Ele e ela foram conhecer o Mundo – uma entrevista ao casal por detrás do Viagens 100 Nomes

Um casal com um bilhete apenas de ida para a Ásia. É assim que começa a viagem da Ana e do João, que apenas querem conhecer mais do Mundo. Fomos tentar conhecê-los um pouco melhor e ao seu projecto Viagens 100 Nomes.

      1. Olá Ana! Olá João! Para começar, pedia-vos que se apresentassem a vocês e ao vosso projecto.

O meu nome é Ana Monteiro, tenho 25 anos, sou de Alpendorada, Marco de Canaveses. Licenciei-me em Jornalismo e acabei recentemente o mestrado em Multimédia tendo-me especializado em documentário interactivo, que é uma área que eu gosto muito, documentar. Tenho também interesse em fotografia, onde realizei, durante o ano passado um curso de fotografia com um dos melhores fotógrafos do país.

O meu nome é João Miranda, 27 anos, sou alentejano de Grândola, licenciei-me em História na Universidade de Coimbra e frequentei o mestrado em Ciências da Comunicação no Porto.  Tenho um gosto especial pela comunicação e pela rádio, onde durante a minha adolescência, exerci como profissão.

O casal que se conheceu há 6 anos está agora a viajar pelo Mundo

O Viagens 100 Nomes nasceu de duas vontades: conhecer e compartilhar. Conhecer o mundo e aquilo que nos rodeia. Compartilhar a herança cultural que nos define como seres. Sabemos que conhecendo os outros, conhecemo-nos a nós próprios, o que nos ajuda crescer. A nossa viagem tenta ser o menos possível associada ao turismo de massas. Queremos conhecer o mundo como ele realmente é. O nosso projecto visa expandir estas ideias e diminuir o sedentarismo social.

Decidimos começar na Ásia e decidimos criar um sítio onde as pessoas possam ser os nossos olhos. Daí a ideia da página de Facebook Viagens 100 Nomes. Aplicando os nossos conhecimentos académicos, e acima de tudo aplicando os nossos interesses, criamos conteúdos: fotográficos, não só como relato, mas com uma visão artística; documentário, com os locais onde possamos fazer voluntariado; vídeo com imagens das cidades ou regiões por onde passamos; temos também uma rúbrica semanal numa rádio local, Rádio Clube de Grândola, partilhada também em podcast na nossa página. Este último ponto é o que funciona como puro relato das nossas experiências e peripécias que acontecem nessa semana. Queremos personalizar a nossa página, ou seja, transmitir as nossas vivências, mostrando a nossa visão critica com aquilo que contactamos. Por isso não nos vemos como um blog tradicional de viagens.

 

      2. Vocês conheceram-se na faculdade. Esta vontade e curiosidade de conhecer o mundo foi algo que vos juntou? Ou surgiu depois, ao longo do tempo?

Nós os dois como seres individuais já tínhamos essa vontade. Obviamente que se formos perguntar a qualquer jovem de 18 ou 20 anos se têm vontade em conhecer o mundo, vão todos dizer que sim. O que mudou como casal, ao longo destes anos, foi passar do utópico para o real. Incentivando-nos um ao outro e criando planos concretos vimos que era possível. Tem que se bater o pé no chão e dizer que sim! Depois é uma questão de organização…

Himalaias

      3. Uma viagem deste calibre é algo que parece envolver bastante dedicação, organização e premeditação. De onde surgiu a vontade para fazer esta viagem?

A principal vontade para fazer esta viagem, para além do que já foi dito anteriormente, surgiu de vermos a vida a avançar demasiado depressa e nós ainda com tantas coisas a faltar fazer. Sabíamos que ao acabarmos os estudos iria haver um problema que é o mercado de trabalho e provavelmente ao arranjarmos alguma coisa, não seria aquilo que nos faria mais felizes. Infelizmente, é assim que a situação no nosso país está.

