Erasmus: viver no Rio de Janeiro

A Rita Pereira tem 22 anos e está prestes a concluir o mestrado em Comunicação Organizacional. 
Licenciou-me em Ciências da Comunicação e vive em Lisboa há 5 anos. Durante este tempo, teve também a oportunidade de passar 5 meses (de Agosto de 2016 a Janeiro de 2017) no Rio de Janeiro e, por isso, fomos fazer-lhe umas perguntinhas sobre esta experiência.
Se estás a pensar fazer um intercâmbio no Rio de Janeiro ou uma grande viagem pelo Brasil está na tua bucket list, não deixes de ler!
  • Onde estás a fazer Erasmus e porque é que escolheste esse sítio?

Estudar no estrangeiro sempre foi algo que desejei. Quando estava a tirar a licenciatura, não me identifiquei com nenhum dos destinos oferecidos pelo que deixei passar a oportunidade. Assim que entrei para mestrado, soube que tinha de arriscar e procurar ter esta experiência. Nunca tinha pensado em ir para fora da Europa (muito menos para o Rio de Janeiro!), tanto que quando preenchi a candidatura esta não incluía o destino onde acabei por ficar. Contudo, no último dia para envio de candidaturas alterei a ordem de preferências – colocando o Rio de Janeiro em primeiro lugar.  Na altura lembro-me de pensar: “arrisca, tentar não custa!” ou “este sim seria um destino diferente e desafiante”; e no próprio dia consultei as informações referentes à faculdade. Foi uma decisão totalmente espontânea e impulsiva, visto que nunca tinha discutido sequer esta hipótese com os meus pais ou amigos. Acho que decidi escolher o Rio de Janeiro principalmente pelo desafio que representava. Ia estar noutro continente, num país que chamamos de “irmão” mas que é tão diferente do nosso e numa cidade com o ritmo e vida completamente apaixonantes.

Vista da cidade do Pão-de-Açúcar
  • Quais foram as tuas grandes dificuldades antes da partida?

Ao saber o resultado da candidatura, iniciou-se todo o processo e preparação da minha ida para o Rio. Este incluiu a obtenção dum passaporte e visto – algo que implicou algumas visitas ao consulado do Brasil; a consulta do viajante e a vacinação recomendada. Não posso dizer que tenham sido dificuldade pré-partida mas todas estes procedimentos são desnecessários para muitos países.
A grande dificuldade foi encontrar alojamento, uma vez que a data de chegada coincidia com o período dos Jogos Olímpicos 2016. Parecia impossível encontrar uma casa em condições e num local bem referenciado. O facto de eu ou as minhas colegas não conhecermos a cidade dificultava a procura de casa, pois receávamos escolher uma zona menos segura ou algo do género.
  • Como foi a tua experiência com o alojamento?

Durante semanas eu e as colegas com quem fui para o Rio procurámos casa através de websites ou páginas/grupos do facebook. Muitas vezes não obtivemos respostas, a casa já não estava disponível ou o preço/localização não nos agradavam. Passaram-se algumas semanas e com muita sorte, uma das minhas colegas de casa recorreu a um contacto que tinha no Rio. Este contacto conhecia um casal que poderia estar interessado em alugar um dos seus apartamentos. Conseguimos estabelecer um contrato com o casal e ficou então acordado que a casa estaria ao nosso dispor de Agosto a Dezembro de 2016. O preço não foi o mais simpático, mas compensou pela sua localização e todos os serviços que pudemos usufruir (como a limpeza semanal do apartamento). Vivemos no bairro do Leblon a duas ruas da praia, a 20 minutos a pé da faculdade, com todos os serviços e comércio à nossa volta. Acho que melhor teria sido impossível! 
  • Como comparas o ensino daí com o português?

Relativamente ao sistema de ensino, eu tive a possibilidade de frequentar duas aulas de mestrado/doutoramento. A dificuldade e método de avaliação eram semelhantes aos de Portugal. A principal diferença foi mesmo na forma como as aulas eram dadas. Professores e alunos tratam-se por “tu” ou pelo nome e a disposição da sala é também distinta da habitual. Formávamos um círculo, de modo a facilitar a comunicação, e todas as participações não só eram  bem-vindas como incentivadas. 
Vista da cidade no final da trilha do Morro dos Dois Irmãos
  • Qual a melhor maneira de te deslocares dentro da cidade?

