Coreia do Norte: viagem ao país mais isolado da Terra

É a incógnita da Terra. O país em que ninguém quer viver e que muitos desejam espreitar. É outro mundo, dentro daquele que tanto apreciamos. Na Coreia do Norte “o doce sabor da liberdade que, tantas vezes nos esquecemos de salvaguardar e defender, renascem em todos nós com enorme força”. Rui Muñoz esqueceu preconceitos e decidiu pisar o pedaço de terra recriminado “aos olhos de meio mundo”.

Como é que se prepara uma viagem ao país mais fechado do mundo?

Uma viagem à Coreia do Norte, o país mais fechado do mundo, é muito fácil de preparar para um viajante, qualquer que sejam as suas motivações para a viagem. Porque essa viagem não se prepara, tem que ser comprada, num pacote de ‘’tudo incluído’’, de acordo com as normas e autorizações de entrada vigentes. Todas as agradáveis tarefas que levam um viajante a preparar a viagem, não se cumprem nem são necessárias, na Coreia do Norte. Porque as viagens em autonomia são proibidas, todo e qualquer intuito de improvisação é completamente impossível. Mas estas limitações decorrentes do regime, não implicam que a viagem tenha uma carga negativa, antes pelo contrário, pois cabe a cada viajante, a arte de saber conquistar os guias. O que não é difícil, até talvez seja fácil, porque a vontade de eles conhecerem e saberem, é igual à nossa.

É nessa partilha de vidas e experiências, que se transforma uma viagem à Coreia do Norte, (com um regime totalitário e claustrofóbico que todos condenamos), numa experiência de vida. Os valores sagrados da democracia e da liberdade de expressão e opinião, o doce sabor da liberdade que, tantas vezes nos esquecemos de salvaguardar e defender no quotidiano, renascem em todos nós com enorme força, numa viagem à Coreia do Norte.

Se eles tiverem confiança em nós, se se estabelecer uma relação de amizade e cumplicidade, muito será permitido, desde que nunca em circunstância nenhuma, ousemos sair, ou fotografar, sem a companhia e o parecer favorável do guia. Mas tudo isso é fácil de conseguir, porque eles são ainda mais interessados do que nós, em partilhar e questionar.

Que expectativas tinha antes de viajar?

Tinha todas as expectativas que uma viagem a um mundo fechado e claustrofóbico, num país de ficção, despertam. Uma enorme curiosidade de ver e sentir, aquela realidade diferente e de, tentar ver e sentir, mais além do que uma viagem planeada e organizada permite. Senti pela primeira vez na vida, aquele nervoso da expectativa, da descoberta de um mundo diferente, enclausurado.

Tinha apenas 2 certezas quando cheguei. A primeira, a necessidade de um bom relacionamento com os guias, o que acabou por ser muito fácil, por eles serem extremamente afectuosos e simpáticos, com grande vontade de comunicar.

A segunda, foi a certeza de que a melhor forma de combater o regime, é visitar o país, pois por cada estrangeiro que lá entre, acontece sempre uma troca de ideias, nos dois sentidos. E essas trocas de vivências são fundamentais, para eles e para nós.

Foi alvo de algum tipo de revista aos seus bens pessoais quando chegou ao aeroporto?

À chegada ao aeroporto internacional de Pyongyang, todos os passageiros com telemóveis, computadores, ‘’tablets e iphones’’, são chamados a um compartimento, onde os aparelhos são ligados e verificados, mas num ambiente calmo e nunca intimidatório. Perguntam se transportamos filmes e, algumas vezes verificam se o fazemos. Questionam também acerca dos livros que transportamos, mas sem criarem situações stressantes. Tudo acontece com grande naturalidade e, o estrangeiro chegado à Coreia do Norte, nunca se sente minimamente incomodado. No aeroporto de Pyongyang, os militares recebem-nos e tratam-nos como se fossemos convidados oficiais do regime. Logo após a saída da alfândega, os nossos guias, identificaram-nos de imediato. Tudo é eficiente na Coreia do Norte. Todos os formulários, entregues no voo desde Pequim, foram verificados por militares na alfândega do aeroporto e colocaram algumas questões, sempre de uma forma educada e num perfeito Inglês.

