Não percas de vista os teus sonhos

Há 22 anos e 346 dias nasci numa pequena ilha no Oceano Atlântico. Há quem diga que somos marroquinos devido à proximidade e ao clima, mas dita a história que somos portugueses. Das primeiras terras a serem encontradas pelos Descobrimentos Portugueses, o Porto Santo surge no mar com apenas 42 km2. Nessa pequena ilha cresci no coração de uma família afetuosa e tradicional, mas sempre fui diferente! Ao contrário de grande parte dos meus conterrâneos, nasci com uma ânsia de ser mais e querer sempre mais. A certo ponto no meu crescimento a ilha tornou-se demasiado pequena para todos os meus sonhos e aspirações.

O horizonte estava sempre tão longe e eu queria alcançá-lo!

Aos 17 anos fiz a minha primeira grande viagem, uma volta a Portugal Continental de carro com o meu grupo dos escuteiros. O sonho começou na preparação: marcar visitas, definir rotas e alojamento. A adrenalina de ver toda a viagem a crescer diante dos meus olhos mostrou-me a pessoa que há vários anos sabia que era, mas que ainda não tinha aparecido.

Quando finalmente nos fizemos à estrada nem queria acreditar! Durante aquele mês na estrada apaixonei-me por todos os recantos que visitámos e pelas pessoas extraordinárias que conhecemos. De regresso a casa senti uma sensação estranha, como se já não pertencesse àquele lugar. Durante semanas pensei que estava deprimida. Tinha entrado numa espécie de ressaca, após as sensações incríveis que tinha experimentado e que agora tinham acabado. Foi quando decidi: no ano seguinte terminava o secundário e esta era a minha porta para o mundo!

A sociedade compactuava à minha volta e dos restantes jovens da minha idade. Tínhamos que ir para a universidade! A pressão vinha disfarçada com frases como “só queremos o melhor para ti” ou “hoje em dia ninguém arranja trabalho sem um curso superior”. Não lhes podia contar o que me ia na mente e no coração: não fazia ideia do que queria seguir, nem se queria ir já para a universidade. Não me sentia preparada!

Aos 18 anos ainda demorava imenso tempo a decidir o que queria almoçar e já me pediam para escolher o curso que decidiria o meu futuro! Emaranhei-me em inúmeras pesquisas de cursos, saídas profissionais, planos de estudos, cidades, universidades. Era tudo muito arrebatador e, ao mesmo tempo, sufocante. À minha frente extendiam-se vários caminhos, mas perdia-me algures no labirinto antes de encontrar uma saída.

Só queria viajar, perder-me pelo mundo e, pelo caminho, tentar encontrar-me. Queria parar por uns tempos os estudos para poder perceber o que queria fazer com a minha vida.

Não podia dizer isso aos meus pais nem à minha família, que toda a vida tinham trabalhado para que eu pudesse ter tudo o que tinha. Cresci num meio onde se valoriza, acima de tudo, o trabalho e muitas vezes se deixa para trás os sonhos. Não queria ser uma desilusão e amedontrei-me. Guardei numa caixa todos os meus sonhos e segui a corrente.

No meio de tanta procura, sabendo não estar preparada para o momento que decidiria todo o meu futuro, decidi-me por Anatomia Patológica. (vinha de um curso de ciências no secundário, gostava muito da biologia humana e via muito CSI). Foi uma decisão muito espontânea. O motor estava a andar. Agora só tinha que entrar no curso e seguir para Lisboa.

Entrei na minha segunda opção e fui parar a Análises Clínicas, que na altura da candidatura me pareceu o mais parecido com a primeira opção. Nem me importei muito com o que seriam o curso e as aulas, estava demasiado empolgada com a partida! Empacotei a minha vida em algumas malas, despedi-me da família e da ilha que me viu nascer, e parti para uma vida completamente autónoma.

Era uma menina da ilha numa grande cidade e tudo corria a um ritmo que me impressiona. Havia tanta coisa para ver, fazer, participar…queria experimentar tudo e comecei a perder o foco do curso à medida que fui percebendo que não pertencia ali. Quer dizer, sentia-me completamente em casa, na faculdade, na cidade e nas experiências, mas não no curso. Estudava e não era das piores alunas, mas a vontade para seguir em frente ia decrescendo de dia para dia.

Tinha-me focado tanto em ir embora, que decidi algo que influenciaria todo o meu futuro sem ter a mínima certeza do que queria. Não parei o tempo que precisava para esclarecer as minhas dúvidas e por isso arrependo-me muito!

Passou-se ano e meio na vida que eu queria em Lisboa e dezenas de conversas com quem me conhecia melhor do que eu a mim mesma, para perceber que nunca seria feliz se continuasse naquele curso! Tomei a decisão que mais me custou em toda a vida, fiz malas e voltei para casa.

Quando regressei, tudo era diferente. Tudo era pequeno demais para mim, mais ainda do que era outrora! Instalei-me na casa que me viu nascer, com a família que amava e acomodei-me.

No ano seguinte ia candidatar-me novamente, desta vez a algo que gostasse mesmo. Esse tempo passou e ainda não fazia ideia do que queria. Decidi ficar mais um ano. Tinha trabalho, casa e comida, não podia pedir mais. Por vários meses, deixei de sonhar! Tornei-me vazia e tudo o que vivia parecia estar a acontecer na pele de outra pessoa.

Tinha novamente adiado os meus sonhos e quando decidi voltar a sonhar, o meu pai ficou doente. Não podia abandoná-los agora! Ia dar-lhes tudo o que podia de mim até que melhorasse. Voltei a acomodar-me e instalei a minha alma novamente naquela pequena ilha. Ao início decidimos que ficaria por um ano. Passou um ano e o meu pai não melhorou. Fiquei ainda mais um ano.

Estava a adiar todas as minhas aspirações de futuro, a minha vida profissional, o meu crescimento pessoal, as minhas viagens e todos os meus sonhos! Mas sabia que era pela melhor causa possível. A minha vida era um paradoxo, queria crescer e viver os meus sonhos, mas não conseguia deixar a minha família neste momento tão difícil. Tentei juntar os dois e uma vez por ano fazia uma viagem de algumas semanas, que tornava em viagens com horários doidos, correrias e enormes sorrisos! Andei 120 km a pé, conheci cidades italianas cheias de fulgor, fiz caminhadas pelo país mais verde da Europa… por algum tempo era suficiente para saciar a minha ânsia de mais e mais.

Ao fim de três anos em casa a minha vida voltou a mudar. As minhas motivações deram uma volta de 180º e este ano voltei para Lisboa, a cidade que há anos me tinha acolhido de braços abertos e tinha lamentado a minha partida. Agora aqui estou eu, uma rapariga de uma pequena ilha a tentar a sua sorte na grande cidade.

 

Bia Dias

A Bia vem de pequena ilha no Arquipélago da Madeira e neste momento está a perseguir os seus sonhos em Lisboa, a ser feliz ao máximo com tudo o que a vida lhe dá. Não acabou os estudos superiores e sempre trabalhou, fosse nas férias ou durante o período escolar. Nunca fica muito tempo parada e faz de tudo para realizar os seus sonhos e os dos que estiverem ao seu alcance.

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2 pensamentos em “Não percas de vista os teus sonhos

  1. Aproveita a tua vida… aprecia cada momento que ela te dá e, nunca deixes nada por fazer, pois o melhor caminho para a felicidade é, sem dúvida poder realizar os nossos sonhos! E tu vais conseguir…

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