O Gap Year não escolhe idades

Com quase 40 anos, um trabalho estável e uma vida financeira confortável, Marina decidiu contrariar o provável e, durante 6 meses, “aventura” foi a palavra-chave dos seus dias. Trocou a engenharia por uma viagem de uma vida: correu a América do Sul de uma ponta à outra e, quando voltou, a sua vida deu uma volta de 180º. Para si, a felicidade deixou de ser definida pelos bens materiais e passou a ser vista nas pequenas coisas.

Com quase 40 anos, decidiu largar tudo e fazer um gap year. Como é que tudo aconteceu?

Eu, na altura, residia e trabalhava na Bélgica, como engenheira (e entretanto mudei completamente o meu rumo profissional).

Estávamos em 2011, eu já estava lá há 4 anos e nesta atividade profissional há 10. Mas eu sentia que não estava feliz com o que estava a fazer. Estava a trabalhar, tinha uma função de responsabilidade, financeiramente estava bem, mas não estava contente e não me sentia realizada. Internamente eu não me estava a sentir bem. Então, numas férias vim cá, a Portugal, e vi este livro (“Encontros Marcados” – Gonçalo Cadilhe) que anunciava o “melhor viajante da atualidade”. E como sempre gostei de viajar, apesar de serem viagens de “fim de semana”, comecei a ler o livro e acho que isso me despertou aqui qualquer coisinha. Eu comecei a pensar que realmente, naquela altura da minha vida, viajar fazia todo o sentido porque financeiramente podia fazer isso, e em termos pessoais estava descomprometida. No fundo, na altura estavam reunidas todas as condições para eu ir e viver esta aventura. E assim foi. Estávamos em agosto de 2011, em outubro despedi-me para ver o que é que eu queria da minha vida, em novembro e dezembro ainda estive a trabalhar na empresa, e em janeiro comecei a falar com algumas pessoas e a pesquisar e organizar toda a viagem.
Na altura a primeira pessoa com quem falei foi com a minha mãe, e desde logo pensei que aquilo ia correr mal. Mas a verdade é que a minha mãe desde inicio me apoiou ao máximo, e isso fez com que eu me sentisse mais tranquila. Claro que também houve algumas pessoas que me diziam que eu estava maluca, porque na altura eu ganhava bem e estava bem financeiramente, mas para mim era o que fazia sentido.

Machu Picchu, Peru

Como é que foi a organização da viagem? 

Em janeiro comecei a organizar a viagem e a falar com algumas pessoas que já tinham feito algo do género. E é giro porque na altura eu falava com uma pessoa que me dizia para falar com outra pessoa, e acabai por falar com uma amiga de uma amiga minha que também ia fazer um gap year e já tinha tudo detalhado do que ia fazer. Ela sabia todos os sítios onde queria ir, o tempo que ia ficar em cada um, e todos os locais que queria visitar. E eu na altura não tinha nada…nem sequer a viagem tinha comprado! Aliás, eu parti em março e só no inicio de fevereiro é que comprei a viagem de ida.

O que fez durante o seu gap year?

Em janeiro comecei por ir a Marrocos, e em fevereiro fui numa viagem a Itália, organizada pelo Gonçalo Cadilhe, que, no fundo, foi quem despoletou esta ideia em mim. E o resto do tempo foi dedicado a organizar a dita viagem em si, apesar de eu não ter levado as coisas programadas a 100%. Eu escolhi a América do Sul, e a minha ideia era vir de norte para sul, começar no Peru, que era um dos países que eu queria muito visitar, e daí descer até à Argentina. Mas, como eu fui em Março, que já era o inverno deles, acabei por mudar de ideias e começar em Buenos Aires. Isso acabou por alterar um bocado os meus planos porque eu queria ir à Patagónia, mas na altura já estava muito frio. Por isso, comecei por baixo e acabei a viagem em fins de agosto.

Entrada no Peru

Porquê a América do Sul? 

