Voluntariado – uma lição para a vida

Quando saímos de Portugal, íamos com um objectivo bem traçado. Esse objectivo era, fosse onde fosse, ter uma experiência como voluntários.

A nossa experiência foi exactamente, não aquilo que esperávamos, mas aquilo que imaginávamos. Esta afirmação pode ser um pouco confusa, mas nós explicamos.

A questão do voluntariado enquanto se viaja, para poupar dinheiro, já não é nova. Muitas instituições já se aproveitam disso, ou para cobrarem dinheiro aos voluntários ou para explorarem os mesmos. Ouvimos algumas histórias do género que nos fizeram “esperar” outra coisa. Depois, o que “imaginávamos”, era o oposto. Sermos bem recebidos e bem tratados, estar entre família e amigos, num lugar tranquilo, onde pudéssemos, não só ensinar, mas também aprender… tudo isso aconteceu e superou, por completo, as nossas expectativas.

Sala de aula
Os nossos alunos mais novinhos
Os nossos alunos mais crescidos

Era suposto o voluntariado ser só “ensinar” inglês… mas, no fundo, estamos certos de que aprendemos mais do que aquilo que ensinámos. Diariamente tivemos lições de crianças com praticamente metade da nossa idade e até menos…todo o projecto foi criado pela “Jolly”, que deixou a cidade de Ho Chi Min (no sul do Vietname) e veio para Ha Giang (no norte), atravessando todo o país. Grande parte do trabalho foi desenvolvido e é mantido por ela, com a ajuda da “Mrs Queen” (como nós lhe chamávamos)… um amor de pessoa, e dizemos isto com toda a sinceridade. Mas, apesar de tudo isso, existe também um grande trabalho diário por parte dos alunos, que aqui temos que realçar. Sabem aquela famosa expressão “mais faz quem quer, do quem pode”? Aqui aplica-se perfeitamente. Quatro dos alunos moram na instituição. Eram eles que cozinhavam para um total 11 pessoas, dependendo do número de voluntários. Às 6:45 da manhã, já o pequeno-almoço estava feito para todos. Das 7:30 às 10:30, tinham a primeira aula e, as 11:30 já o almoço estava pronto. Depois do almoço, uma cesta de 30 minutos era indispensável. Da parte da tarde tinham nova aula e, entre as 18:30 e 19:00, o jantar tinha que estar pronto.

A mesa rodeada
Jantar na casa de uma aluna

Tudo isto em busca de um futuro risonho. Diziam-nos, de sorriso nos lábios, que queriam ser “tour guide” e que, quando voltássemos, “we don’t take you money”…é difícil de descrever a humildade e delicadeza desta “gente”. Quanto a nós, tínhamos as nossas aulinhas às segundas, quartas e sextas-feiras, das 17:00 às 19:00. E era tudo. Em troca tínhamos um lugar para dormir e alimentação sem pagar e, o melhor de tudo, é que estávamos rodeados de pessoas maravilhosas. Depois de duas semanas com esse horário, passámos a dar aulas ao fim-de-semana, a crianças ainda mais novas. Isto porque chegou a Lisa, uma voluntária vinda da Bélgica. E até com os mais pequenos aprendemos. Um dos episódios que guardaremos para sempre nos nossos corações foi a atitude da Tâm. Depois de uma aula, ficámos com essa menina de apenas 8 aninhos, até que mãe a viesse buscar. Dividimos um pacote de bolachas entre os 3 e, deixámos a última para ela. Dissemos-lhe que a última era para ela porque tinha comido menos… sabem qual foi a reacção? Partiu a bolacha em 3 e dividiu connosco…é, ou não é, de ficar sem palavras e com o coração a “transbordar”? Se, antes da viagem, não dávamos tanto valor a estes pequenos GRANDES momentos, agora é o que mais nos faz vibrar.

Tâm, a nossa pequenina

Ao viver esta experiência, só pensávamos na sorte que nós e todos os jovens da idade destas crianças, nos países mais desenvolvidos, digamos assim, têm… mas que não têm sequer noção disso.

O mês que ali estivemos, passou a FUGIR. E, infelizmente, chegou o dia da despedida… Depois de um mês de convivência, em FAMÍLIA, não foi fácil a despedida… houve direito a lágrima no olho. Ficámos tristes, pela partida, mas MUITO felizes por termos tido a oportunidade de os conhecer. Ficarão para sempre nos nossos corações.

Ana Brás & Tiago Soudo

Ela é bimba com muito gosto. Ele é tudo devagar devagarinho, Alentejano portanto. De 28 anos, licenciados em desporto, mestres em diferentes vertentes, ela seguiu educação física e ele exercício e saúde. Deixaram o conforto e o consumismo de parte e partiram para a aventura: uma volta ao mundo. De mochila ás costas em busca de novos desafios, desenvolvimento pessoal, sair da zona de conforto, conhecer e interagir com novas culturas e ajudar quem mais precisa.
 

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Um pensamento em “Voluntariado – uma lição para a vida

  1. De arrepiar..Sem dúvida uma lição de vida, de ficar de lágrima no olho.Todos os seres humanos deviam ter oportunidade de passar por uma experiência desta grandiosidade.Parabéns Tiago e Ana..meus amores..saudade

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