Argentina: começar sozinha e acabar a viajar em grupo

Cinco horas para passar a fronteira e estava novamente na Argentina. Nessa imensidão de país com tanto para explorar. Os trajetos mais conhecidos da Argentina são os do sul, os da Patagónia, a “ruta 40”, a visita a Ushuaia – a cidade do fim do mundo –  e, claro, Buenos Aires. O norte da Argentina não é muito turístico, ainda bem, e tem lugares com uma beleza natural incomparável. Nunca esteve nos meus planos, a visita a essas terras de calor, desertos e salares. Ao longo do intercâmbio foram-me convencendo de que devia juntar esse pedaço de terra à minha viagem pela América do Sul. Deixei-me convencer, depois de muitas recomendações de amigos que por aí haviam passado.

Apanhei um autocarro de Santiago do Chile para Mendoza, de Mendoza fui para Córdoba e de Córdoba, depois de acampar nas serras, outro autocarro noturno direto a Salta, onde começa a região mais bonita do norte da Argentina. É preciso ter em conta que a Argentina é um país caro, em comparação com outros deste continente, e os transportes não são exceção. Há que ter a viagem planeada ou, então, estar consciente de que os preços de última hora não são amigos de nenhuma carteira.

Até Salta tinha viajado completamente sozinha, conhecendo o típico viajante de hostel ou de parque de campismo, mas sempre no meu recente mood de solitária, que queria aproveitar algum tempo para ler e não interagir com muitos seres da mesma espécie. Em Salta, cheguei a um hostel onde estava uma portuguesa, com o marido e o filho bebé! Encontrar portugueses a viajar por este hemisfério não é coisa que suceda todos os dias e é ocasião para deixar o mood de lado e dar dois (ou mais) dedos de conversa. Foi também em Salta que conheci aquela que seria a minha companhia de viagem da semana que se seguiu.

Os amigos de viagem fazem-se nas circunstâncias mais inesperadas. Tenho vindo a confirmar isso nos últimos tempos. Foi numa paragem de autocarro que conheci o Santiago, o argentino com quem segui para norte, à boleia, no dia seguinte.  Nas cidades argentinas é costume necessitar-se de um cartão para andar de autocarro e, quando se está a viajar e durante pouco tempo numa determinada cidade, uma das opções que os viajantes têm é pedir a alguém local para lhes passar o seu cartão e pagar-lhes em dinheiro. Foi precisamente numa “transação” dessas que eu conheci este argentino irrequieto, que não se calava, tal como eu, um uruguayo que estava com ele a trabalhar num hostel na cidade e o camponês que nos pagou a viagem para irmos ver umas cascatas. Essa viagem de autocarro foi inesquecível: o camponês trazia uma guitarra e eles fizeram questão de transformar um autocarro normal num palco de música tradicional argentina. Foi nessa viagem que masquei, pela primeira vez, folha de coca. Chegámos ao parque onde estavam as cascatas, despedimo-nos do camponês e iniciámos a nossa exploração. Conversa para um lado e para o outro, descobrimos que planeávamos fazer o mesmo tipo de viagem e combinámos seguir para Jujuy juntos.  Salta ficou na memória como uma cidade maravilhosa, com algumas das igrejas mais bonitas que conheço, e pessoas muito simpáticas e acolhedoras.

No dia seguinte, apanhámos a boleia mais cara da minha vida – porque me esqueci do telemóvel na carrinha onde nos levaram. Chegámos a Jujuy e seguimos para Purmamarca, onde já se sentia o carnaval tradicional do norte da Argentina. Chegámos a Purmamarca e encontrar um camping barato para dormir foi um bico de obra, porque era pleno Carnaval e os preços estavam exorbitantes. Ao caminhar pelas ruas éramos bombardeados com sprays, tintas, espuma e confetis. A bebida e a comida chegava de todos os lados e de puros desconhecidos. Conhecemos gente, dançámos, e explorámos aquela vila ladeada pelo cerro das sete cores.

A chegada a Purmamarca

Um dia depois,  subimos as montanhas que rodeiam a vila para apreciar a vista. Decidimos ir fazer um tour pelas salinas grandes, que demorava 3 horas. Aí conhecemos duas raparigas, uma argentina e outra francesa, com quem nos demos super bem. A argentina contou-nos que estava a viajar num autocarro com mais 22 outras pessoas, e, no final do tour, levou- nos a visitá-lo. Claro que o meu espírito de nómada ficou logo maravilhado com a iniciativa e já reservei lugar para 2019 na aventura!!!