Eu conheço bem a Europa, já tinha ido à Ásia, e existe aquela barreira da língua, e o norte de África não me atraía muito, devido à questão da segurança. Depois acabei por pensar na América do Sul, devido ao facto de eu saber falar espanhol, para além de que já me tinham falado muito bem do Peru, e o Brasil ser um país que sempre me despertou curiosidade. E para mim era mesmo importante não só visitar os sítios mas também conseguir perceber e falar com as pessoas.

Quais foram os países que visitou?

Primeiro é importante dizer que eu tinha zero contactos na América do Sul. Comecei na Argentina, em Buenos Aires. De lá atravessei de barco para o Uruguai, onde estive apenas em Colónia del Sacramento e em Montevideo, subi de avião para as Cataratas do Iguaçu, voltei a Buenos Aires, que acabava por ser o meu “porto de abrigo”, desci toda a Argentina pelo lado do Atlântico até Ushuaia, e depois comecei a subir pelo lado do Pacífico, onde comecei a apanhar o Chile, a Bolivia, que foi o país que eu mais gostei apesar das poucas expectativas que levava, o Peru, e o Brasil, onde estive dois meses.

Pão de Açúcar, Rio de Janeiro

O que andou a fazer durante estes 6 meses?

Este gap year foi essencialmente para crescimento pessoal, mas também fiz voluntariado em Cusco, no Peru, apesar de ter sido um pouco difícil encontrar estas oportunidades. Foram dois projetos, ambos em escolas. Um era numa espécie de uma creche, com crianças mais necessitadas dos 3 aos 5 anos, e as crianças eram os filhos dos trabalhadores de um mercado local. Na altura tinham apenas uma professora para uns 20 alunos, e foi espetacular. Dei-lhes apoio, ajudei nas refeições e ensinei algumas palavras básicas de inglês. O outro projeto era mais organizado, porque era numa Associação numa aldeia do Peru, e já era com crianças maiores, dos 8 aos 14 anos. Estive lá duas semanas, e ajudava-os a fazer os trabalhos de casa.

Voluntariado em Cuscu

Alguma experiência a destacar? 

Sem dúvida que as pessoas que conheci foram a melhor coisa desta aventura!

Por outro lado, as coisas más podem acontecer em qualquer lado. Apesar de eu nunca ter tido medo durante a minha viagem, passei por uma situação menos boa. Fui assaltada, durante o dia, no Rio de Janeiro. Eu estava com dois rapazes, um argentino e um peruano, que tinha conhecido no hostel onde eu estava, e estávamos a passear. De repente, quando eu estava a tirar uma fotografia ao Cristo Rei, vieram uns “moleques”, agarraram-me no braço, apontaram-me algo afiado ao pescoço e disseram: “Passa a câmera e a bolsa”. Só sei que em 2 minutos, eu e os meus companheiros ficamos sem nada. E apesar de não nos terem feito nada, eu sei que a partir daí fiquei com um bocado mais medo e com as “antenas” mais em alta porque, realmente, o Brasil em termos de segurança falha um bocado.
Mas as coisas boas, como o não saber onde vamos no dia seguinte ou as pessoas que vamos conhecendo, superam esta situação menos boa! Destaco, também, em termos de natureza, as Cascatas do Iguaçu e o Salar de Uyuni, e as minhas experiências de voluntariado.

Cascatas de Iguaçu

 

Salar de Uyuni

O que sente que mudou com esta experiência? 

Durante os 6 meses eu nunca pensei muito no que ia fazer a seguir, e isso nunca me preocupou. E quando eu regressei, claro que foi ótimo estar com os amigos e com a família, mas realmente senti uma nostalgia muito grande, um vazio, porque já estava habituada a todos os dias conhecer sítios e pessoas diferentes.

