O Mundo na Mão: o primeiro visto no passaporte!

Lembro-me bem daquele dia, em que deixámos Portugal para trás. Era um misto de felicidade e tristeza profunda. De alegria e medo. De entusiasmo e receio. Assim era eu, no meu estado mais genuíno.

E era também eu, aquela apaixonada pelo mundo e pelo meu marido.

Lembro-me de olhar a minha mochila, as minhas escolhas e o meu passaporte. Estava vazio, cheirava a novo. Estava em branco, com as páginas ainda duras e coladas entre si. E eu, imaginava-lhe naquele momento a data de regresso: sujo, mais dobrado que direito, mole de tanto lhe mexermos, usado e gasto; mas cheio de vida! De carimbos, vistos, histórias.

Percalços e paixões, assim o esperava.

Quando partimos, trazíamos um plano. Ou melhor, trazia-o o Tiago, de alma e coração entregue neste seu sonho de dar a volta ao mundo. Mas não, não trazíamos vistos: nem um! E acho que é por isso mesmo que me lembro tão bem do primeiro que pedimos e do primeiro que obtivemos – o do Irão.

Em Teerão, capital do Irão

O nome é pesado, eu sei. Soa assim mesmo, mais ainda quando o desconhecemos da boca de viajantes e nos deixamos inundar pelas notícias recorrentes, de que todos aqueles que terminam em “ão” não lhes devemos sequer sentir o ar. Como eu. Cheia de mimimis na minha cabeça, enquanto pouco mais fazia senão, uma vez mais, confiar no meu marido.

E lá fomos nós, na Macedónia, em Skopje, à Embaixada da República Islâmica do Irão.

Estava tão, mas tão nervosa – recordo.

Levámos semanas para conseguir que nos aceitassem este pedido fora de Portugal e, quando soubemos que o Cônsul teria acedido a receber-nos, demos o nosso melhor. Procurámos a melhor roupa. O melhor calçado. E li, li todas as regras que me caberiam cumprir no Irão. Informei-me, pedi ajuda, perguntei, falei. E sabia de cor: cabelo coberto, braços e pernas tapadas; não olhar nos olhos, não falar diretamente e não cumprimentar nenhum dos homens.

Assim fiz.

Em Imam Khomeini Shrine, uma mesquita, perto de Teerão, no decorrer de uma festa religiosa.

Naquela manhã saímos cedo de casa. Sabíamos ao que íamos, sim, mas não fazíamos ideia do que esperar. Éramos ali mesmo, tábuas rasas, inertes, expectantes. E acelerados, de tantas borboletas que trazíamos na barriga.

Mas contive-me, sempre e até ao último minuto, sem dar parte fraca.

O edifício era como que uma majestosa vivenda. Grande, branca. Com pequenos apontamentos dourados. E verde, muito verde. Árvores, flores, plantas. E uma campainha.

Tocámos-lhe, e esperámos.

Abriu-nos a porta um jovem, com quem mais tarde tratámos de todos os papéis necessários; mas vimos pelo corredor, repleto de longas e lindas carpetes iranianas (conhecemo-las agora tão bem!), passar uma senhora. Coberta, da cabeça ao pés. E estremecemos.
Numa sala, especial, toda ela delicadamente decorada, esperámos. E ali mesmo, serviram-nos chá. O primeiro chá preto oriental, suave, amargo, intenso. E ali, sem que dessemos por isso, tivemos o primeiro viver cultural. O primeiro choque, os primeiros pensamentos, o primeiro contacto.

Preenchemos todos os papéis, respondemos a todas as questões que nos fizeram e demos as mãos à saída, felizes, por sabermos que tínhamos superado aquela prova, naquele momento, e que breve breve teríamos estampado, no nosso passaporte, o nosso primeiro visto!

O meu primeiro visto, o do Irão!

Joana Oliveira 

Com 27 anos, Psicomotricista de alma e coração, Licenciada em Reabilitação Psicomotora pela FMH, Pós-Graduada em Proteção de Crianças em Perigo e Intervenção Local pelo ISCSP e mais recentemente Mediadora Familiar pelo IPMF. Assume-se apaixonada pelo contacto com outras pessoas, diferentes culturas e formas de estar. Depois de um programa de intercâmbio no Brasil, experiências de voluntariado em Portugal e em Moçambique e um casamento de sonho, deixou tudo para trás e partiu na lua-de-mel da sua vida: uma volta ao mundo, de mochila às costas e à boleia.

Instagram: @blogomundonamao

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