À Descoberta de Israel: 7º e 8º Dias

O Miguel decidiu que este verão seria dedicado à aventura e, por isso, anda a viajar por Israel. Passou por Tel Aviv, Jerusalém, Mar Negro, Haifa e Mar da Galileia e, para te contar tudo sobre estes destinos talvez menos visitados, vai fazer um “takeover” aqui no blog da Gap Year Portugal onde vai relatar as suas impressões neste país tão peculiar.

Dia 7

Hoje, mesmo depois do ataque de ontem, rumei à Palestina.

Comecei por Belém, cidade onde nasceu Jesus. Por incrível que pareça, 40 minutos de autocarro são necessários para percorrer uma distância de 10km entre Jerusalém e Belém, facto explicável por ser a diferença entre Israel propriamente dita e a Palestina.

Belém é uma cidade ainda com algum turismo, maioritariamente católico pela Igreja da Natividade, e alguns curiosos como eu que se interessam mais pelo hotel (hotel, museu e galeria, na verdade. Bastante interessante, há fotos) do Banksy, um artista de rua intervencionista de identidade secreta, e os seus desenhos. Um muro israelita (o Muro mais caro e controverso da história – custou mais de 1 bilião de dólares e “separa” Israel dos territórios palestinianos – digo “separa” porque uns chamam separação e outros apartheid, dependendo do lado da fronteira em que estamos – marca forte presença em Belém e vários artistas aproveitaram a ocasião para se expressar de diferentes formas, como poderão ver nas fotos.

De tarde apanhei um shuttle (não há autocarros, só carrinhas partilhadas de 9 lugares) para Hebron, uma das principais cidades palestinas do West Bank, através da estrada 60, conhecida por ser uma estrada da morte (há mesmo um aviso a dizer que os israelitas que a seguirem correm perigo de vida. Fun Fact: as rotas palestinianas não aparecem no Google Maps). Aqui tudo é diferente, mais um mundo à parte para descobrir em Israel. Para começar, a proporção de turistas para palestinianos era de 1:1000, no mínimo, e não foi fácil desenrascar-me pela (óbvia) barreira linguística. As pessoas em Hebron vivem num mundo à parte, não falam inglês nem têm contacto com o exterior.

Hebron é a única cidade palestiniana onde muçulmanos (palestinianos) e judeus (israelitas) coexistem, embora seja uma cidade sob controlo palestiniano (área A, acordo de Oslo), daí a necessidade de ter um grande “settlement” judeu a ser guardado por checkpoints israelitas a toda a volta.

A convivência entre os dois povos não é fácil e isso verifica-se pela presença de redes ao longo dos bairros que separam as casas judias, no topo dos edifícios, das casas dos muçulmanos à face da rua. Verão fotos das redes e das pedras e lixo que os judeus teoricamente lançam para as ruas muçulmanas e diz-se que nos telhados dos edifícios há snipers – não vi nenhum.

O que vi foram muitas ruínas, marcas claras da guerra acesa que se trava aqui, sendo que é uma zona de batalha onde frequentemente se confrontam os povos e respectivos exércitos. O conflito aqui é bem real e sente-se bem a tensão da vizinhança.

Porém, recentemente – na semana passada, aliás – o património de Hebron foi reconhecido pela UNESCO (os israelitas não gostaram e até reduziram o fundo atribuído às Nações Unidas), visto que aqui jaz Abraham (ou Ibrahimi, em árabe). Importante notar que a mesquita de Ibrahimi, como é chamada pelos locais/muçulmanos (ou Cova dos Patriarcas para os judeus), serve de local de culto tanto para judeus e cristãos, como também para muçulmanos, visto que o mesmo personagem é louvado pelas três religiões, aparecendo no Torah, na Bíblia e no Quran, respetivamente. Esta sobreposição de personagens e lugares sagrados entre as três religiões é, para minha surpresa na altura, algo frequente e daí as disputas acesas pelos territórios.

O povo é afável, mas como já disse a comunicação não é fácil. Os miúdos olhavam para mim com os olhos arregalados de espanto, compreensível por ser dos pouquíssimos turistas que vi, apesar de a minha querida tia Rita me dizer muitas vezes que pareço um árabe.

Estou a voltar para Belém, onde terei de fazer “escala” para ir para Jerusalém, visto que não há transporte público direto (confronto Israeli-palestiniano; tenho de passar pelo famoso checkpoint 300 a pé para o outro lado da fronteira). Em breve partirei com o David para Tel Aviv onde vamos festejar o sábado à noite, sendo que o Shabbat já acabou quando o sol se pôs (celebra-se do pôr do sol de sexta ao de sábado).

Fico profundamente triste por partir de Jerusalém, mas bom, nada é eterno. Voltarei certamente àquela que foi a minha cidade favorita até hoje. A viajem esta a acabar e já só penso em voltar, fica sempre muito para ver por mais que aproveitemos o tempo.

Dia 8

Nos últimos dias, por incrível que pareça, não me apressei a ir atrás dos destinos que não visitei (tampouco estava à espera de vê-los a todos numa semana – seriam necessários meses). Pelo contrário, relaxei e aproveitei ao máximo as conexões que estabeleci com as pessoas, locais e não locais, com quem me encontrei. Despedi-me do Mostafa e da malta do hostel em que fiquei 5 noites em Jerusalém e rumei a Tel Aviv onde passei a noite, o dia seguinte e a noite desse dia também. Dia de praia, relaxado, sem stress – boas conversas, bons insights e boas aprendizagens.

Na verdade, num país como Israel digo, sem dúvidas, que a viagem se dá mais dentro de nós do que propriamente naquilo que nos rodeia. É impossível compreender o lugar ultra hético que é Israel sem a presença constante da metafísica para além daquilo que os nossos olhos conseguem observar, porque Israel e metafísica são indissociáveis. Assim como os valores, a religião, a história; o contexto sócio-cultural como um todo representa para este país uma série de variáveis que acabam por constituir uma realidade que não consigo identificar em qualquer outro sítio que já tenha estado ou em qualquer outra viagem que tenha feito. E o que atribui esse valor intangível à experiência são as pessoas, decididamente, pelo que tenho de estar infindavelmente agradecido ao povo israelita pela experiência extraordinária que me proporcionaram, porque era exatamente o que esperava – afinal de contas, falar com um soldado armado de 18 anos num checkpoint é muito mais nutritivo para o cérebro que qualquer paisagem ou monumento.

É agora tempo de descansar, processar as dezenas de gigabytes de informação, ideologias e perspectivas que se trocaram na última semana e organizá-las para que possa partilhá-las convosco (agora que estou num país mais democrático e já saí do espaço aéreo, ainda que tenha tido nível 5/6 de ameaça na polícia do aeroporto, mas isso é outra história!).

Fico muito satisfeito por todo o interesse que foram demonstrando nos meus humildes textos ao longo da viagem, é uma honra para mim poder partilhar esta experiência.

Hoje (dia 17) voei para Bucareste, onde passei o dia e amanhã voltarei para casa. Acho que é tudo.

O final de um dos mais bonitos capítulos da minha vida, mas não o final da história. It’s a wrap!

Miguel Sampaio Peliteiro

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