Foi precisamente durante o ano passado que decidimos que há momentos para realizar os nossos sonhos e acreditamos que esta altura era a ideal para o Viagens 100 Nomes.

 

      4. Como é que se prepararam para esta viagem sem regresso marcado (em termos físicos, económicos, …)? 

A nossa preparação para a viagem foi feita essencialmente a nível económico e também mental. Durante o ano passado, tiveram que haver algumas mudanças no nosso dia-a-dia para conseguirmos juntar o máximo dinheiro possível. Não andamos a passar fome, mas tivemos que fazer algumas escolhas. O nosso foco era esta viagem. Arranjamos emprego em part-time, enquanto estudávamos. Tivemos também em França (onde os salários são um pouco melhores) a fazer a época das vindimas. E ainda conseguimos amealhar um bom dinheiro, durante os meses de Novembro e Dezembro, num outro projecto que nós temos de venda de rissóis alternativos que se chama Maria Rissol.

 

      5. Vocês os dois tiraram uma licenciatura e um mestrado, em áreas ligadas aos Media e Multimédia. Acham que esta viagem vos irá valorizar ou prejudicar aos olhos do mercado de trabalho?

Com certeza valorizar (esperamos nós, claro). O mercado de trabalho está cada vez mais dinâmico e à procura de pessoas criativas que se diferenciem de alguma forma. Achamos que isto nos pode diferenciar e ser uma mais-valia. Além disso estamos a exercitar as nossas capacidades e a pôr em prática tudo aquilo que aprendemos academicamente. Com o Viagens 100 Nomes fotografamos, filmamos e escrevemos todos os dias. E o pensamento crítico está sempre em acção. Estamos a dedicar-nos a este projecto de corpo e alma e quando assim é só podemos esperar coisas boas do futuro. A nossa motivação está no nível máximo e isso pode querer dizer que é mesmo nisto que somos bons e onde queremos apostar. Esta viagem serve também para isso, para nos descobrimos a nós próprios, também a nível profissional.

Swayambhunath, mais conhecido como Templo dos macacos, no Nepal

      6. Imagino que viajar a dois, enquanto casal, tenha também as suas complicações. Como foi o antes, a parte do planeamento? E como é que se têm dado agora, durante a viagem?

Na parte do planeamento da viagem em si fez-se tudo com normalidade. As decisões foram conjuntas e sem grande atrito. Mas também, a maior decisão foi saber em que país começávamos a nossa viagem e isso foi fácil. A parte do planeamento do Viagens 100 Nomes, como projecto de  comunicação, funcionou de maneira mais desordeira, com algumas divergências entre os dois, não por termos ideias diferentes, mas por não sabermos exactamente aquilo que queríamos fazer. Durante a viagem, como qualquer casal normal temos tido as nossas normais discussões. Quando as coisas não correm como o planeado, um diz que a melhor solução é X e outro diz que a melhor solução é Y. Faz parte. Mas estamos longe de nos fartarmos um do outro e esta viagem tem-nos aproximado ainda mais. Temos funcionado como um só e estamos muito contentes por estar a resultar tão bem.

 

      7. E porque de certeza que as partes positivas são muito mais que as negativas, qual a melhor parte de viajar a dois?

A melhor parte de todas é sentir que continuamos amigos. Continuamos a rirmo-nos e a divertirmo-nos um com o outro. As nossas visões individuais complementam-se como casal e a nossa relação tem crescido com isso. Temo-nos tornado mais fortes com os obstáculos que nos surgem e andamos muito felizes sabendo que estamos a passar uma das melhores fases da nossa vida com a pessoa de quem mais gostamos.

Taj Mahal, Índia

      8. Têm algum sítio preferido, de entre aqueles por onde já passaram? 

Talvez os Himalaias tenham sido o nosso sítio preferido. Sem dúvida que esta cordilheira nos tirou o fôlego. Fizemos uma caminhada de 4 dias rodeados de montanhas gigantes que nos faziam sentir muito pequeninos. Mas ainda nos falta muito para ver durante os próximos meses.

