Tatuagens e decisões de vida: de Amesterdão para o futuro

No ano 2000, estava eu no décimo primeiro, ganhei uma bolsa do Goethe Institut que me permitiu viajar na Alemanha durante um mês.

Durante 15 dias fiquei hospedada na casa de uma família, fui à escola treinar o meu alemão – em pleno Agosto chuvoso – e o resto do tempo viajei com os meus companheiros do mundo inteiro, também eles vencedores da mesma bolsa: japoneses, ingleses, irlandeses, escoceses, dinamarqueses, holandeses, portugueses. Começámos em Bona, ficámos hospedados em Essen, visitámos a Expo 2000 em Hannover, alojaram-nos em hostels em Berlim e Munique… foi um mês muito intenso e de grande aprendizagem que nos deixou a todos com vontade de nos reencontrarmos o mais depressa possível.

Assim, no verão do ano seguinte, mal entreguei o último exame e no meio da grande decisão sobre que curso superior escolher, uma das nossas mais diligentes companheiras da viagem à Alemanha organizou uma semana de encontro em Amesterdão. Pois, Amesterdão.

Claro que nem toda a gente partilhava da mesma ideia de diversão, o que fez com que apenas voltasse a reencontrar-me com alguns dos meus companheiros dias depois. Aproveitei para fazer o périplo turístico todo da cidade e, no último dia, foi finalmente a vez da minha loucura das férias.

Amesterdão é uma cidade de contrastes, os excessos da noite opondo-se aos bares que deixam de servir quando em Lisboa ainda estamos a aquecer. Amesterdão ostenta de um lado os imponentes museus, do outro a rua vermelha. E foi precisamente este o meu trajecto: dos museus para a rua mais deprimente da Europa. Estava com uma escocesa, uma irlandesa e uma galega num bar. Não, não é uma anedota. A escocesa começa por dizer assim:

– “A minha mãe disse que eu podia fazer o que quisesse nesta viagem, excepto uma tatuagem. Por isso é precisamente o que eu vou fazer.”

E eu, como sou uma imbecil, respondo:

  • “Amanhã fazemos todas!”

À irlandesa também lhe agradou a ideia, a galega acobardou-se.

E assim ficou decidido. No dia seguinte andei o tempo todo com receio que elas se lembrassem do malfadado pacto. Penso que todas partilhávamos do mesmo temor, até que uma loja de tatuagens se materializou à nossa frente.

“Vamos?”, disse a escocesa.

Estávamos no Red Light District. A loja em questão era uma Coffee Shop. Cá em cima os menus com a melhor erva da cidade, lá em baixo as tatuagens. Descemos as escadas e entrámos numa sala decorada com vários temas e uma tarântula viva. Perdida por cem, perdida por mil.

A primeira a decidir-se foi a escocesa. Abriu um dossier gigante recheado de imagens, do mais inocente Tweetie Bird destinado a adornar uma clavícula, a pin-ups cujo destino não poderia ser outro que não os bíceps de um qualquer Hells Angel tresmalhado na Europa. Ela escolheu precisamente escrever “anjo” em caracteres japoneses na parte debaixo das costas. Eu demorei-me. Que tatuagem combinaria melhor com algo que quisesse permanentemente gravado no meu corpo e que tivesse sido decidido menos de 12 horas atrás?… A irlandesa desenhou uma pata de cão dois dedos abaixo do umbigo. Eu finalmente encontrei algo que se aproximava remotamente daquela fase da minha vida, em que se esperava que tomasse decisões definitivas numa questão de momentos e que determinariam todo o meu futuro. Optei por um caracter japonês – “espírito” – para me lembrar do que é importante e perene na vida, os valores que devo manter independentemente do que à minha volta teima em se manter inconstante.

