Multiway – Uma Escola Americana – Parte 1

Olá, o meu nome é Gonçalo Silva e durante este ano, estou a fazer o 12º ano através da Multiway, num curso académico no estrangeiro, numa escola americana. Fui colocado no estado de Oregon, numa cidade muito pequena chamada Ione. Estou a exatamente 8371.80 Km de minha casa e estou nesta aventura à 142 dias. Tem sido uma experiência absolutamente fantástica!

Entre as inúmeras coisas que já tive oportunidade de ver, viver e experimentar, a escola é sem dúvida uma daquelas que mais me surpreendeu.

Escola. A palavra que atormenta muitos adolescentes hoje em dia. E eu, como adolescente que sou, não era uma exceção à regra. Tenho que admitir que a escola era o tópico que eu mais receava quando decidi embarcar nesta viagem. Muitas perguntas me surgiram: “Quais é que serão as disciplinas?”, “Como serão os professores?”, “Será que as matérias serão difíceis?”, “E os testes? E os exames? E os TPC’s? E os colegas?”, os “e´s” prologavam-se infinitamente, assim como os “mas”, e os “ses”. Assim que entrei na escola no primeiro dia de aulas, (com o cuidado de usar o pé direito, pois na verdade pensava que precisava de toda a sorte do mundo), todos os meus medos e preocupações se desvaneceram.

Tudo era novo para mim, os corredores, os cacifos, as salas de aulas, o refeitório, tudo era absolutamente igual ao que eu costumava ver nos filmes, desde o campo de football americano, às sandes de manteiga de amendoim com geleia que são servidas na cafetaria. A partir desse dia a minha perspetiva em relação à escola mudou drasticamente.

Photo via Visualhunt.com

Os professores são sem dúvida os elementos fundamentais na caracterização deste sistema educativo. Todos eles, sem exceção, são pessoas divertidas que têm gosto em ensinar, fazendo de tudo para que os alunos consigam atingir o sucesso académico.

Falando por experiência própria, desde o dia em que cheguei à escola, todos os meus professores se ofereceram prontamente para me ajudar em qualquer questão que eu tivesse. Mostraram-se disponíveis para gastarem algum tempo mesmo fora do seu horário de trabalho, para me tirar todas as dúvidas e me ajudar em todos os assuntos que eu necessita-se. Além do extremo profissionalismo que demonstram, estão sempre prontos para contar uma piada ou soltar uma gargalhada, por muito importante ou complexa que a disciplina ou matéria seja. Os momentos de aprendizagem são intercalados por momentos de anedotas ou por momentos de histórias de vida, que, por vezes, se adequam bem ao tema que estamos a falar em aula.

Lembro-me que durante a primeira semana de aulas, o meu professor de Calculus ( uma aula de matemática que se ensina normalmente na faculdade), todos os dias investigava curiosidades sobre Portugal e na aula seguinte fazia questão de partilhar o que aprendeu com os todos alunos e comigo. Os assuntos eram dos mais variados, desde o tipo de comida, ao hino de Portugal com legendas em inglês para que todos os alunos pudessem participar.

Photo via Visualhunt.com

Outra coisa que me surpreendeu foi o facto dos professores serem o mais transparentes possível com os alunos. Aqui não há segredos.

Estou na escola há cinco meses e posso dizer que já sei mais sobre a vida dos meus professores americanos do que dos meus professores portugueses com quem partilhei a sala de aula durante onze anos. Eles não têm qualquer problema em contar as suas histórias de vida, mesmo que estas não sejam exemplares. Todas as segundas-feiras temos um ritual. Contamos para turma como correu o nosso fim de semana, o que fizemos, o que vimos e até o que comemos. Estas histórias por vezes ocupam grande parte da aula, mas aqui, isso não é importante. Aqui, os alunos são postos à frente de objetivos, de matérias, de metas curriculares. Aqui os alunos são tratados como se fossem parte da família, toda a gente conhece toda a gente.

Aqui, a distinção entre trabalho e diversão consegue ser muito eficiente.

Podemos estar a trabalhar arduamente na aula, mas ao mesmo tempo à hora de almoço estamos a almoçar todos juntos, alunos e professores. Na minha opinião, estes são os fatores que fazem com que as escolas americanas tenham tanto sucesso. Primam pela Comunicação, Trabalho em Equipa e Motivação.

Falando agora um pouco em relação ao sistema propriamente dito, e o que acontece especificamente na minha escola. Tenho quatro dias de aulas, de segunda a quinta, as aulas começam às oito da manhã e terminam às três e meia da tarde. Durante o dia temos sete períodos de aulas, cada um com a duração de cinquenta e cinco minutos. Intervalos de cinco minutos entre aulas e um intervalo para almoço de trinta minutos. No início, tenho que admitir que levei algum tempo a habituar-me aos intervalos tão curtos, especialmente o do almoço, mas depois percebi que de facto não precisamos mais do que cinco minutos para irmos à casa de banho ou para irmos ao cacifo buscar os livros para a próxima aula.

