O maior salar do mundo e uma aventura de 7

Sabem aquela sensação de estarem a cumprir finalmente um ansiado sonho e visitar um dos clichés de viajantes? Foi a primeira vez que senti isso, nesta viagem. Já saltei de cliché em cliché, andei entre maravilhas naturais e construídas pelo homem, mas nunca tinha estado tão entusiasmada como para esta de que vos vou falar a seguir. O maior salar do mundo, o salar de Uyuni, na Bolívia. Nos últimos anos, esta maravilha natural tem vindo a atrair cada vez mais turistas e as fotografias originais no salar já são comuns de ver, aí pelas redes sociais.

Estava entusiasmada e ansiosa também, porque esta iria ser a primeira vez que uma maravilha natural desta dimensão seria só minha. Naturalmente que de outras dúzias de turistas também, mas na memória dos que me rodeiam no dia a dia, seria unicamente minha, porque, claro está, estava a viajar só, pela primeira vez, durante semanas seguidas. Isto de viajar sozinha não tem muito que se lhe diga, e a mais pura das verdades é que nunca estás sozinha, por isso eu comecei esta experiência com um amigo feito no autocarro noturno. Situações incómodas que nos permitem criar histórias engraçadas, no autocarro noturno de Sucre a Uyuni (cidade onde se compram os tours para o salar), depois de três horas a tentar pregar olho e a não conseguir porque um ressonar (demasiado!!) alto não deixava, com o iPod sem bateria, que hipótese me restava a não ser meter conversa com o rapaz ao meu lado, também ele com cara de europeu, no meio de todos os morenos bolivianos. Era um suíço com raízes portuguesas e a conversa lá se foi desenvolvendo, para tentar abafar o ressonar (que era mesmo insuportável) da senhora que dormia atrás de nós, e tornar a viagem o mais agradável possível.

Planeávamos fazer o mesmo tipo de tour e terminar no Chile, assim que juntámos esforços e, chegados à cidade de Uyuni, fomos negociar a “actividade” pelas agências juntos. Mais eu que ele, já que o meu espanhol é significativamente bem melhor. O preço do tour lá foi negociado, por uma Ana regateira que não se deixava enganar, e conseguimos agendá-lo para o dia seguinte.

Dia 10 de Março, partimos, com o Gustavo, o nosso guia boliviano, mais um alemão de 19 anos que andava a fazer uma espécie de Gap Year e mais três brasileiros. Três brasileiros, uma portuguesa e um suíço luso-descendente – foi a primeira vez durante os oito meses que estive na América do Sul em que a minha língua dominou uma experiência. Timidezes à parte, passada a primeira hora de viagem, já estávamos todos a “madar bitaites” em bom português e em tons de brincadeira!

A foto de despedida do melhor grupo de sempre, já quase na fronteira com o Chile

O primeiro dia de um tour normal com a duração de três dias começa-se no salar. A primeira paragem é no cemitério de “trenes”, onde se podem ver os esqueletos abandonados dos antigos comboios que por ali faziam rota. Fica mesmo à saída da cidade de Uyuni. Visita-se a aldeia de Colchani, com casas feitas com tijolo de sal, onde vendem artigos de artesanato lindíssimos e esculturas de sal feitas pelos habitantes. Esta aldeia vive puramente do turismo, já que todos os tours fazem questão de passar por lá.

No cemitério de “trenes”, a primeira paragem da viagem, com a bandeira da Bolívia

Depois vai-se até ao hotel de sal, e aí é onde estão todas (ou quase) as bandeiras. Eu nem costumo ser muito patriota mas ver a bandeira de Portugal bem visível e assinada por todos os meus amigos, que tinham estado no salar nos meses anteriores, provocou-me um ataque de saudades e amor à pátria e lá fui a correr buscar a caneta para também deixar marcada a minha presença no lugar.

Aquele ataque de saudades da Pátria!

Comemos no meio da imensidão do salar, que já estava a secar e o efeito espelho não era tão marcado. Ainda assim, as fotos ficavam geniais e a imensidão daquela paisagem é realmente marcante. A primeira tarde assim se passou, entre fotos, muitos saltos, e algumas explicações do Gustavo, que ia ficando menos tímido à medida que o tempo corria.