Antes de ir para o Rio, li em diversos blogs que os transportes públicos não funcionavam muito bem. Da experiência que tive, tanto o metro como os autocarros (ou melhor unibus),pareceram-me funcionar bem. Porém, a maior parte das vezes durante o dia deslocava-me a pé. É muito comum ver as pessoas de bicicleta ou a caminharem na cidade, pelo que a utilização dos carros não é uma prática assim tão regular (especialmente nos jovens).  A Uber revelou-se uma aplicação muito útil durante a minha estadia no Rio. Os táxis não só são mais caros, como também têm fama de serem menos seguros. Por este motivo, quando saiamos à noite ou algo do género, recorríamos à Uber.
  • Como geriste o teu dinheiro enquanto lá estiveste?

O Rio de Janeiro é considerado uma das cidades mais caras do Brasil, pelo que tentei sempre ser comedida mas sem deixar de fazer o essencial. O custo de vida, no geral, é semelhante ao de Lisboa
Optei por almoçar em casa a maior parte das vezes ou levar algo para comer na praia.
Quando tal não acontecia, nas ruas da cidade a oferta de restaurantes e lanchonetes (espaços onde se vendem essencialmente pastéis e outros fritos, sucos e cerveja) é muito vasta, sendo que as lanchonetes eram uma opção bastante em conta (apesar de não serem a opção mais saudável!). Na praia, a venda de comida e bebida também é constante. Durante o dia na praia vende-se: açaí, queijo coalho assado, calabresa e salsicha assada, biscoitos globo, batatas fritas, camarão, empadas, sanduíches e outros. 
Era comum fazer pelo menos uma refeição fora de casa uma vez por semana. A gastronomia do Brasil é muito rica, pelo que não deixei de visitar certos restaurantes!
No entanto, preferi ir poupando algum dinheiro para fazer certos programas ou para as viagens que fiz pelo estado do Rio.
Praia deserta algures em Paraty
  • Muitas pessoas aproveitam o Erasmus para conhecerem outros sítios. Por onde viajaste enquanto aí estiveste?

Além de ter estado na cidade do Rio de Janeiro, que é a capital de Estado, visitei também outras cidades no mesmo estado. Fui a Petropólis, Teresópolis, Búzios, Angra dos Reis, Paraty, Arraial do Cabo e Cabo Frio. 
Petropólis era a cidade imperial, onde os monarcas portugueses se “refugiavam” do calor do Rio de Janeiro – por ser uma região serrana, o clima é mais ameno. A arquitectura da cidade e os seus monumentos mais emblemáticos recordaram-me de Portugal. Perto desta, é a cidade de Teresópolis, que é conhecida pelas trilhas no Parque Nacional da Serra dos Orgãos. 
Búzios, Arraial do Cabo e Cabo Frio são localidades a norte do Rio de Janeiro; Paraty e Angra dos Reis são a sul da capital e todas estas zonas são conhecidas pelas suas praias paradisíacas e turismo. Estive em ilhas e praias desertas lindas! 
Pôr do sol no Arpoador
  • Quais foram as tuas maiores dificuldades?

Para mim a adaptação ao Rio foi relativamente fácil. Confesso que atendendo a tudo o que se ouve e lê nos media, pensei que fosse mais “selvagem” ou inseguro. Não é que não o seja, a verdade é que não me vestia ou agia como em Portugal. Também vi e soube de situações que dificilmente aconteceriam em Lisboa. Porém, acredito que basta ter bom senso e atenção. Pensar nos bens que transportamos, atentar ao sítio onde estamos e, claro, adoptar a postura e comportamento adequados. Há um certo choque cultural, mas julgo que é relativamente fácil moldarmo-nos ao Rio de Janeiro.
Tive alguns problemas quanto à escolha das disciplinas, visto que houve uma falha de comunicação entre a faculdade de Lisboa e a do Rio. Já quando estava no Rio, descobri que estava matriculada em licenciatura – situação que teve de ser tratada com alguma urgência pois estava a perder as aulas que importavam. 
  • Como caracterizas as pessoas e a cidade?