O caminho para as salinas Grandes!
O efeito espelho e uma francesa e o autocarro da “América en Bus”

Seguimos para Tilcara para passar o dia. No autocarro conhecemos umas irmãs argentinas que se juntaram a nós. Depois de tomarmos uns mates com a vila aos pés, bebermos vinho local oferecido por um tocador de bombos e tirarmos a típica selfie com os llamas na praça principal, resolvemos iniciar as nossas novas companheiras de viagem no mundo das boleias. Era tarde e ninguém ia para a direção que queríamos ir – a nossa tentativa foi completamente falhada. Nem o autocarro já passava e tivemos que encontrar solução negociando com um senhor da zona, que nos levou “à boleia”, pelo preço que pagaríamos pelo autocarro. Chegámos a Humuhuaca já de noite e os sons do Carnaval ainda se ouviam. Um dos grupos carnavalescos  acompanhou-nos com todo o ritmo e batidas, até ao parque de campismo onde asentamos tralhas. Sorte de se andar com um argentino prevenido, tínhamos um fogão a álcool e improvisámos uma massa com molho de tomate, que nos soube pela vida, depois de um dia sem muito comer.

Tilcara e Humuhuaca

De manhã acordámos e fomos explorar a cidade. Conheci um argentino já bem idoso que tinha viajado por Portugal de norte a sul, nos anos oitenta, e que vendia artesanato na rua. Todas estas vilas por onde fomos passando têm uma arquitetura muito similar, e a paisagem que as rodeia é muito seca. Não deixam de ser lindíssimas e muito pitorescas. O pessoal aproveitou para comprar “recuerdos” para levar de volta a Buenos Aires e eu tive de conter-me porque ainda tinha umas semanas de viagem pela frente, na Bolívia. Depois, começou a chover e fomos esperar o autocarro que nos levaria para Iruya.

Saímos desse autocarro com mais amigos recém-feitos e, depois de aceitarmos ficar em casa da Irma – que estava à espreita de oportunidade mal o autocarro parou na vila – tínhamos um grupo de sete formado! Cinco argentinos, uma francesa e eu!! Ficámos duas noites no “hostel” da Irma – que basicamente era o segundo andar da casa dela, mas que nos pareceu mais acolhedor que acampar com a chuva que ia caindo esporadicamente!

As paisagens de Iruya e o grupo que ainda não se sabia grupo à espera do autocarro

Primeira noite de copos da minha viagem de solitária, no nosso terraço com cinco mil estrelas que nos observavam. Queríamos ir a caminhar até San Isidro, pelos vales e montanhas, na manhã seguinte, e era um programa que deveria ser feito cedinho. Acontece que “quem dá a noite não dá o dia” e a verdade é que o nosso dia começou às 11 da manhã. Tudo a preparar-se para sair o mais rapidamente possível, com indicações de que, àquela hora, tínhamos que ir e regressar bem depressa, porque depois de chover fica impossível  cruzar o rio e as previsões de chuva para as tardes costumam ser certeiras.

Por montes e vales fomos!!

Demorámos 4 horas só para chegar à cidade isolada no meio dos vales. Cruzando o rio inúmeras vezes, saltando de pedra em pedra, parando para tirar fotos à imensidão que nos rodeava. Chegámos, comemos no “comedor” local e estava na hora de partir, porque a vinda da chuva estava iminente. O regresso foi feito em metade do tempo. Sob uma tempestade e uma chuva constante que teimava em não parar. Nós, mais à frente, outros mais atrás, íamos sempre em grupo para cruzar o rio – coisa que voltámos a fazer imensas vezes, dado que era preciso criar uma corrente humana de segurança. O meu melhor amigo desse dia foi o impermeável – a viajar sozinha aprendi a ser uma mulher prevenida!

Tentativa de limpeza dos sapatos- com direito a perseguição!!!

Chegámos cansados mas felizes, porque a aventura tinha valido a pena, e porque saímos daquela terra, alguns às cinco da manhã do dia seguinte, com a certeza de que o mundo se encarrega de te juntar com as melhores pessoas de sempre, durante a tua viagem, qualquer que ela seja.

O melhor grupo improvisado de sempre!!!

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Ana João

A vontade de correr o mundo acompanha esta bracarense desde pequenina. Independente, curiosa e com uma enorme sede de aprender, já percorreu a Europa de autocaravana. Apaixonada por viagens, livros e arte, frequenta o 4 ano do curso Mestrado Integrado em Arquitetura da FAUP e, paralelamente, um curso de Italiano. Juntou-se à AGYP com vontade de fazer chegar o " mundo dos viajantes" a todos os jovens (de espírito e alma).

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