Sentei-me na marquesa, descalcei as meias e um holandês atrevido decidiu passar-me uma Gillete na zona da perna a tatuar. Não faço ideia que critério utilizei para escolher aquela parte do corpo. Provavelmente o mesmo que me levou a decidir fazer uma tatuagem – nenhum. A dor é inexplicável, mas posso tentar comunicar-vos o que senti. Reconheci uma agulha de uma máquina de costura bordando-me a pele. O som é semelhante, o movimento da máquina também. O contorno é o pior, o preenchimento é mais rápido e indolor. Lembro-me que comecei a tremer – de dores? de nervos? – e o holandês mandou-me estar quieta. Pronto, fiquei com um erro na tatuagem, um pequeno desvio no caracter.

Coloquei por cima da tatuagem um penso que não deveria retirar pelo menos por uma hora. Arranjei as calças, calcei as botas e saímos. Encontrámo-nos com os nossos restantes companheiros num café, onde lhes contámos a nossa aventura. Não sei se conseguiram reter alguma coisa depois da festa constante em que aquela semana os manteve… Passado o tempo previsto fui à casa de banho do café e retirei o penso junto ao tornozelo. Tal como na minha pele, a gaze exibia o caracter japonês. Lembro-me de estar sentada naquela casa de banho a pensar no que tinha feito e no que queria fazer. Lembro-me de pensar que não queria sentar-me num escritório o resto da minha vida como os meus pais. Que o que queria mesmo era viajar e escrever. Aos 18 anos, quem não quer? Então, naquela casa de banho holandesa, decidi que curso deveria tirar, puxei as calças para cima e voltei para Lisboa.

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A minha mãe foi buscar-me ao aeroporto, cheia de esperança que a minha viagem me tivesse encaminhado para a mesma conclusão a que ela já chegara anos atrás: o melhor curso para mim só poderia ser Direito, como Direito fora o melhor curso para ela também. Já vira o meu futuro todo, eu rodeada de códigos civis e diários da república, destinados a fazer-me tão feliz como a fizeram a ela. Nem valia a pena comprar novos, herdava logo os seus, já com notas ao lado para simplificar o meu percurso ao máximo.

Enquanto ela conduzia ao meu lado decidi contar-lhe.

– “Mãe, já decidi que curso vou tirar.”

Sorriso aberto do outro lado.

– “Quero ir para Antropologia.”

– “O quê?!”

– “Ah, e fiz uma tatuagem na perna.”

– “O QUÊ?!!!”

Meninas e meninos, é assim que se destroem os sonhos que os nossos pais têm para nós. Primeiro acendemos o rastilho, pouco depois ouve-se a detonação. Aprendam comigo que não duro sempre.

Não sei se alguma vez a minha mãe chegou a perdoar-me por não cumprir a profecia que apenas ela lera nas estrelas, mas não faz mal. Já aceitei que não posso agradar a todos. E já aceitei também que o que tatuei na perna não é “espírito”, como dizia a tradução do dossier naquela coffee shop holandesa. Descobri-o quando fui com a minha irmã a uma loja de tatuagens muitos anos depois, no Chiado, a qual ela escolhera previamente como o sítio ideal para a primeira tatuagem: um desenho único num espaço do corpo escolhido com cuidado, um lugar de difícil visibilidade caso compromissos futuros a obrigassem a disfarçá-la. Somos tão parecidas. Antes de sairmos da loja o tatuador olhou para o meu tornozelo e disse-me:

  • “Essa é a que mais me pedem aqui na loja. Toda a gente quer andar por aí com “Deus” tatuado na pele.”

Fiquei boquiaberta, mas uma amiga, católica por sinal, respondeu logo antes que eu me insurgisse contra a tradução mal amanhada ou enveredasse num debate sobre as diferentes noções de espírito entre Ocidente e Oriente.

  • “Vês? Tanta coisa com essa tatuagem e afinal até saíste mais bem protegida!”

 


Maria Joana Teixeira

Chamo-me Maria Joana, como a minha bisavó, pelo que antes de nascer já tinha nome. A culinária foi crescendo comigo: se em pequena a minha Avó me criou entre os tachos, só quando fui viver sozinha aos 21 anos comecei realmente a cozinhar para mim e a partir daí não parei. Sou antropóloga de formação e nos últimos tempos tenho vindo a desenvolver o meu gosto por uma culinária saudável, funcional e consciente, a qual serve de ponto de partida para compreender e questionar o mundo que me rodeia.

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