O Mundo na Mão: Estar doente em viagem

Estávamos na ilha de Java, na Indonésia, e a nossa história por este lindo país ia apenas no início.

Depois de uma chegada atribulada, partimos de Malang com rumo a Bali, uma ilha distinta. Esperavam-nos pouco mais de quinhentos quilómetros naquele dia, confiantes e felizes, contudo, doentes. Eu, sem saber propriamente aquilo que me provocava tamanho mau estar, sabia bem que não estava decerto no melhor de mim.

Mas seguimos.

Quando partimos, o dia prometia: de sol no horizonte e poucas nuvens no céu.

Depois de já várias boleias, por entre a companhia de pessoas encantadoras, tivemos a infelicidade de ver o céu mudar de tom e sentir os primeiros de muitos pingos grossos de chuva.  Choravam as nuvens e, por dentro, chorava eu também.

À chegada a Bali

Em viagem, especialmente, a saúde é o nosso grande pilar. Dela, depende a nossa energia, o nosso bem estar, o nosso sorriso, a nossa força. Da nossa saúde, mental e física, depende a viagem. É matemática da simples, esta equação. E, aí, quando o resultado é negativo, a vontade é de correr para trás, de deixar tudo e desistir. Por isso, estar doente é, por certo, uma das piores coisas a acontecer em viagem. Mais, numa viagem como a nossa.

Naquele dia, naquele momento, piorei. E eu sabia, sabia que isso ia acontecer, mas enquanto caminhávamos debaixo de chuva e pedíamos boleia, conseguimos uma. Encolhida, adormeci, mal me sentei no carro – lembro-me. E por mais que tenham sido várias as horas ali enfiada, quando o carro parou, só sabia que nada mais sentia senão o meu corpo e as dores que este me provocava. Eram dores e arrepios. Nas pernas, nos braços, no pescoço. Nos olhos!

Doía-me. Doía-me o corpo todo.

E o sol estava a cair no horizonte, numa cidade perdida no meio do mato, a duzentos quilómetros do extremo oriental da ilha de Java, do porto onde iríamos apanhar o barco para Bali.

Quando me tentei levantar, o que mais pude sentir em mim foi febre. O mau estar era geral e, naquele momento, acreditei não ser capaz de aguentar com a mochila.

Procurámos então pela nossa localização. E o mapa, sem espaço para dúvidas, fez-nos perceber que não estávamos assim tão distantes do hospital para onde acabámos por caminhar – a custo!

À chegada, foi fácil adivinhar que se tratava de um hospital enorme, que por certo serviria toda aquela comunidade. Contudo, não fazíamos a menor ideia de que se tratava do único hospital por mais de quatrocentos quilómetros: e, ali mesmo, de olhos postos no Tiago, senti a sorte cair-me aos pés.

Mas tinha medo, muito medo. Medo da falta de cuidados básicos, medo da falta de higiene, medo de não conseguir comunicar. Medo. E medo de não ter comigo, na moeda local, o valor necessário para pagar o que quer que fosse necessário.

–Mas a minha sorte não se ficou por ali, mesmo quando assombrada por medos sem fim. –

Comecei por ser, por entre gestos e sorrisos envergonhados, encaminhada para a zona das urgências. E lá me sentei, rodeada de pessoas de bata branca, pacientes e baldes de lixo (onde podia ver misturados papéis e seringas).

Não estava calma. Na verdade, não estava nada calma.

E estava tão cansada. Mas tinha sempre em mim o conforto do amor, a compreensão e o carinho de quem nunca me largou, até mesmo quando em momentos de desespero dentro daquele hospital questionei as suas decisões.

A médica de serviço chegou: alta, com olhos grandes, de hijab. E, sem demoras, iniciou o seu despiste, em inglês. Não gaguejou, não hesitou. E, sem que tivesse eu tido tempo de lhe partilhar o que quer que fosse que me corresse na alma, disse: “não estejas com medo, vou ajudar-te a ficar bem, vamos tratar de ti”.

Respirei. Fundo, no mais fundo que havia ali em mim. Respirei!

Mas sobre o hospital, havia um tanto para dizer. (Sem prejuízo, ou preconceito.)

