Um futuro mais risonho para os pikis de Cabo Verde

“Tu escreves o teu futuro”. Podia ser apenas uma frase inspiradora, mas não. É muito mais do que isso! Este é o lema do Atelier dos Pikis, um espaço de tempos livres dedicado às crianças de Santa Cruz, em Cabo Verde. Levado a cabo por quatro voluntárias portuguesas – Inês Carrola, Marisa Lopes, Raquel Curto e Bárbara Araújo -, este atelier tem como objetivo quebrar a rotina pós-escolar das crianças, fazendo com que estas experienciem atividades a que não teriam acesso de outra maneira. Por isso, depois do apoio escolar, segue-se o atelier das artes, o cinema, o laboratório de histórias, o atelier da palhaçada ou o atelier dos mini jornalistas! O objetivo? Fazer com que o futuro destes pikis seja o mais risonho possível!

Quem são as caras por de trás deste projeto?

Inês: Este projeto foi criado por duas ex-estudantes da Universidade do Minho. Eu, Inês Carrola e a Marisa Lopes. Mas, desde início, contamos também com o apoio de outras duas voluntárias, a Raquel Curto e Bárbara Araújo, que se juntaram a nós e nos ajudaram em todo o processo.

Eu sou licenciada em Ciências da Comunicação, tenho 21 anos e sou natural do Porto.

Marisa: Eu tenho mestrado em Educação, tenho 23 anos e sou natural de Braga.

Eu e a Inês conhecemo-nos numa formação designada de Voluntariado para a Cooperação, em julho de 2015, promovida pelo Centro de Recursos para a Cooperação e Desenvolvimento, onde refletimos sobre como é trabalhar em países em desenvolvimento. Participamos nesta formação visto que ambas íamos intervir em Cabo Verde, no Município de Santa Cruz, mas em momentos diferentes (a Inês foi como voluntária e eu como estagiária académica).

A experiência aproximou-nos e em janeiro de 2016 a Inês foi, mais uma vez, participar em ações de voluntariado, enquanto o meu estágio decorria, e aí começou a crescer esta ideia, de voltarmos com um projeto nosso e coordenado por nós, destinado às crianças mais carenciadas do município.

Concretamente, o que é o Atelier dos Pikis e com que apoios conta?

Marisa: O Atelier dos Pikis é um projeto de voluntariado destinado às crianças do Centro Enfermeiro Lindo. Contamos com o apoio da Universidade do Minho, com a Câmara Municipal de Santa Cruz, e esperamos criar parcerias com entidades cabo-verdianas que nos permitam dar sustentabilidade ao projeto.

A nível financeiro não temos qualquer apoio, no entanto, estamos instaladas numa propriedade da Câmara Municipal de Santa Cruz, sem qualquer custo.

Porquê Cabo Verde?

Inês: Escolhemos Cabo Verde porque conhecíamos a realidade do país das nossas experiências anteriores, daí termos um carinho muito especial por este país, concretamente pelo município de Santa Cruz.

Quais os principais motivos que levaram à criação deste projeto? 

Marisa: Após termos estado ambas no terreno, foi-nos possível observar que existem necessidades fortes a nível socioeconómico na vida da maioria destas crianças e, também, há uma forte negligência na sua educação. Quando tivemos conhecimento da existência de um Centro de Dia Infantil (“Enfermeiro Lindo”), que apoiava 45 crianças dos 6 aos 13 anos em situação de vulnerabilidade social, quisemos perceber de que forma poderíamos apoiar. Imediatamente percebemos que as Instalações do Centro estavam bastante debilitadas e precisavam de grandes mudanças e remodelações e, por outro lado, existia uma falta de profissionais, o que resultava num acompanhamento mais debilitado das crianças do centro. Assim, o Atelier dos Pikis veio para tentar fazer face a estes dois grandes obstáculos na qualidade de vida destas crianças.

Como se desenrolou todo o processo antes de pisarem o solo da ilha de Santiago?

Inês: Após termos a ideia do projeto, contactámos a Cláudia Pinto, responsável pela dinamização do dia-a-dia do Centro Enfermeiro Lindo, e começámos a questioná-la sobre as necessidades do mesmo para que, em Portugal, conseguíssemos preparar a nossa intervenção da melhor forma. Numa fase inicial, começámos por divulgar o projeto, criando redes sociais, nomeadamente a nossa página de facebook e website. Posto isto, e sabendo que precisaríamos de angariar fundos para enviar material e recursos que fazem falta no Centro, começámos a vender lápis personalizados com o nosso logótipo, contando com o apoio de comissões de praxe da Universidade do Minho que, em praxes solidárias, venderem cerca de 600 lápis.

