O Mundo na Mão: 7 homens. Uma carrinha. Entravam?

Estávamos em Espanha, ainda no início daquela que foi a nossa querida volta ao mundo – sim, porque estamos, depois de 16 meses, de volta a casa! –
Naquele dia, começámos (mais uma vez) fora de horas.  Não sei muito bem como tudo se processa assim mas certo é que, no princípio da viagem, por mais que puséssemos o despertador para as 9:00h, às 11:00h nunca estávamos prontos e muito menos às 12:00h estaríamos perto de estar a postos na estrada. Quem nos conhece sabe que somos díspares; um sempre a horas, outro sempre atrasado. Chamamos-lhe carinhosamente de equilíbrio – mas sei bem que é este um grande (senão enorme) problema, perante a minha rapidez matinal!

Posto isto, tínhamos partido com batota. A família que nos acolheu ainda em Portugal, mais precisamente em Elvas, não só nos deu tudo o que de melhor tinha, como ainda nos levou a Badajoz. E foi para mim, por tudo o que possam imaginar, uma boleia iluminada. As boas energias, a satisfação que traziam no coração, abençoaram as boleias seguintes. Porque, a meu ver, tudo influência a forma como o mundo gira: se no pensamento guardamos o melhor deste, então é mesmo isso que a nós vem.
Não demorou nem 5 minutos, estávamos já a ser levados para perto de Mérida por uma jovem entusiasmada e de sorriso fácil, feliz por nos ter encontrado.
Chegados, descemos do seu carro, mochilas às costas e mil sacos nas mãos (é, é que a família hospitaleira de Elvas não nos deixou seguir sem várias refeições de avanço no bolso!). E eu, na minha inocência, não tinha ainda deslumbrado o que nos rodeava: e já estava um carro parado, com os vidros abertos, de onde escutámos um gracioso “Hola!!!“.
Seguiam, ela e o seu acompanhante, com direção ao nosso destino e podiam deixar-nos onde precisávamos, o que era perfeito. Apaixonados por Lisboa, sugeriram que trocássemos contactos. Quem sabe um dia, por cá, nos voltemos a ver – relembro agora o que senti na altura!
Já em Mérida, a estação de serviço era grande. A nossa fome já apertava, mas com o desenrolar daquele final de manhã, não ousávamos ver os carros por nós a passar e não esticar o dedo. A excitação era tanta, que nem a mochila descarreguei.
Não sei bem se chegámos a esperar 10 minutos.

No lugar onde apanhámos boleia da carrinha

Mas pararam:
7 homens. Uma carrinha. Casacos verdes.
Sorrisos no rosto.
Jogadores de futebol 11, jovens e entusiasmados com a nossa presença.
E, de repente, facilmente ali imaginava ou revi alguns dos amigos do Tiago, o meu marido, de caminho para uma jogatana de futebol (ou jornada de Goalbal!). “Para donde vas?”, perguntaram uns por cima dos outros!
E não hesitámos. Não hesitei, eu que de início trazia tantas questões por desvendar na cabeça, e também no coração! E subi, subimos e seguimos juntos por mais 120 quilómetros.
Assim, num piscar de olhos, estávamos a 60km do nosso destino para aquele mesmo dia, a cidade de Talavera de la Reina.
Mas depois, depois é que foi, quando em pouco mais de 5 quilómetros me vi a ter de apanhar mais duas boleias, com o tempo a fugir-me pelas mãos. Mas o sol brilhava e guardo em mim a inspiração que trazíamos juntos no olhar. Um olhar de esperança.
A sétima boleia do dia, não sabemos ainda se bem aceite, tirou-nos de um lugar estratégico, em detrimento de um punhado de quilómetros de avanço. Deixámo-nos iludir pelo sentimento de estar mais perto de um novo lar e pela simpatia do condutor. Ainda assim, de lá, nunca saberíamos o que seria melhor. Mas eu, no auge do meu nervosismo e no cume da minha ansiedade, dei voltas ao pensamento.
Passaram-se depois várias horas. O sol já se queria esconder. A neve deixava-se avistar ao fundo, no cimo das montanhas. O meu nariz já revelava o frio que senta, vermelho e a pingar. Os carros que avistava eram poucos, e de tempo a tempo.
Pensámos nós, pensei eu, pensou ele, horas antes, que chegaríamos rápido ao nosso novo destino. Mas andar à boleia é mesmo assim.
Calma. Paciência. Resistência. Tolerância.
Precaução.

As montanhas, ao fundo, com neve

Pelo lusco-fusco do anoitecer, todos os carros que avistava na estrada em que estávamos, eram carros bons, carros caros. E, embora não saiba já bem o que nos corria pela alma, a riqueza alheia, sem que nela resultasse preconceito, trazia em si muito desconforto.
Conversámos. Sorri. Fartámo-nos. Brinquei.  Respirámos. E ele até tocou armónica.
Tudo. E o tempo passava. Quando, de repente, vi um Porche parar. Sim, um Porche Cayenne. Lindo, por fora e por dentro!
Eis que sai um Senhor, cavalheiro, calmo e repleto de cortesia. Ofereceu-se para nos ajudar, e acreditem, parecíamos já sabe-se lá o quê: gelados, com gorros, capuzes postos, luvas, casacos, sacos, mochilões, mochilas pequenas, enfim. Uma catrefada de tralhas. Com a nossa, nova e humilde, casa às costas.
E assim chegámos. Cheguei eu, abraçada nele. No Tiago. Despidos de pré-julgamentos. Cheios de amor!

Talavera de la Reina, em Espanha, consagrou-se assim a primeira paragem além-fronteiras de uma lua-de-mel tão nossa, e do mundo também. Lá, encontrámos uma nova família. Tão querida quanto seja possível de imaginar! E, a aproximadamente 600 quilómetros de casa, com 15 boleias, estávamos unidos. Felizes! Como hoje o somos.

E sabem, nem tudo o que parece, é.

 

Joana Oliveira 

Com 27 anos, Psicomotricista de alma e coração, Licenciada em Reabilitação Psicomotora pela FMH, Pós-Graduada em Proteção de Crianças em Perigo e Intervenção Local pelo ISCSP e mais recentemente Mediadora Familiar pelo IPMF. Assume-se apaixonada pelo contacto com outras pessoas, diferentes culturas e formas de estar. Depois de um programa de intercâmbio no Brasil, experiências de voluntariado em Portugal e em Moçambique e um casamento de sonho, deixou tudo para trás e partiu na lua-de-mel da sua vida: uma volta ao mundo, de mochila às costas e à boleia.

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