Erasmus: viver em Barcelona

A Clara Mendes tem 21 anos e é licenciada em Ciências da Comunicação, com especialização em Cinema e Televisão, na FCSH. Fez Erasmus em Barcelona, no primeiro semestre do último ano do curso. Diz que tem falta de sentido de orientação na rua e na vida em geral, mas é uma pessoa cheia de vontade de aprender sobre tudo e todos. Trabalha na área da cultura e não gosta de estar parada muito tempo no mesmo sítio.


  • Onde estás a fazer Erasmus e porque é que escolheste esse sítio?

Fiz Erasmus em Barcelona. Sempre achei que queria ir para mais longe e aprender uma língua diferente. Mas, quando a altura chegou, percebi que não tinha tempo de estudar língua nenhuma e que por isso um sítio onde se falasse Espanhol era uma opção mais segura. A cidade de Barcelona também sempre me fascinou, toda a gente que lá tinha feito Erasmus só dizia maravilhas e isso deixou-me curiosa. Por último, a universidade estava muito bem posicionada nos rakings e tinha as cadeiras que mais me interessavam, dentro das opções disponíveis para o meu curso.
Avenida Diagonal – à saída da minha casa
 
  • Quais foram as tuas grandes dificuldades antes da partida?

Preencher o Learning Agreement é sempre uma aventura. No meu caso foi um bocadinho mais complicado porque a universidade em Barcelona tinha feito mudanças nos programas das disciplinas há pouco tempo e então de repente as coisas no site mudaram todas e os meus planos tiveram que sofrer algumas alterações, mas não foi grave. 

Fora isso, o problema foi mesmo encontrar alojamento. Não sabia onde procurar nem no que confiar e acabou por correr mal. 

 
  • Como foi a tua experiência com o alojamento? 

O alojamento foi o aspecto menos positivo do meu Erasmus. Fui para Barcelona com uma amiga minha e alugámos casa pela Internet antes de ir, através da empresa TLS Group. Aquilo que nos foi dito ser um apartamento para seis, era na verdade um apartamento duplo, com 12 pessoas (e, às vezes, mais!). A casa era pequena para tanta gente e só tínhamos uma cozinha (e meia, vá).  Acabámos por fazer imensos amigos por vivermos numa casa com tanta gente de tantas partes do mundo mas a uma certa altura já nem sabíamos bem com quem vivíamos porque havia sempre pessoas a ir e vir. Foi uma confusão, por isso recomendo mesmo que só aluguem casa depois de lá estarem, não só pelas condições em si mas também porque é sempre vantajoso conhecer primeiro as pessoas com quem vais viver. Fizemos as contas e chegámos à conclusão que, ao todo, vivemos com umas 18 pessoas diferentes, por isso apanhámos de tudo um pouco.

Quanto à localização, era excelente mas o preço não justificava.

Muntaner 233, casa
 
  • Como comparas o ensino daí com o português?

Comparativamente ao que é o ensino no meu curso, em geral preferi o ensino de Barcelona. Primeiro, os conteúdos eram muito mais actuais. Depois, todas as cadeiras tinham uma vertente prática, mesmo quando tratavam mais de temas teóricos. Senti uma proximidade maior com os professores, a começar pelo facto de lá se tratar toda a gente por tu e pelo nome próprio. Havia talvez uma carga de trabalho maior, ou pelo menos trabalhos mais regulares, não havia uma semana em que eu não tivesse nada para entregar. Mas também sentia um maior apoio, na medida em que tínhamos reuniões individuais com os professores para que eles acompanhassem o progresso do trabalho e nos dessem orientações específicas, coisa que cá só me aconteceu uma vez ao longo da licenciatura inteira.

Achei mais trabalhoso mas não necessariamente mais difícil, e sem dúvida muito mais dinâmico. 

A maior dificuldade foi a disciplina que tive em catalão. Afinal não é uma língua nada difícil de entender mas no primeiro mês parecia um bicho de sete cabeças.

  • Qual a melhor maneira de te deslocares dentro da cidade?