Também sei que tudo isto é possível porque a minha escola tem cerca de oitenta alunos e as salas de aulas além de serem todas no mesmo piso, são todas no mesmo corredor, por isso de facto os cinco minutos chegam.

Quanto à escolha das disciplinas esta é feita pelos alunos, dependendo da área que querem seguir, caso pretendam ingressar na vida académica.

Corredor da escola

Outro aspeto bastante interessante das escolas americanas é o facto de cada professor ter a sua própria sala de aula e ter completa liberdade para fazer dela o que quer e decorá-la da forma que desejar. Foi algo novo que me fascinou e motivou imediatamente, todas as salas estão decoradas segundo os gostos de cada professor. Desde “banners” e bandeiras das equipas de football americano na sala de aula do coordenador de desportos, aos imensos placards onde as mais brilhantes “quotes” das mais brilhantes mentes da filosofia e literatura são retratadas, na sala da Mrs. Mathieu, a professora de literatura, filosofia, escrita, psicologia e muitas outras disciplinas. Sim, porque na minha escola cada professor lecciona pelo menos seis disciplinas, o que quer dizer que dos sete períodos de aulas que temos por dia, podemos ter o mesmo professor a dar diferentes disciplinas, o que mostra o quão eficiente é este sistema, uma vez que com menos recursos, um maior leque de objetivos consegue ser atingido.

E por falar em Mrs. Mathieu, esta é a professora que todos os dias tem disponível na sua aula “candies” dos mais derivados tipos para os alunos, assim como creme hidratante com fragrância de pinheiro de natal, pois segundo ela diz “uma vez que vocês escrevem tanto as mãos precisam de estar hidratadas”; um episódio que me marcou bastante nesta época natalícia.

Todas as pessoas na escola levam o natal muito a serio, e uma vez mais os professores não são exceção.

Este natal, enquanto os alunos trabalhavam, os professores colocavam músicas de natal, para que, segundo eles, sentíssemos o espírito natalício. Os tópicos das matérias começaram a ser sobre o natal, (como por exemplo na aula de agricultura, começamos a falar sobre os pinheiros de natal), os filmes eram sobre o natal e até os testes eram baseados em episódios natalícios, como por exemplo, um “quiz” que fizemos em história, sobre os filmes natalícios da Disney… Conseguem encontrar alguma analogia com a disciplina de história? Eu também não, mas não deixou de ser divertido.

Felizmente, o natal não é a única época festiva nas escolas americanas, na verdade tudo parece ser uma boa razão para criar novas atividades e para fugir um pouco à melancolia dos livros e cadernos. Desde que entrei nesta escola, não há quinzena que passe sem que ouça o intercomunicador a anunciar uma atividade nova.

Quatro semanas após a escola começar, tivemos a semana do “Homecoming”. Esta foi sem dúvida uma das melhores semanas que vivi aqui até agora. Durante uma semana, todos os dias, sem exceção, fizemos das mais variadas atividades durante o dia de escola, como os “dress-up days”, “Senior day”, “America Day”, “Favourite Team day” e “Cardinal Pride Day”.

Durante estes dias, tínhamos que ir para a escola vestidos de acordo com o tema em vigor. Foi uma experiência fantástica. No final do dia ainda tínhamos tempo para algumas atividades, como a “troca de desportos”, onde as raparigas jogavam football americano , e como a igualdade de sexos é algo a tomar em conta, os rapazes tiveram que jogar voleyball. Foi talvez uma das noites mais divertidas! Tivemos ainda outras atividades, como “Mud Wars”, onde todos os alunos fazem equipas e o desafio é ver qual das equipas tem mais força para puxar uma corda até à sua área de jogo, eliminando assim a outra equipa, parece fácil certo? Mas o problema é que este desafio é feito num poço de lama.

A equipa dos seniors na Mud Wars

Outra atividade foi o “Homecoming Football Game”, no fim do jogo um dos jogadores é eleito o rei do homecoming, e qual não foi o meu espanto, quando percebi que tinha sido o escolhido, foi algo sem dúvida fantástico. E para terminar a semana em beleza, uma “high School dance”, ou um “Baby Prom” como toda a gente gosta de chamar. A dança foi espetacular e eu até tive oportunidade de ser o DJ.

Acho que deixei bastante explícito, que tédio é coisa que não existe nas escolas americanas, estão sempre a acontecer coisas novas, e o tempo para descansar é escasso, mas se mesmo assim ainda restam algumas dúvidas, esperem pelo meu próximo artigo que sairá amanhã!

Eu no primeiro jogo de Football Americano

Gonçalo Silva

 

Foto de destaque retirada de: flickr.com

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