Mas, quando voltei, percebi que não queria voltar à engenharia porque já estava farta de cálculos. Queria apostar numa nova área, mas não tinha grandes ideias. Como sempre gostei de viagens, deu-me para ir ver as ofertas da Escola de Hotelaria do Porto, e descobri umas formações modelares de Turismo, Marketing,  Inglês, etc, e pensei: “Porque não?”. Comecei a frequentar essas formações, que tinham tudo a ver comigo, durante esse ano “letivo”. No fim, apesar de dificílimo, consegui arranjar um estágio não-remunerado no verão no Vila Galé, no Alentejo, durante 2 meses. Foi puxado e cansativo, mas foi uma experiência muito engraçada. Gostei muito! Depois voltei para o Porto e estive numa guest house, e estas duas experiências levaram-me a pensar que eu precisava de algum tipo de formação superior. Por isso, fui tirar uma Pós-Graduação em Hotelaria, em Lisboa. E a partir daí comecei a estar sempre ligada à área da Hotelaria e do Turismo.

A nível pessoal, de facto, comecei a ver as coisas de forma diferente. Acho que começas a ter outra perspetiva de tudo! Acima de tudo, acho que o conceito de felicidade alterou-se muito na minha cabeça, porque na Europa as pessoas acham que ser feliz é ter uma casa, um carro e estar bem financeiramente. E o facto de ter estado em países pobres, como o Peru ou a Bolívia, acho que fez com que começasse a dar mais valor às pequenas coisas, porque começas a perceber que pessoas podem ser felizes com menos. E isso fez com que começasse, também, a ser mais tolerante e a olhar para o mundo de outra forma. Tanto que, para além do que já te disse que andei a fazer, ainda me meti no mundo da publicidade, fiz figuração em telenovelas, trabalhei na Disneyland em Paris, e isso só mostra que o gap year fez com que eu ganhasse mais “estaleca” e começasse a pensar: “Porque é que eu não me desafio a fazer uma coisa diferente?”.

Sierra Chica, Buenos Aires

Alguma dica de viagem para os futuro gappers?

Acho que as pessoas devem ir sozinhas! Porque quando se vai com o namorado ou com amigos é diferente, porque a pessoa acaba por estar sempre nesse grupo e não se abre tanto à descoberta de novas pessoas.

Para além disso, a idade não deve ser, de todo, um impedimento! Como já disse, conheci pessoas mais velhas que eu, e com bem mais genica. Tudo depende do psicológico da pessoa, e acho que é uma experiência que toda a gente deve ter esta experiência pelo menos uma vez na vida!

O gap year, para além de não ser uma prática muito comum em Portugal, é normalmente associado aos jovens que estão a sair do secundário. O que acha dessa ideia? 

Super errado! Eu conheci mesmo muitas pessoas, e não só pessoas com 17 ou 20 e poucos anos. Conheci americanos, por exemplo, com os seus 50 e 60 anos e com um espírito super jovem, e gente mais velha e com muito mais genica do que gente de 20 e 30 anos.

Salar de Uyuni

E que conselho poderia dar àquelas pessoas mais “velhas”, que até têm vontade de ir e que não o fazem devido ao medo de largar o seu trabalho e a sua vida confortável?

Acho que o que custa é mesmo dar o primeiro passo porque se há vontade, não vão haver arrependimentos. E se houver, é bem melhor dizer “arrependi-me mas fiz” do que “se eu soubesse como era”. Claro que há algum risco envolvido, mas os benefícios que se podem ter são muito maiores do que qualquer risco. Aconselho, mas mesmo vivamente!

Em três palavras, como resume esta experiência?

Desafio, aventura e entusiasmo.

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Carolina Pereira

Natural do Porto, e orgulhosa portuense, é estudante de Ciências da Comunicação na Universidade do Minho. O seu espírito de contradição acompanha-a desde pequenina, não fosse ela uma sportinguista com pronúncia do norte. Adora música, cinema e fotografia, e um dos seus sonhos é o de um dia vir a fazer um Intrarail em Itália. Com uma grande vontade de marcar a diferença, decidiu abraçar este projeto porque acredita que um dia a experiência do Gap Year será uma opção a considerar por parte de todos os jovens portugueses.

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