      9. Sei que têm usado a plataforma WorkAway. Acham que é uma boa maneira de viajar? Quais os prós e contras?

O WorkAway é uma óptima plataforma para viajar. O melhor será talvez o facto de contactarmos com a cultura e o dia-a-dia das pessoas locais. Tivemos oportunidade de ficar com famílias no Nepal e foi uma experiência incrível. Alem disso é uma excelente forma de viajar economicamente, tendo em conta que nos dão comida e dormida em troca de algum tipo de serviço. Os aspectos negativos também existem: há muita gente a aproveitar-se desta plataforma para fazer negócio de uma ou outra forma, muitas vezes com perfis enganosos ou que não correspondem à realidade. Já tivemos um caso destes. Quando isto acontece, o interesse de quem te está a hospedar pelo serviço que tu, como workawayer, podes providenciar, predomina à vontade de partilhar as vivências que se procuram com este tipo de contacto.

      10. Vocês têm partilhado a vossa viagem abertamente em várias plataformas de media. Porque é que tomaram esta decisão? É algo que consume grande parte dos vossos dias de viagem?

O Viagens 100 Nomes tem sido uma dor de cabeça, mas daquelas boas. É preciso ter alguma organização porque há sempre muitas coisas para fazer. Há fotografias para serem vistas e escolhidas, vídeos para seleccionar e editar, estórias para contar e o programa de rádio para ser feito, semanalmente. Nem todos os sítios tem wi-fi e nem todos os wi-fi são rápidos, o que nos tem dificultado muito a vida. Às vezes o tempo aperta e fazemos algumas noitadas dedicadas ao Viagens 100 Nomes. Mas fazemos tudo por gosto e enquanto assim for não há problema.

 

      11. Se se sentirem à vontade de partilhar connosco, qual foi, até agora, o melhor e o pior momento da viagem.

O pior momento da nossa viagem até agora foi com o pessoal de Bollywood a falhar-nos à grande. Passamos a explicar: fomos convidados para fazer de figurantes num filme indiano, o que foi uma experiência brutal. No entanto, não são os rapazes mais organizados com que já trabalhamos e no último dia de gravações depois de nos terem prometido tudo e mais alguma coisa, incluindo um táxi de volta para a cidade onde estávamos a ficar, disseram-nos que não havia boleia para nós. A coisa acabou por se resolver, mas tivemos que nos chatear a sério com eles.

No set do filme de Bollywood “Baadshaho”
Índia
Índia

O melhor momento pode ser atribuído à noite passada e dormida ao relento no deserto. Vimo-nos aos dois deitados num colchão em cima da areia com um esplêndido céu estrelado e com um silêncio absolutamente relaxante. Uma experiência que nunca mais havemos de esquecer.

Índia

      12. Já pensaram em como vai ser quando regressarem? Ou têm vivido apenas ao sabor do vento?

Nunca fomos pessoas de fazer planos a curto prazo. Pensamos sempre no futuro, mas neste momento estamos a viver um dia de cada vez.

 

      13. Por fim, algum conselho para os nossos leitores que estejam mais reticentes? 

CORAGEM! A maior parte das vezes é possível concretizar o que parece ser difícil. Só é preciso um pouquinho de organização e muita vontade.

 

Todas as fotografias e conteúdos multimédia são da autoria do Viagens 100 Nomes.

Continua a seguir esta aventura da Ana e do João!

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Rita Pinto-Coelho

Alfacinha de gema, é finalista do curso de Línguas, Literaturas e Culturas. Encorajada pelos pais, sempre viajou mas foi depois de fazer Erasmus na Alemanha e um Interrail pela Europa de Leste que percebeu que é lá fora que se sente melhor. Está há 21 anos à procura do que quer fazer "quando for grande" mas não quer ficar por uma coisa só. Adora comer, tem sempre demasiadas abas abertas no browser e ri a alto e bom som.

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