Mãe, pai, vou viajar à boleia

Um dos grande desafios para um jovem que pretende fazer um Gap Year ou partir numa aventura passa por convencer os pais. É por já ter passado por essa situação e por saber o quão complicado se torna esse momento que escrevo este artigo e vos trago algumas “dicas”.
Pessoalmente, os meus pais sempre me apoiaram na maioria das minhas aventuras, sempre com a condição de não lhes pedir dinheiro e de gastar o menos possível. Assim, desde cedo que fui juntando o meu dinheiro e fazendo umas poupanças para viajar. Outra forma que encontrei para conhecer outros países e contactar com outras culturas sem gastar dinheiro foram os Intercâmbios Europeus, do programa “Juventude em Ação”, agora ERASMUS +.

Desde cedo que lhes manifestei a vontade de fazer um Interrail, aproveitando pequenas oportunidades em que se falavam de viagens lá em casa ou passava uma ou outra reportagem na televisão para dizer “um dia gostava de viajar pela Europa”, ao que eles respondiam “um dia quando fores mais velho e tiveres dinheiro fazes isso”. Estas abordagens foram servindo para “experimentar” e perceber a reação deles.

À boleia pela Europa

No Verão passado lancei-me numa aventura diferente e, por certo, o desafio mais “fora da caixa” que alguma vez tivera: andar à boleia pela Europa. Ora, em questões de dinheiro poupava bastante porque não iria gastar em transporte nem em alojamento (as maravilhas do Couchsurfing), portanto, à partida, seria tranquilo dizer aos meus pais; a questão é que o conceito de andar à boleia ainda não é muito comum no nosso país, para além de existirem uma série de mitos e inseguranças que circulam em torno da boleia. Assim, sabia que teria um desafio extra na hora de lhes contar. Eu percebia o lado deles, aliás, acho que é aí que reside o “segredo”: colocarmo-nos na “pele” dos nossos pais e pensar como seria a nossa reação e as nossas preocupações se um filho nos dissesse que ia andar à boleia pela Europa. Acima de tudo eles estão preocupados com a nossa segurança e bem-estar…

Comecei por dizer que ia fazer um Interrail pela Europa com um amigo mas que ainda estávamos a ver formas de poupar algum dinheiro (já com o plano da boleia na cabeça).
Desde o início que me preocupei em mostrar-lhes que tínhamos um trajecto que ia abranger um total de 8 países, sabíamos onde íamos dormir, que cidades íamos visitar e cheguei a mostrar-lhes contactos de amigos nossos que nos iam alojar ao longo do percurso. É fundamental mostrarmos que temos um plano e sabemos qual o trajecto a percorrer, isso indicará aos nosso pais (e a nós próprios) que estamos preparados para essa aventura.

O jogo da espera

Algum tempo depois, já com a ideia do Interrail bem assimilada por eles e depois de lhes ter respondido às mil e uma perguntas que tinham para mim, disse então que íamos fazer uma parte do trajeto à boleia, só em Portugal e Espanha, por ser mais “familiar” e, na perspectiva deles, mais seguro. Mostrei-lhes histórias e até livros com relatos de outros jovens que tinham andado à boleia na Europa, na Ásia, na América do Sul, de forma a verem que não era o único a querer andar à boleia e que já inúmeras pessoas o tinham feito e tinha corrido bem.
Esta é uma questão importante: hoje em dia há inúmeros blogues, vídeos e livros de pessoas que viajam à boleia, o que acaba por ser uma boa forma de ajudar os nossos pais a aceitarem a ideia e a verem que não estamos doidos da cabeça.
Acabaram por aceitar a ideia, com o meu pai a dizer “deixa o rapaz ir, ele pensa que é muito fácil mas nem vai chegar a sair de Lisboa”.

Em Itália, um dos 8 países visitados

Como o plano ainda não estava todo contado e não lhes queria esconder nada (acreditem que eles descobrem tudo), uns dias antes de partir deixei em aberto a possibilidade de fazermos o resto do percurso à boleia (o que para nós já não era uma possibilidade mas uma certeza). O meu pai continuou a dizer que não íamos chegar a sair de Lisboa à boleia, a minha mãe disse que era melhor comprarmos um bilhete de comboio em Espanha, que andar à boleia em Portugal já era experiência suficiente.
Bem, os meus pais acabaram por aceitar com a condição de que lhes ligava diariamente para saberem como estava e se as coisas estavam a correr bem.
Acima de tudo, acho que o mais importante é termos calma e demonstrarmos-lhes o quão importante é para nós essa aventura e que fizemos a preparação necessária para tal, para além de lhes mostrarmos histórias e relatos de outros jovens e de como isso mudou as suas vidas.


Para lerem um relato desta aventura podem visitar a seguinte crónica: http://gapyear.pt/blog/afonso/

Boas Viagens!

 

Afonso Borga

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