A senhora, que aquando a nossa chegada se encontrava à entrada, e que me recebeu de sorriso envergonhado na receção, foi aquela que veio fazer-me as análises ao sangue (porque a primeira coisa que tiveram de fazer foi o despiste de doenças endémicas transmitidas por mosquitos – logo depois de me terem assustado sem pudores sobre a gravidade das doenças naquela região do mundo e da falta de cuidados médicos).

Logo depois, fui auscultada devidamente (quero acreditar), mas a garganta foi-me observada com a lanterna do telemóvel.

A confusão era mais que muita: a sala das urgências grande o suficiente, com cinco ou seis camas e vários pacientes. Em cima da mesa principal da sala jogavam-se cartas, jantava-se, tratava-se de papéis e documentos e, surpresa das surpresas, estava também o meu sangue. Enfim, a confusão era mais que muita.

Para ajudar à festa, pouco depois de ter sido vista pela primeira vez, faltou a luz. E sem luz ficou todo o hospital por um bom bocado, num clima descontraído e despreocupado, reflexo da cultura indonésia. Já quando se deu o regresso da electricidade, vi-me rodeada de pessoas, de gente curiosa! Olhares indiscretos, risinhos descontrolados.

Quando faltou a luz no hospital

Afinal, o que fazia uma malang (estrangeira branca, em indonésio), num hospital local?

Tive, portanto, de me levantar e pousar para fotografias, mesmo que a arder em febre e o corpo em desespero. Mas sorri – até mesmo quando o medo ainda se apoderava de mim.

E não só de mim: também ele, o meu marido, temia. Por mim e pelo resultado das análises. Muito embora o Tiago seja, por regra, mais descontraído que eu. Mais descuidado, despreocupado, simples. Tranquilo. Já eu sou a esposa tresloucada e sempre ansiosa ou nervosa, em pico de exigências e sempre, sempre, preocupada, na busca de cuidados.

Mas ali, temíamos ambos pelo mesmo. Queríamos, juntos, o meu bem estar. E, preocupava-nos também o que aconteceria depois – porque já de noite não tínhamos propriamente para onde ir; e comigo doente, acampar parecia fora dos planos

Descansei depois, até vir o resultado das análises: inconclusivo. Naquele momento, vinha tudo negativo, mas!, havia a hipótese de ser negativo por não ter ainda passado o tempo necessário. Assim, guardei o papel e comprometi-me a repetir as análises em Bali, caso a febre persistisse. E prometi também continuar a ter cuidado, a usar roupas como calças e manga comprida, nunca descuidar o repelente ou ter preguiça de prender a rede mosquiteira – o que sempre havíamos feito até então, mas claro… há sempre mosquitos mais espertos que nós.

Ali, trouxeram-me então a prescrição do que médica decidiu ser o que deveria tomar: antipirético, anti-inflamatório e antibiótico. Contudo, a farmácia do hospital não tinha disponível este último: estava esgotado e ainda bem, porque tal como suspeitava não foi necessário a sua toma.

E chegada a hora de tomar o que quer que fosse e houvesse ali disponível, trouxeram-me também o jantar. Uma caixa de noodles instantâneos oferecidos pela médica e muita sorte, uma vez mais, no momento em que nos disponibilizaram uma das camas do hospital para que pudesse eu ficar em recuperação até ao dia seguinte, depois de já todo o hospital saber o que estávamos ali a fazer e ter conhecimento da nossa linda volta ao mundo.

Assim, ali ficámos. E abraçados dormimos, no abraço que conforta, com direito até a duche e já sem febre – pela módica quantia de 0.70€.

A cama de hospital onde dormimos

Joana Oliveira 

Com 27 anos, Psicomotricista de alma e coração, Licenciada em Reabilitação Psicomotora pela FMH, Pós-Graduada em Proteção de Crianças em Perigo e Intervenção Local pelo ISCSP e mais recentemente Mediadora Familiar pelo IPMF. Assume-se apaixonada pelo contacto com outras pessoas, diferentes culturas e formas de estar. Depois de um programa de intercâmbio no Brasil, experiências de voluntariado em Portugal e em Moçambique e um casamento de sonho, deixou tudo para trás e partiu na lua-de-mel da sua vida: uma volta ao mundo, de mochila às costas e à boleia.

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