Levo do Rio muito boas recordações. As pessoas, a maneira como se vive a vida, faz-nos perceber que o que importa mesmo é ser feliz e aproveitar os momentos. Fui recebida com sorrisos e gentileza por toda a parte, vi pessoas a serem felizes com pouco e a celebrarem o pôr e nascer do sol, como se este fosse o último. Foi muito enriquecedor, vive-se uma alegria diferente. A cidade é cheia de vida, de cores e de natureza. O mar rodeia o Rio de Janeiro, existem espaços verdes por toda a cidade e os morros são repletos de florestação onde existem cachoeiras e trilhas por explorar.
  • O que ver/fazer no Rio fora do circuito turístico?

Eu destacaria as trilhas. São caminhadas ao ar livre, podem fazer-se um pouco por toda a cidade e levam-nos a locais maravilhosos. A maior parte das trilhas exige algum esforço físico (ao qual se acrescenta o calor), não é boa ideia fazê-las sozinho (nem sem “estudar” o local previamente) mas todas as que fiz compensaram o esforço! Permitem ver certas paisagens que de outra forma seria impossível. É também comum encontrar cachoeiras (quedas-de-água) nestes caminhos.  
Além disso, há feiras de artesanato, de roupa e tudo mais em diferentes pontos da cidade.
 
  • Como é a vida nocturna?

O Rio de Janeiro oferece um leque muito vasto de locais para sair à noite – assim como preços! Desde discotecas como o Palaphita ou o Rio Scenarium; a praças e espaços abertos como o BG, a Lapa ou a Pedra do Sal. Estes espaços ao ar livre vendem caipirinhas para todos os gostos (maracujá, lima, abacaxi, kiwi e outras frutas tropicais) a preços bem simpáticos. A música está sempre presente, ouvindo-se especialmente funk ou samba. Aos fins-de-semana existem festas um pouco por toda a cidade – em toda a zona Sul, na Barra da Tijuca, no centro, é só escolher!
  • Conta-nos a tua melhor história maluca/divertida/espontânea que caracterize o espírito do Erasmus?

Acho que a história mais louca que tenho para contar é sobre a ida a uma festa na favela do Vidigal. Não era a primeira vez que eu e o meu grupo de amigos íamos a esta festa, porém nesta noite vivemos uma pequena aventura.  
A organização da festa assegurava o transporte (numa carrinha pão-de-forma com mais de 20 anos a cair aos bocados) dos interessados desde Leblon até ao local exacto da festa a partir das 23 horas. Contudo, eu e três amigos achamos por bem ir até outro sítio tomar uma bebida antes de irmos para a festa. O tempo passou e eram 3 horas da manhã quando decidimos ir até ao destino – as carrinhas já não estavam a fazer recolha de passageiros. Perante esta situação, tentámos chamar um Uber o que não estava a resultar, pois os planos de dados móveis de todos os nossos telemóveis estavam com problemas. Entrámos num bar/restaurante que por acaso era de um jovem português. Este deixou-nos contactar um Uber através do seu telemóvel. Assim que entrámos no Uber, o motorista diz-nos que não entra na favela. Um choradinho , alguma insistência e conseguimos convencer o motorista a deixar-nos no Vidigal. Parecia que finalmente íamos chegar onde queríamos! Só que após subirmos um pouca da favela, o motorista diz-nos: “Gente não subo mais, daqui não passo! Ou saem neste local ou descem comigo de volta”. Determinados a chegar à festa, decidimos seguir o resto do caminho a pé. Sem conhecermos a favela. Às 3 e tal da manhã. Sem telemóveis contactáveis ou internet, caminhámos pelo Vidigal. A história acaba bem, pois encontramos a festa sem nenhum incidente. Ainda pudemos aproveita-la e ver o nascer do sol daquele local!
Nascer do sol na festa do Vidigal
  • Baseado na tua experiência, recomendarias esta cidade para fazer Erasmus?

Claro! Para quem gosta de praia, de calor e quer ter uma experiência divertida e diferente este é um bom destino! Foram 5 meses de aventura. Realço que ainda existem muitas diferenças entre uma cidade portuguesa ou o Rio, mas nada que tenha considerado inaceitável. Acho apenas que é importante ter noção disso e tomar sempre os devidos cuidados.

 

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