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A sua paixão por viagens começa numa aventura de autocarro. O que é que o encantou naquela experiência?

Essa viagem de autocarro foi para Bélgica, onde fiz o meu erasmus. Nunca gostei muito de andar de avião, apesar de viajar muito, por isso é que optei por ir de autocarro. No fundo essa viagem representa aquilo que eu ainda hoje penso – quando viajamos de avião não estamos propriamente a viajar, estamos sim a deslocarmo-nos. Não estamos a conhecer os sítios. De autocarro, ou de comboio, conseguimos ver o mundo pela janela. Ainda hoje esta representa a minha forma de viajar.

Como é que a fotografia surge na sua vida?

Comecei a ganhar paixão pela fotografia precisamente ao mesmo tempo que comecei a viajar. As duas coisas sempre foram indissociáveis para mim. É impensável viajar sem fotografar. Já me aconteceu uma ou duas vezes não conseguir fotografar em viagem, porque a câmara se avariou. Fiquei com a sensação de que a viagem tinha ficado pelo meio…

Quando comprou a sua primeira máquina foi para Inglaterra durante uma semana…

Sim, lá está! As duas paixões estavam a nascer em paralelo. Quando comprei a primeira câmara quis testá-la numa viagem e fui uma semana sozinho para Inglaterra só para experimentar a câmara. Quando estamos sozinhos conseguimos fotografar de outra forma … Não temos restrições a níveis de horários, não evitamos ir para locais mais ou menos perigosos. Portanto, viajar sozinho permitiu-me descobrir tanto a minha primeira câmara, como a fotografia no geral.   

Conseguiu boas fotografias nessa primeira experiência?

Hoje olho para elas e parecem-me muito fracas, mas na altura foi importante para o meu desenvolvimento da fotografia. Ainda hoje gosto de fazer pequenas viagens sozinho, ou até sair de casa para ir fotografar sozinho.

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Acorda por vezes às cinco da manha. O que é que há de especial nesses momentos?

A luz do início da manha ou final da tarde, apesar de serem diferentes, são luzes especiais. Para conseguirmos apanhar essa luz matinal temos que passar pelo o sacrifício de acordar cedo. Pelo contrário, se for fotografar com a luz das 10 da manha, a fotografia fica menos interessante porque temos mais sombras, é uma luz mais dura. Portanto, eu acordo cedinho, não por prazer, mas porque quero tirar boas fotografias e desenvolver as minhas competências fotográficas.

O Gabriel já passou por vários projetos profissionais de sucesso. O blog – Uma foto, Uma história – surgiu porquê?

O blog surgiu pela vontade de conciliar as minhas paixões, tanto a fotografia, como o jornalismo e as viagens. Para além disso, permite-me ter tudo estruturado e compilado num único espaço.

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Em entrevistas que deu disse que a criação do blog lhe trouxe mais responsabilidade. Em que medida é que isso se traduz ?

Logo no primeiro ano do blog ganhei o prémio de “melhor blog de fotografia em viagens”, prémio esse que voltei a conquistar nos dois anos seguintes [2015 e 2016]. O blog é, à partida, algo muito pessoal. Se não nos apetecer, não colocamos lá nada. Ora, quando começamos conquistar prémios e a ter pessoas que seguem o nosso trabalho, temos a “obrigação” de publicar conteúdos novos e cada vez melhores. Para além disso, o blog abriu-me algumas janelas, com o aparecimento de novos trabalhos, portanto, o próprio blog ganhou contornos mais profissionais. É neste sentido que falo da responsabilidade

Que impacto é que os três prémios do Blogger Travel Awars (BTA) – Fotografia de viagem tiveram no percurso do seu blog?

Em primeiro lugar, a questão do reconhecimento. É muito importante e dá-nos força para continuar. Como disse, os prémios deram-me alguma visibilidade e, por isso, surgiram novas oportunidades de trabalho e algumas parcerias. Mas talvez o mais importante seja o facto de o blog me dar uma motivação extra para viajar e continuar a partilhar cada vez mais histórias.

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Cada fotografia tem sempre uma história?

Sim e esse é o mote do meu blog. A ideia original seria, precisamente, partilhar uma fotografia associada a uma história. Mas por norma há sempre mais do que uma fotografia interessante para partilhar e eu acabo por transformar cada publicação numa galeria de fotos. Então o blog anda sempre entre “uma foto uma história”, ou “uma galeria uma história”.

Considerou partilhar apenas as fotografias?

Há quem considere que a fotografia, por si só, conta uma história. Eu, pelo contrário, acho muito importante dar algo mais, nem que seja uma pequena legenda, para contextualizar e complementar a fotografia. Para mim os dois são inseparáveis.

O Gabriel já visitou cerca 30 países. Cruzou-se com várias histórias, certamente. Recorda alguma em particular?

Em Johdpur, a cidade azul, na Índia, estava a passear na rua quando uma menina me convidou para entrar na sua casa e conhecer a sua família. Possivelmente um ocidental iria achar aquela situação um pouco estranha, mas as pessoas na Índia são muito simpáticas e abertas. Acabei por entrar e passar a tarde com eles. Conheci a família da menina, comi com eles, dançámos, vimos um filme de Bollywood, tirámos fotografias… Foi uma tarde muito bem passada. É deste tipo de situações que eu mais gosto, ou seja, viajar com calma e ter tempo para conhecer a população local. Quando comecei a viajar tinha a tendência para querer conhecer várias zonas dos países. Hoje em dia prefiro dedicar-me a um sítio específico.

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Quando parte em viagem espera sempre encontrar uma boa história, ou as boas histórias surgem quando menos espera?

Acho que é um misto dos dois. Espero sempre regressar com boas histórias, ainda que não me sinta forçado a isso. Normalmente as boas histórias vêem ter comigo. Quando não acontece, somos nós que temos de ir à procura delas.

Mark Twain disse que “viajar é fatal para o preconceito”. É assim?

Sim, viajar acaba por nos tornar menos preconceituosos e melhor preparados para viver em comunidade ou trabalhar em equipa. Por exemplo, quando vamos para um país da Ásia temos que nos habituar a conviver com muita gente, a partilhar o autocarro com alguém que está quase em cima de nós, por vezes a cheirar mal … Aprender a lidar com isso ensina-nos a ser pessoas mais compreensivas. No fundo a ser melhores pessoas.

Fotografias: Gabriel Soeiro Mendes

Blogue: http://gabrielsoeiromendes.com/

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