Viajar sozinho – o outro lado

Há dois meses, depois de três semanas de reencontros, voltei a sair de Portugal com destino ao Chile. Desta vez com uma mochila de 35 litros para uma viagem de três meses por seis países da América. Voltei a partir sozinha, com tantos sonhos prontos a realizar e esperanças de arranjar mais para abarrotar a gaveta!

Com esta viagem, aprendi que viajar sozinha nem sempre é um mar de rosas. Há momentos em que tens mil pessoas à tua volta e ninguém com quem falar. Outros, em que alguém te acompanha a cada passo e tu nem escutas. Aprendi a conhecer os meus limites, a dizer não ao que não me interessava e a afastar pessoas que não valem a pena (desculpem ser direta, mas a vida é demasiado curta para te rodeares das pessoas erradas).  Aprendi a acreditar na sorte, no destino e nos outros, mas sempre com os olhos abertos às trapanhas. Aprendi que a bondade pode vir dos lugares mais inesperados, mas que a maldade também.

Há dois anos, escrevi um texto que enaltecia, em tudo, o ato de viajar sozinho. Há dois anos eu tinha vinte anos e nunca tinha passado um Natal fora de casa, nem os aniversários das pessoas que importam a 11 000 quilómetros de distância. Há dois anos, eu acreditava em toda a gente e nunca tinha confirmado a verdadeira ignorância de muitos. Nunca tinha sido assaltada, ou viajado sem telemóvel na Argentina e na Bolívia. Nunca tinha passado fronteiras sozinha, com burocracias que chegam a demorar cinco horas ou esperando autocarros a meio da noite, no meio de cidades desertas, para poupar os cinco euros que gastaria num táxi.

Não me interpretem mal; viajar sozinha foi, está a ser, e será, uma das experiências mais enriquecedoras da minha vida. Só que agora eu vi e vivi o outro lado da moeda. Vi os dias passarem sem verdadeiramente me identificar com alguém. Nesses dias, apesar da solidão física, há sempre os amigos do outro lado do chat do Facebook, aqueles que não vês há um ano, mas com quem podes sempre contar. Os que são mais responsáveis que tu, e olham para a as tuas aventuras com um misto de inveja, felicidade, nostalgia e orgulho. Mas que estão sempre disponíveis para mais uma chamada a meio da noite. Senti a impotência de não ter ajuda quando fiquei doente, mas também pude comprovar que ela chega, muitas vezes de pessoas completamente desconhecidas, em inúmeras situações.

E as conversas interessantes surgem outra vez, quando as pessoas certas aparecem. Essas sim, farão a tua viagem. Essas que partilharão contigo “assaltos” às amostras do museu do chocolate, ou que te ensinarão as palavras mais estúpidas nas suas línguas. Essas que chegam e seguem, deixando um lugar no teu cantinho das saudades, e promessas de futuros reencontros no velho continente europeu.

A viagem é feita dessas e de todas as outras pessoas. As que passam sem deixar marca, que foram apenas companheiras das horas vazias e as que farão para sempre e, inevitavelmente, parte da nossa história.

 Todas elas fazem parte da tua viagem, preenchem os teus maus momentos e fazem os bons. Disfarçam as saudades que (até) se fazem sentir daquela pátria pequenina. Saudades que se acumulam mesmo que as tentes ocultar, no véu da indiferença.

Nenhum ser humano é uma ilha. Continuo a adorar a sensação de liberdade que tenho quando vou sozinha para algum lugar, exploro uma cidade nova por minha conta e risco, ou entro num avião sem ninguém conhecido ao meu lado. Continuo a achar que é muito mais fácil viajar sozinho. Mas também aprendi que é um ato egoísta, porque não tens que ceder em nada e tomas as tuas próprias decisões, relativamente ao que quer que seja, sem aprenderes a partilhar essas mesmas decisões e gerir interesses distintos.

Apesar de tudo, continuo a recomendar esta opção a todos os que me questionem!! Continuo a pensar que algumas das melhores memórias que tenho são aquelas que são só minhas.

Mas não deixa de ser incrível ter alguém com quem partilhar os momentos mais importantes da tua viagem.

E este texto é apenas um desabafo, rabiscado no caderno dos desenhos, naqueles dias em que a saudade aperta mais. Dias mais monótonos, porque a tua viagem também se faz deles. A única coisa de que tenho a certeza absoluta é que a viagem vale sempre a pena, de um modo ou de outro. Por isso, vão, partam. Sozinhos ou acompanhados, façam novos percursos na vossa vida. E cada um de vós é o único responsável por essa decisão. Pelo caminho, virão tantas outras pessoas, que farão parte das histórias, partilharão comidas inventadas com o que se encontra na prateleira dos “ itens grátis” dos hosteis, uma tarde de cinema com mantinha sobre as pernas, ou uma escalada a Machu Picchu com paragens para o chocolate de “incentivo”.

Eu. As pessoas que ficarão para sempre e as que não ocuparam lugar nenhum e mesmo assim se cruzaram comigo. E a viagem. Todas as viagens!!!

 

 

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Ana João

A vontade de correr o mundo acompanha esta bracarense desde pequenina. Independente, curiosa e com uma enorme sede de aprender, já percorreu a Europa de autocaravana. Apaixonada por viagens, livros e arte, frequenta o 4 ano do curso Mestrado Integrado em Arquitetura da FAUP e, paralelamente, um curso de Italiano. Juntou-se à AGYP com vontade de fazer chegar o " mundo dos viajantes" a todos os jovens (de espírito e alma).

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