Em Dezembro de 2016 fizemos o nosso 1º Evento Solidário, no Instituto de Educação da Universidade do Minho, onde explicámos o projeto a todos os presentes e falámos da nossa angariação de material. Nesse momento, demos então início a uma recolha de donativos (jogos, brinquedos, material escolar e didático, roupa, calçado, móveis, eletrodomésticos, etc…) que atingiu proporções inesperadas e extremamente positivas, e que foi mais que suficiente para enchermos um contentor de 20’’ em direção à Ilha de Santiago. Isso irá beneficiar não só as crianças do Centro, mas também outras instituições locais, nomeadamente as Tendas El Shaddai, um centro de recuperação de homens e adolescentes toxicodependentes (do sexo masculino), e a Casa Manuela Irgher, um centro que acolhe mães solteiras e os seus filhos em vulnerabilidade social. Em suma, conseguimos materiais fundamentais para algumas instituições de apoio social do Município de Santa Cruz.

Como se vive em Pedra Badejo?

Marisa: Viver em Pedra Badejo é uma experiência incrível que nos transforma e nos faz crescer todos os dias. Acreditamos que, para nós, 6 meses é pouco para desenvolver o potencial deste município, bem como para receber e dar atenção a todos as situações delicadas que encontramos diariamente.

Pedra Badejo é uma zona fundamentalmente rural, sendo a pesca e a agricultura os principais meios de sustento da população. Não há meios de transporte cronometrados, não temos restaurantes ou mini mercados com abundância, não existe água potável, muitas vezes há falhas elétricas e há pouco ordenamento do território. Embora haja muita coisa que está a melhorar aos poucos, ainda percebemos que existem fortes carências, especialmente nas crianças que apoiamos no centro. Há muitas crianças que trabalham para ajudar a sustentar a família, que cuidam dos irmãos (o que resulta no afastamento escolar) e, infelizmente, muitos meninos/as que têm a sua única refeição quente no Centro. A vida não é fácil para estas crianças mas elas são extremamente felizes e mostram-nos todos os dias como é simples dar valor às coisas mais pequenas.

Em termos de voluntariado, sentimo-nos muito afortunadas por termos as condições que temos. Embora existam alguns contratempos (não existe água corrente, por exemplo) nós conseguimos superá-los da melhor forma. De facto, temos tudo o que precisamos e estamos muito felizes por podermos contribuir para o empoderamento destas crianças.

Quais são as vossas metas, a curto e longo prazo?

Inês: As nossas metas são fundamentalmente contribuir para a remodelação do espaço e/ou alteração deste, e promover o desenvolvimento pessoal e social das crianças acolhidas no Centro Enfermeiro Lindo.

A longo prazo ansiamos criar sinergias locais para dar continuidade ao projeto, e receber voluntários portugueses e cabo-verdianos que apoiem este projeto e outros.

Sei que ainda é cedo para falar sobre isto, mas sentem que esta experiência já vos está a mudar de alguma forma?

Marisa: Como já conhecíamos o contexto, sentimos que nos transformamos muito nestes anos. Contudo, cada vez mais, sentimos que temos que valorizar tudo o que temos, e que Portugal, independentemente do momento socioeconómico que está a passar, consegue criar condições favoráveis aos seus habitantes. Aqui sentimos que há potencial, mas há muito trabalho a ser feito, nomeadamente na mudança de mentalidades e promoção de valores sociais favoráveis. Estas experiências mudam sempre a vida de quem participa nelas e, de facto, nós sentimos que tudo o que damos ou pretendemos “dar” de nós é retribuído a multiplicar pela gratidão destas crianças.

E que impacto é que sentem que estão ou irão ter nessas crianças?

Inês: O impacto que queremos ter nestas crianças tem um valor educativo muito forte. Queremos incentivá-las a estudar, a treinar a escrita e a leitura, e a interessarem-se pelo que aprendem na escola. Queremos alimentar o seu espirito criativo e crítico de forma a que elas queiram conhecer mais do mundo, para além daquilo que lhes é dado a conhecer. É muito importante para nós motivar os “pikis” e fazê-los acreditar que com muito esforço e determinação pessoal, eles conseguirão fazer e ser aquilo que sonham para eles. Por outro lado, queremos que certas temáticas como o respeito pelo o outro, a igualdade de género e os direitos fundamentais da criança sejam bem claros para eles para que, no seu dia-a-dia, possam fazer com que a comunidade onde vivem seja cada vez mais justa, e o futuro que os espera seja o mais risonho possível.

 

Acompanha estes Pikis em: https://www.facebook.com/atelierdospikis/?fref=ts

NOTA: Todas as fotografias são da autoria de Inês Carrola.

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Carolina Pereira

Natural do Porto, e orgulhosa portuense, é estudante de Ciências da Comunicação na Universidade do Minho. O seu espírito de contradição acompanha-a desde pequenina, não fosse ela uma sportinguista com pronúncia do norte. Adora música, cinema e fotografia, e um dos seus sonhos é o de um dia vir a fazer um Intrarail em Itália. Com uma grande vontade de marcar a diferença, decidiu abraçar este projeto porque acredita que um dia a experiência do Gap Year será uma opção a considerar por parte de todos os jovens portugueses.

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