Gap Year: uma questão de ritmos

Esta crónica surge no âmbito de uma parceria entre o P3 (plataforma on-line do jornal Público) e o Blog Gap Year Portugal. Foi publicado pela primeira vez, numa versão mais curta, no site do P3.

 

A tomada de uma decisão pode ser esmagadora. Para discernir a escolha a fazer, muitas vezes precisamos de nos afastar, visualizar objetivamente o momento. Como quando olhamos pela janela de um avião e o mundo lá em baixo apresenta-se mais calmo. Flutuando na calma da distância, observamos as subtilezas da nossa própria vida…


Fazer um Gap Year é conhecermo-nos interiormente. Uma pessoa deve confrontar-se consigo própria, e na confusão do quotidiano é fácil perdermos contacto com as nossas necessidades mais profundas. Essa falta de ligação gera bloqueios que não nos permitem evoluir, que eventualmente arrastam as nossas forças para um estado de cansaço e indecisão. Atenção, eu acredito no cansaço – mas naquele que é gerado quando o dia se preenche com as atividades que nos enchem a alma. Não acredito no cansaço do espírito, esse prejudica o equilíbrio do corpo, faz-nos perder a direção e o sentido das coisas.


Na correria do dia-a-dia nem sempre conseguimos apanhar as pequenas migalhas que o destino nos deixa pelo caminho. Fazer uma pausa é poder observar a extensão da nossa vida, até onde já chegámos, e o que podemos fazer a partir desse ponto. Quando entramos em contacto com o nosso interior compreendemos que existe um ritmo, e uma altura certa para tudo acontecer. Compreendemos que cada pessoa tem uma velocidade própria, e que ninguém se deve comparar a ninguém.


O processo da minha licenciatura foi muito desafiante, mas extremamente duro. É duro estudar num curso onde quase todos os dias convivemos com a realidade e a expectativa de que não teremos emprego quando acabarmos de estudar, pois para onde quer que nos viremos, as pessoas, os meios de comunicação social, o dia-a-dia; todos esses elementos fazem questão de nos impor uma visão pessimista. Após licenciar-me na faculdade de escultura de Belas-Artes, em 2015, compreendi que não era altura de seguir para Mestrado. Antes de mais queria compreender o que era um Mestrado. Queria adquirir a maturidade necessária para poder dedicar mais dois anos da minha a desenvolver trabalho que tivesse sentido. Queria encontrar um sentido. Por isso fiz uma “pausa”, sem deixar de me movimentar. Fazer um Gap Year é observar, caminhando. Há quem prefira fazer uma pausa com viagens. Procurando cultura. Dedicando-se a um part-time. Tentando que as atividades a que chamamos de “hobbys” se tornem mais do que simples passatempos. Descobrir que afinal temos outros talentos. Há quem se dedique a associações. Ou simplesmente há alturas em que vagueamos pelas ruas, e tomamos consciência de que estamos vivos. Experimentei um pouco de tudo. E agradeço todas as horas que passei entre livros, os museus visitados por Lisboa, os lugares novos, as pessoas diferentes, os bons e velhos conselhos, as paisagens citadinas, ou o silêncio de um quarto.


Caos e ordem; luz e escuridão; preto e branco. E todos os tons de cinzento que encontramos a cada momento, nas alturas de dúvida e nas de concretização. O que importa é experimentar qualquer atividade que nos preencha, pois o movimento gera mais movimento. Só nos arrependemos das oportunidades que não apanhámos.


Quando estive na minha “pausa”, tive a oportunidade de poder prestar apoio à produção de uma peça de teatro no Castelo de São Jorge, e graças a essas deslocações diárias pude apaixonar-me um pouco mais por Lisboa, ver de outra forma uma cidade que tomava já por conhecida. Foi uma outra forma de viajar. Diferente de quando fui a Itália, no início do meu Gap Year. A maravilha de pisar um solo diferente daquele que temos no país natal transmite uma sensação de humildade. Ao viajar ganhamos uma consciência coletiva, de que alguma forma estamos todos ligados. Temos de ter a mente aberta e estar dispostos a mudar a perspetiva do olhar. Por isso, pouco tempo depois comecei a trabalhar numa loja de telecomunicações, durante alguns meses. Algo completamente diferente da minha área de estudo, e revelou ser também um ponto de viragem sobre a forma como eu imaginava o mundo de trabalho. Fez-me compreender que às vezes é necessário afastarmo-nos de uma ideia pré-fabricada, para compreender qual é a atividade que queremos desenvolver. Qual é o combustível que nos motiva, e se estamos dispostos a trabalhar para viver, ou a viver em harmonia com o trabalho que desempenhamos.

A verdade é que não há receitas e cada pessoa tem a sua própria velocidade e tempo para atingir as metas. E não há metas melhores que outras, mais grandiosas ou mais respeitáveis. Se for um objetivo com bom fundo e que visa crescimento pessoal, então deve ser levado custe o tempo que custar. O período de Gap Year naturalmente poderá ser visto como período de incubação de ideias; quantos projetos não terão nascido em alturas de foco e concentração? Quando damos tempo a nós mesmo, encontramos uma saída favorável. Dediquei-me então à associação de teatro à qual pertenço, e não há nada como experimentar uns meses de burocracias para a nossa oficialização. Li algures que devemos dedicar tanto tempo a aprender as leis como aquele que dedicamos à arte, se queremos ter sucesso e ser independentes nas nossas criações. Confirma-se que o trabalho nunca acaba, mas, no final, vale a pena quando todo o grupo consegue dar vida a um projeto no qual depositou verdadeiramente as suas energias.


Nessa altura, em 2015, estava a ler um livro – “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera – que me marcou, tanto pela densidade como pela crueza. Inicialmente chamou-me a atenção pelo título, e mais tarde pelo contraste de conceitos apresentados ao longo dos capítulos. Chamou-me especial atenção a junção destes dois opostos: “PESO E LEVEZA.” O confronto destas duas palavras transpôs o meu pensamento para o lugar que ocupo no mundo. O peso que ocupo no meu próprio corpo. A insustentabilidade de ter imensas ideias mas pouco tempo; a insurgência do meu próprio ser; a leveza em sonhar com a criação das minhas próprias oportunidades.


“Ser” é a única tarefa que continuaremos ininterruptamente até ao fim dos nossos dias. Cabe-nos decidir como ponderamos as nossas ações. Onde está o “peso” que fixa os pés à terra. E aprender a encontrar dentro de nós a leveza de quem confia em si. Às vezes fazer uma pausa não significa parar, mas retomar contacto com o nosso próprio ritmo.

 

Inês Figueiredo

Inês Figueiredo nasceu em Lisboa em 1994, nunca parou de criar desde então. Decidiu sempre seguir a paixão pelas Artes, pertencendo a uma associação de teatro, participado em alguns concursos de escrita e terminando a licenciatura em Escultura na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Após o diploma aproveitou para ponderar as suas opções com um gap year, na qual esta viagem se insere, e continuar a explorar as diversas possibilidades criativas onde se incluem a fotografia, ilustração, e as artes performativas.

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