Para mim foram os autocarros porque a paragem de metro não era assim tão próxima de minha casa. Mas vivia numa zona bastante central que tinha autocarros para todo o lado. O metro também funciona bem e se puderem andar a pé ou de bicicleta também se faz bem. Uma coisa importante é que os autocarros noturnos são incríveis, super limpos e pontuais. Durante o erasmus inteiro só apanhei táxi uma vez, e foi porque queríamos ir ao McDonald’s e só o McDrive é que estava aberto (péssima decisão).

Ruas de Barcelona ? Não sei?
 
  • Como geriste o teu dinheiro enquanto lá estiveste? 

Essa era a parte difícil! Tinha sempre vontade de ir a todo o lado e fazer tudo, mas o dinheiro não estica. A melhor solução era comer em casa o máximo de vezes possível, ou, se fossemos passear, levar comida já feita. Almoçar na universidade era caro comparativamente com os preços de cá, por isso também levava sempre almoço.

 
  • Muitas pessoas aproveitam o Erasmus para conhecerem outros sítios. Por onde viajaste enquanto aí estiveste? 

 Por acaso gostava de ter viajado mais, mas na altura havia sempre tanta coisa a acontecer que se tornava difícil planear muito (isso e fazer com que o dinheiro chegasse). Mas viajei por Espanha, fui a Madrid, a Granada e a Alicante. Mais perto de Barcelona fui a Tarragona, Sitges, Girona e Figuers. Recomendo especialmente estes três últimos, há um museu incrível do Dalí em Figuers. No fim do Erasmus arranjei uma viagem muito barata para Berlim e a partir daí fui também a Varsóvia e a Cracóvia. Tentem viajar de autocarro, poupa-se imenso dinheiro e podem aproveitar para dormir!
Cracóvia
 
  • Quais têm sido as tuas maiores dificuldades aí? 

As maiores dificuldades foram mesmo relativas ao alojamento porque tivemos imensos problemas e a empresa não foi nada competente. Fora isso, houve também algumas complicações de burocracia mas na verdade estavam mais relacionadas com a universidade de cá. Outra dificuldade foi mesmo a quantidade de vezes que perdi/me roubaram a carteira…

 
  • Como caracterizas as pessoas e a cidade?

A cidade é incrível. Há sempre coisas a acontecer e sempre novos sítios para descobrir. O clima é óptimo (só choveu duas vezes e fui no primeiro semestre) e dá vontade de andar sempre a passear. Tem uma grande mistura de ambientes e de pessoas, de tradição com modernidade. O Museu de Arte Contemporânea de Barcelona fica no meio de um dos bairros mais antigos e é onde se concentra a malta toda do skate, acho que isto descreve bastante bem o ambiente geral.
arte por todo o lado, recantos com prédios antigos lindos, bicicletas, sol, praças…

Também fiquei com uma óptima impressão das pessoas. Em geral são pessoas simpáticas, conversadoras e com a mente aberta. Tive que fazer um documentário pequeno para uma cadeira da universidade e focámo-nos nos mercados dos vários bairros de Barcelona. Entrevistámos várias das pessoas que lá trabalhavam e fomos sempre recebidas com muita disponibilidade e simpatia. Foi uma experiência incrível e ficámos a perceber muito melhor a cidade e a vida de Barcelona ao conhecermos pessoas que sempre tinham vivido e trabalhado ali.

Museu Nacional de Arte da Catalunha
 
Mercado de Sant Andréu
  • O que ver/fazer em Barcelona fora do circuito turístico?

Passear pelos bairros que não são tão centrais, como por exemplo o Bairro de Grácia. Tem imensas praças e ruas giras por onde vale a pena passar e é um daqueles sítios onde existe uma forte tradição de bairro e simultaneamente uma grande vida estudantil. À noite, principalmente ao fim de semana, junta-se muita gente na Plaza del Sol. A praça enche-se de pessoas sentadas no chão a beber cerveja e a tocar guitarra, é um dos meus sítios preferidos de Barcelona.
Os Bunkers já são relativamente turísticos mas muita gente não vai porque não percebe se vale a pena subir aquilo tudo. A resposta é simples: vale! É a melhor vista de Barcelona, ao amanhecer, ao pôr-do-sol, à hora de almoço, à noite…Levem snacks e passem lá umas horas com amigos!