À chegada ao hotel, todos os passaportes e vistos, foram recolhidos pelos guias oficias. Só foram devolvidos, no último dia, no momento de embarque no comboio para a China.

Na fronteira de saída, depois de uma viagem de comboio desde Pyongyang, os passaportes são recolhidos e devolvidos passadas 2 horas, todas as fotografias e filmes em telemóveis e ‘’iphones’’ são verificados, mas de uma forma rápida. Algumas bagagens são abertas aleatoriamente. Durante esse período de tempo, o comboio permanece estacionado.

O que é que não se pode levar para a Coreia?

Nenhum visitante pode entrar na Coreia do Norte, com livros que possam perturbar a doutrina e propaganda do regime, tais como livros políticos, económicos, sociais e outros, que possam negar as verdades absolutas e irrefutáveis, os dogmas, do regime. Também não podem entrar filmes. As lentes das máquinas fotográficas não podem ultrapassar os 150mm.

Que diferenças culturais se encontra a olho nú?

Tudo na Coreia do Norte, é completamente diferente da nossa realidade e das anteriores experiências de viagem. Vamos preparados para uma sociedade de características Asiáticas, que foi totalmente destruída na guerra da Coreia de 1950 a 1953. A realidade é incomparável com qualquer outro país no mundo, porque se trata de um regime totalitário, claustrofóbico e encerrado ao mundo, em que toda a realidade é construída com base numa ideologia em torno do líder e da sua vontade suprema. Senti a Coreia do Norte, como um país de ficção, militarizado, cinzento e onde o indivíduo se anulou em benefício do colectivo. Nenhum de nós consegue entender, aquele mundo em que tudo nos choca e cujo regime rejeitamos totalmente, mas sentimo-nos de imediato cativados pela população, mesmo sem conseguir com ela contactar. Pode parecer absurdo, mas foi o que eu senti.

Como é que é o povo coreano?

O povo da Coreia do Norte é muito tímido, mas simpático e afectuoso, recebe-nos de braços abertos, apesar da barreira da língua e da total ausência de liberdade de circulação em autonomia, sentimo-nos sempre bem recebidos e acarinhados. Até pelos militares no paralelo 38, que se ofereceram para serem fotografados connosco. Em nenhum momento nos sentimos incomodados ou pressionados, sendo sempre tratados e recebidos, com afecto e simpatia.

Sentiu os efeitos da propaganda do regime?

A propaganda do regime é omnipresente e omnipotente, tudo é propaganda política do regime e das suas teorias ideológicas. O mais pequeno gesto, a mais simples conversa, são meras representações do regime. A arquitectura, o urbanismo, a estatuária, os espectáculos, até a música, são componentes essenciais e fundamentais do regime. Porque a população desconhece totalmente o que se passa no resto do mundo e toda a pouca informação que o regime fornece, é completamente manipulada, com a finalidade única de ter intuitos propagandísticos. Na Coreia do Norte, existe a mais perfeita e totalitária máquina estatal de propaganda. O colectivo do regime e da população, confundem-se como um todo. Nada existe fora do regime e dos líderes. A propaganda é total e avassaladora

Qual a maior dificuldade que sentiu durante os dias que passou pela Coreia do Norte?

A única dificuldade que senti, foi a total falta de autonomia, de poder inventar cada um dos dias, à medida do apetite de cada momento, de ser indisciplinado e livre nos percursos pelo país. Essa inibição de liberdade aplica-se também à fotografia, é necessário perguntar se podemos fotografar e, muitas vezes as imagens são verificadas, podendo ser apagadas, se não cumprirem os cânones autorizados pelo regime. Mas quero esclarecer que ao decidir fazer a viagem à Coreia do Norte, já tinha perfeita consciência de todas as limitações impostas e, aceitei-as sem hesitar, não me devo queixar nem lamentar.