Os tijolos de sal, a comida deliciosa rapidamente acomodada pelo Gustavo e uma Ana que insiste em ir junto com a bagagem.
O salar de Uyuni, em toda a sua imensidão

No final da tarde, seguimos viagem para o hostel, escolhendo não ficar para o pôr-do-sol no salar (contra minha vontade), porque senão chegaríamos já muito de noite. É agora que começa a parte mais interessante da viagem. Nem a meio do caminho estávamos, quando o jeep começou a falhar. Ficámos parados no meio do deserto. Primeira meia hora: tudo a rir-se, ainda é de dia, temos tempo e o carro vai pegar. Primeira hora: ligar à agência e pedir um novo carro. Segunda hora: agora é esperar que venha alguém rebocar o carro, mais umas tentativazinhas e só resta mesmo esperar. Terceira hora: “oh Gustavo, liga lá outra vez para a agência que já tinham tempo de chegar aqui e já está noite cerrada”. Quarta hora: empurrar o carro para fora do caminho (tudo a stressar com a possibilidade de levarmos com um dos camiões que passavam sem parar), e começa o pessoal a “panicar”.

A partir daí, todos se mostraram bastante preocupados. As circunstâncias eram adversas, o Gustavo não tinha bateria no telemóvel para ligar ao seu boss, não havia rede, e eu nem telemóvel tinha! Como guia que era, o Gustavo decidiu que não podíamos fazer mais nada, a não ser dormir no carro, e avisou que ia ao tejadilho buscar as mochilas. Nós deveríamos pegar nos casacos e tudo o que pudéssemos usar para nos protegermos do frio e prepararmos a nossa “bela cama” no jipe. Enquanto os outros panicavam com a situação, saí do carro e pus-me no meio da estrada, a tentar pedir boleia, aos quase zero carros que passavam num ápice. Não sei como, passado algum tempo, apareceu uma carrinha “caixa aberta” que me viu esbracejar e  parou. Fui a correr falar com eles e pedir ajuda. Com as minhas negociações, arrastei o Gustavo (que já se preparava para dormir no carro) e um dos brasileiros para a carrinha, e fomos, entre mobílias e jornais, com os nossos salvadores até à aldeia mais próxima buscar um “reboque”. Voltámos atrás para “resgatar” os restantes elementos do grupo e o carro! Nessa aldeia arranjaram-nos uma cabana com uns colchões onde confortavelmente nos instalámos depois de um “jantar” improvisado com o que o Gustavo tinha no carro. Antes de dormir ainda tivemos a companhia dos miúdos da aldeia, com quem nos pusemos a brincar.

De manhã, chegou o carro novo e optámos por seguir viagem, depois de termos chegado a um acordo com a agência do tour, por causa dos imprevistos da noite anterior. Os dois dias que se seguiram foram incríveis, passados entre lagoas, avistando flamingos, rodeados por paisagens quase intocadas. Terminámos viagem com um transfer para cruzar a fronteira para o Chile, onde nos despedimos do Gustavo (que voltou a Uyuni).

A aldeia onde acabamos por dormir  depois da “tormenta” e o deserto onde começámos a manhã que se seguiu

Antes de embarcar neste tipo de experiência há algumas precauções a tomar, ainda que os imprevistos possam sempre acontecer – a nossa viagem foi a prova disso. Na hora da compra do tour, deve pedir-se a sua descrição total, do que está incluído ou não, pedir para conhecer o motorista e os restantes companheiros de viagem e tentar negociar o preço.

Apesar do nosso pequeno/grande imprevisto, não podia ter pedido melhor grupo de viagem – com o Gustavo incluído!! Afinal de contas, um pouco de aventura só apimenta as nossas memórias de viagem. Daquela boleia a meio da noite na caixa aberta, agarrada a um armário, para irmos buscar ajuda, nunca me esquecerei, por mais anos que some.

 

 

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Ana João

A vontade de correr o mundo acompanha esta bracarense desde pequenina. Independente, curiosa e com uma enorme sede de aprender, já percorreu a Europa de autocaravana. Apaixonada por viagens, livros e arte, frequenta o 4 ano do curso Mestrado Integrado em Arquitetura da FAUP e, paralelamente, um curso de Italiano. Juntou-se à AGYP com vontade de fazer chegar o " mundo dos viajantes" a todos os jovens (de espírito e alma).

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