Vejam também se conseguem espreitar a Biblioteca Nacional da Catalunha e a Biblioteca da Universidade Pompeu Fabra, são ambas imponentes e muito bonitas.

Vista dos Bunkers à noite
 
  • Como é a vida nocturna?

Há de tudo e para todos os gostos. Nos bairros centrais há imensos bares e pubs muito giros onde a bebida é barata e o ambiente fixe.
Ir ao Razzmatazz e ao Apolo (às Nasty Mondays) é fundamental mesmo para quem não gosta de discotecas. A música normalmente é muito boa em ambos e também costumam ter bons concertos.

Na zona de Barceloneta, ou seja, na praia, há também imensas discotecas, com um estilo mais comercial mas ainda assim muito diferentes entre elas, têm muito por onde escolher. Normalmente a entrada é grátis até tarde e é lá que são a maioria das festas de Erasmus. Eu adorava o facto de serem literalmente na praia. 

 
  • E para todos os estudantes que nos lêem, tens alguma sugestão de coisas/sítios baratos ou até gratuitos?

Há um bar chamado Gracia Latina, super pequenino, onde podem ver espectáculos de flamenco (e de muitas outras coisas), vale a pena e basta pedirem uma cerveja ou um café e podem lá ficar a noite toda a assistir.
Se tiverem saudades de ver filmes na sua língua original e com legendas, vão ao Cinema Verdi. Fica numa rua bonita e às segundas-feiras é mais barato.
Tenham em atenção que também há dias grátis para os museus todos.
Nas Festas de La Mercè, no fim de setembro, a cidade enche-se de eventos, espectáculos e coisas gratuitas. Não percam os Correfocs, que basicamente são pessoas vestidas de diabos a dançarem e a acenderem fogo de artifício no meio da multidão. Parece assustador mas é seguro e muito incrível.
Foi também no encerramento da Mercè que vi o melhor fogo de artifício de sempre. 
A maioria dos outros sítios que referi antes também são baratos ou gratuitos.
Correfocs, nas Festas da Mercè
 
  • Conta-nos a tua melhor história maluca/divertida/espontânea que caracterize o espírito do Erasmus?


São tantas! Acho que uma das melhores noites que tive foi quando nos juntámos a um evento de Facebook que tinha o propósito de celebrar a lua cheia e o eclipse lunar que iam acontecer. Não sabíamos ao que íamos, mas acabámos na praia à volta de fogueiras enormes, principalmente com catalães mas também com gente de todo o mundo. Lembro-me que estavam a tocar The Black Keys com harmónica e guitarra, foi lindo. Estava um frio de rachar porque era outubro e mesmo assim acabámos por ir tomar banho ao mar. A água estava óptima e depois secámo-nos à fogueira enquanto bebíamos chá que alguém tinha levado. Claro que fiquei constipada na mesma.
Realmente espontânea foi a nossa compra da viagem para Berlim. A minha colega de casa viu uma promoção às 3h da manhã e foi acordar-me para comprarmos o bilhete.

Outra história que me lembro passou-se precisamente em Berlim e não em Barcelona, mas acho que descreve bastante bem o espírito na mesma. Já tinha ouvido maravilhas da noite de lá e queria imenso ir sair, mas à última da hora a minha amiga não pode ir comigo. Então fui sozinha, meti-me num taxi e foi o taxista que me ajudou a escolher o destino. Mas quando fui levantar dinheiro o meu cartão de multibanco deixou de dar, não tinha dinheiro, nem bateria no telemóvel e nem sequer sabia onde ficava o Hostel. Diverti-me imenso na mesma e quando quis vir embora acabei por me meter num taxi com uma alemã que passou por mim na rua, tive que andar ainda bastante e só consegui encontrar o hostel totalmente por acaso, mas adorei.

Castelo de Montjuïc
 
  • Baseado na tua experiência, recomendarias esta cidade para fazer Erasmus?

Recomendo muito mesmo. Tenham só em atenção a casa que escolhem! Ah, e não percam o passe, que eu perdi-o duas vezes e saiu-me caro.
Montjuïc
Parque de diversões de Tibidabo

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