O que é que recorda de Coreia do Norte?

Recordo um povo que nada sabe acerca das coisas do mundo, que vive fechado numa redoma claustrofóbica e vítima de uma absurda propaganda de um regime totalitário e de um chocante culto da personalidade dos líderes. Mas recordo também que, esse povo, é completamente genuíno nos seus afectos ao regime e aos líderes, pela simples razão de que nunca conheceu a liberdade, a democracia, o livre arbítrio de saber e ousar escolher ou recusar, de poder decidir qual o caminho a seguir.

Recordo um povo que nada sabe acerca de nós, os visitantes, mas que nos sabe receber com um sorriso nos olhares e uma partilha do pouco que têm.

Se tivesse que guardar apenas um momento da viagem à Coreia do Norte, esqueceria monumentos e paradas militares, o regime, a propaganda e, escolheria ‘’apenas’’ os afectos, as emoções de um povo. Nunca esquecerei aqueles que conhecemos durante a viagem.

Sei que foram poucos, mas valeram por milhões.

Que história conta quando fala desta viagem a um amigo?

Tenho contado muitas histórias e ‘’estórias’’, por exemplo o facto de desconhecerem os ‘’Beatles’’, os ‘’U2’’, Saramago e Garcia Marquez, Verdi e Mozart. De não saberem que há mais mundo para lá das suas fronteiras. Curvarem respeitosamente e colocarem flores nas milhares e gigantescas estátuas dos líderes, que povoam todo o país. Falarem da Coreia como um todo indivisível. Acreditarem genuína e ingenuamente que os líderes são entidades ‘’nascidas no céu’’. Serem educados, simpáticos, afectuosos e mostrarem-nos tudo o que têm, com sinceridade e orgulho. Terem um respeito infinito pelos militares e aplaudirem-nos com enorme alegria, quando eles desfilam em parada. Ouvirem de forma entusiasta grupos musicais, politicamente correctos e protegidos pelo regime, como as Moranbong, que são fabulosas. Serem perfeccionistas, pontuais, rigorosos, mas também imensamente tímidos e introvertidos. Sorrirem sempre para nós. Usarem as vestes tradicionais e juntarem-se em grupos de centenas de pessoas, para dançarem nas praças, ao som de hinos patrióticos e revolucionários. Viverem no mais fechado e claustrofóbico regime, do mundo, sem de aperceberem disso.

Qual o custo médio de uma viagem à Coreia do Norte?

Tendo em conta que só se pode visitar a Coreia do Norte, num programa organizado e autorizado, pelas autoridades do país. Programa esse que inclui todos os alojamentos, alimentação, viagens a partir e de regresso a Pequim, todos os transportes internos e visitas, o custo médio nunca será inferior a 2.000 Euros.

Excluem-se os voos internacionais até Pequim, que terão um custo médio, de 500 a 800 Euros, conforme a data da reserva e a época do ano. Os condicionalismos que o regime impõe à entrada de visitantes estrangeiros, obrigam a que os custos de uma viagem à Coreia do Norte, sejam sempre superiores, a uma viagem em autonomia.

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Inês Martins

O seu sonho é ser jornalista. A sua paixão é viajar. Foi na Gap Year Portugal que encontrou a junção perfeita destes dois prazeres. É por isso que quis fazer parte desta maravilhosa equipa. Mas não só. Esta equipa tem um objetivo, uma missão - Colocar os portugueses a viajar! De carteira recheada ou vazia, não há impossíveis. Que as histórias aqui apresentadas sejam o exemplo e o impulso que precisa para agarrar na mala e partir mundo fora. A Inês já está a fazer a sua.

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