Os Dois Lados do Dinar

Verão! Férias, praia, Sol, descanso. A última coisa que alguém quer no Verão é o quê? Trabalhar. Porém, foi isso mesmo que fui fazer, mas, com um plot twist, na Tunísia! Este Verão queria ter uma experiência profissional e, ao mesmo tempo, conhecer um novo país (mas o que é isso de ‘conhecer um país’? Já lá vamos.)

Lá estava eu, de novo, em África. Uma África diferente, desta vez no mundo árabe. Fui recebido pelo Aymen e pelo Bilel, que me levaram de carro para La Goulette. Logo no caminho apercebi-me do caos que é a condução lá. Semáforos, sinais de trânsito, piscas, passadeiras? O que é isso?! Lá tive de me habituar a atravessar a rua contornando os carros em andamento, sem medo, todos os dias.

No estágio, as tarefas eram simples. Desde fazer alterações no website e tentar aumentar a visibilidade da empresa, criando e dinamizando também uma conta Facebook e LinkedIn. O ritmo de trabalho lá é calmo e não é propriamente o mais eficiente, mas as coisas aparecem feitas. Trabalhava apenas de manhã, tendo todas as tardes livres, permitindo explorar um pouco de Túnis todos os dias. Ir à Medina, Avenida Habib Bourguiba e tantos outros sítios.

A vida na Tunísia é simples, pós-revolucionária. Foi o único país da Primavera Árabe em que a revolução vingou. A economia vive muito à base do comércio local e turismo. Surpreendeu-me a simpatia das pessoas, sempre muito afáveis e prontas a ajudar. No elétrico as pessoas esperam que todas saiam antes de entrarem, e todos os homens dão lugar às senhoras para se sentarem.

Nas cidades mais turísticas, como Sidi Bou Said, as casas são arranjadas e as praias limpas. Porém, em Túnis, o lixo nas ruas é abundante e os meios de transporte antiquados. O fraco valor do Dinar e da economia não permite aos tunisinos viajar para o estrangeiro com frequência, limitando as possibilidades dos jovens.

Também durante a minha estadia lá, a IAESTE Tunísia organizou uma viagem de 5 dias ao deserto, com todos os estagiários e os voluntários. Permitiu-me conhecer outros locais, novas comidas, novos ambientes, novos costumes e travar grandes amizades. Alguns hábitos e dogmas mantém-se muito enraizados na população, principalmente no que toca à religião. No entanto, nunca vi nenhum caso de extremismo e jamais me senti inseguro. Reina a tolerância e simpatia.

Foi muito interessante falar com tunisinos mais abertos e mais conservadores. Conhecer os dois lados da moeda. Trabalhar como eles trabalham. Viver a rotina local, experimentar Arisa, andar de camelo. Ser tunisino por umas semanas. Mas no final, ainda havia tanto por conhecer do país. Locais por visitar, pessoas por conhecer e sabores por experimentar.

E uma vez mais, o que é isso de ‘conhecer um país’?

Quanto tempo mais seria preciso para conhecer o país? Mais um um mês, um ano, uma vida? Ainda não tenho uma resposta, nem acho que alguma vez irei ter. Para mim é conhecer o bom e o mau, é viver a rotina, é viver as pessoas. Porém, tudo isso está também em constante transformação, sendo impossível conhecer tudo isso na totalidade. Mas nada nos impede de ir a uma diferente aldeia, vila, cidade ou país e conhecer algo único e diferente. Até mesmo dentro do nosso país. E, no final de cada viagem, resta-nos guardar no coração as emoções que vivemos num certo local, num determinado tempo, com aquele grupo de pessoas e as lições que retirámos dessa experiência.

José Cordeiro

O José tem 21 anos e estuda Eng. Informática no IST. Pela IAESTE Portugal candidatou-se a um estágio de 4 semanas na Tunísia, na área de web development, de Julho a Agosto. Gosta de viajar e ter este tipo de experiências durante o Verão. Podes ler outro testemunho do José aqui.

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