Austrália? Why not?

Sou assistente de bordo, tenho 22 anos e recebi a oportunidade de ser parte da tripulação de uma operação de 4 meses na Austrália com voos para o Dubai. Aceitar? Claro que sim. Mas e tudo o que já tinhas pensado fazer nesses 4 meses? Mas e os aniversários? E aqueles dois casamentos que ias ter? Perguntas foram surgindo, mas a oportunidade estava pronta para ser agarrada. Quem me garantia que voltaria a ter uma oportunidade para ir à Austrália mais tarde?

Nos meses que se seguiram fiz mais voos e a vontade de ir conhecer uma cultura nova foi aumentando. Ser assistente de bordo é bem mais do que servir cafés e chás. É garantir a segurança durante a viagem do ponto A ao ponto B. Os chás e cafés são um bónus que gostamos de dar aos passageiros. Ser Assistente de Bordo é conhecer novas culturas todos os dias. É saber mudar o chip de um dia para o outro. É estar em Estocolmo durante uma semana e no dia seguinte já estar no Dubai.

Venho-vos contar um pouco da minha experiência na Austrália. Não sei se conhecem um pouco da história mas este é um país de imigrantes. Há mais de 60 000 anos, os aborígenes chegaram vindos da Ásia e por aqui foram ficando. Foram invadidos por ingleses e tornados numa colónia utilizada, maioritariamente, para cativeiro de presos, foram bombardeados durante a II Guerra Mundial e atualmente têm pouco menos de 25 000 000 habitantes.

Entre este pequeno número de habitantes, face ao imenso território deste país, estão os aborígenes. Se visitarem as principais cidades,  como Camberra, Sidney, Melbourne ou até Brisbane, será muito raro encontrarem um aborígene. Até os poderão encontrar mas não são como os do norte da Austrália, como em Darwin (local onde existe a  maior concentração de arte aborígene). Eles são os donos do país, pois foram invadidos e nunca abandonaram a sua cultura, costumes e tribos, nunca se quiseram, na maioria, incluir na sociedade atual. Como vos disse, a Austrália foi local de cativeiro de presos, o que originou um vício pelo álcool. Aqui não é permitido beber na rua ou sequer estar com uma garrafa de álcool à mostra na rua.

Passo grande parte do meu tempo em Darwin e é aqui que vejo mais aborígenes. Ao olharmos para eles metemos os nossos estereótipos e rótulos a funcionar a 100%. Têm um aspeto descuidado, um cheiro muito intenso e dialetos que nos são desconhecidos. Encontramo-los muitas vezes em grupos, sentados na rua. A partir do almoço é muito provável que encontremos alguns já bêbados e com o avançar da noite é normal estarem deitados na rua, à luta, com sangue ou a gritar “Motherfucker” uns para os outros. Imaginem pessoas bêbedas na noite mas muito pior. A maioria recebe ajudas do estado mas não trabalham, não metem os filhos na escola e têm hábitos que em muito chocam com a sociedade atual.

Já me cruzei com uns quantos e já tenho algumas histórias engraçadas. No outro dia estava em Mindl Beach, Darwin, num mercado e está uma aborígene ao meu lado. Estava descalça, com uma saia nada a ver com a t-shirt, um cheiro bastante intenso e um cabelo completamente desarranjado. Ao lado estava a filha, tal e qual como a mãe. Sabem o que tinha nas mãos? Um tablet e estava a filmar um espetáculo de música que estávamos a assistir. Logo a seguir vejo-as com mais uns quantos aborígenes a pedir dinheiro enquanto cantavam umas músicas e batiam com dois pauzinhos. Mas são espertos! Mal alguém se aproximava para tirar uma fotografia diziam logo “Three dollars, beauty”. Ainda esta semana cheguei de um  voo e ao entrarmos no hotel passa por nós um aborígene cheio de sangue. Estão a ver o “Walking Dead”? Era isso em vida real.

Se existe um choque cultural? Sim, existe. Se estamos do outro lado do mundo com 9h de diferença para Portugal? Sim, estamos. Mas para além disto, a Austrália é um país lindo.  O ambiente aqui é sempre descontraído, está sempre tudo bem. Pessoas a cantar na rua com as suas guitarras. Paisagens incríveis, praias lindas, natureza em todo o lado. Parques onde se pode pegar em koalas ou alimentar cangurus. Miradouros de onde se podem ver baleias. Há tanto para se ver por aqui. Como poderia perder esta oportunidade?

Mal consigam, venham cá. Vale mesmo a pena!

 

Magui Miguel Gomes

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