Depois da coragem está o mundo

Sempre fui uma rapariga que planeava antecipadamente todos os passos que devia dar para ter um futuro “bem sucedido” – pelo menos aos olhos da sociedade e das suas normas convencionais. Ao mesmo tempo, sempre fui a rapariga com o sonho de viajar e conhecer o mundo, abrir as suas asas e voar… o mais longe e alto possível. Escolhi o segundo caminho e concorri ao Concurso Gap Year Portugal. Acabei por ganhar e aventurei-me durante sete meses, pelo Sudeste Asiático.

Hoje, posso dizer-vos com toda a certeza – foi a melhor decisão que tomei. Depois da coragem veio o mundo!

No dia em que aterrei em Banguecoque e dei por mim completamente sozinha, no outro lado do mundo, onde ninguém fala a mesma língua que eu (nem sequer têm o mesmo alfabeto!), e tudo me era desconhecido, foi quando realmente me apercebi: o meu sonho deixou de ser apenas mais um sonho, era real e eu estava a vivê-lo. Não havia volta a dar. Estava na altura de me desafiar e de ultrapassar todos os limites que me impusera. Não foi fácil. De todo. Questionei-me se seria realmente capaz de seguir com a viagem, e se o meu sonho afinal não passava de uma decepção. Deixem-me que vos diga, quando estamos por nossa conta e risco, do outro lado do mundo, o desconhecido ganha uma dimensão intimidante. Contudo, todas as minhas dúvidas e medos dissiparam-se à medida que fui conhecendo as pessoas e os sítios por onde ia passando.

Em Banguecoque

O Camboja foi perder-me na beleza do povo e na simplicidade da vida. Foi ensinar Inglês a crianças com uma vontade indescritível de aprender. Foi dormir ao lado de quintas de crocodilos e partilhar duches com aranhas e osgas. Foi andar por ruas sem qualquer luz, à procura de comida e de tuk-tuks. Foi visitar uma família de 4 crianças, com mãe diabética, totalmente dependente dos filhos com menos de 14 anos. Foi ver crianças a tomarem conta não só de adultos, como de outras crianças. Foi ser confrontada com uma realidade com a qual nunca tinha sido obrigada a lidar. O Camboja foi também assistir a um assalto e aperceber-me de que por mais bonito que um país seja, coisas más acontecem em qualquer lado, mas que isso não define um sítio. Nem deve definir.

A Rita no Camboja

Da realidade dura do Camboja, passei para o Vietname, com o seu caos organizado e oceano de motas. Enquanto houver espaço na faixa, acreditem, há motas. Sim, são precisos quase 30 minutos para atravessar uma passadeira, mas isso permitir-vos-á serem alvos da simpatia dos vietnamitas que, muitas vezes, vos vão dar a mão e ajudar-vos a atravessar a estrada… Muitos já a terão atravessado, mas voltarão atrás por vocês. Estar no Vietname também foi visitar algumas das maravilhas da natureza mais deslumbrantes do mundo. Foi comer crepes e chocapics na noite de consoada e partilhá-los com uma criança de 2 anos. Foi integrar-me e viver como uma local. Foi sentir que encontrei uma casa e chorar ao partir.

No Vietname

Do difícil adeus ao Vietname, seguiu-se o charme de Laos, que me conquistou com as suas famílias a brincarem e nadarem no Mekong. Ao Laos, seguiu-se, novamente, a Tailândia, onde todos os dias me deitava com o céu mais estrelado e acordava com vista para os campos de arroz e com o som da cascata como pano de fundo. Estar na Tailândia foi comer no chão e beber muita happy water. Foi jogar muito dobble e snooker. Foi, igualmente, apanhar muito cócó de elefante e de cão (e estar extremamente contente em fazê-lo!). Foi passear cães, com elefantes e búfalos como vizinhos. Foi carregar cachos de bananas e melancias até os meus braços cederem. Foi tomar banho de água fria com baldes. Foi encontrar-me nos sítios mais inesperados e sentir-me realizada com as mais pequenas coisas.

Rita na Tailândia

Depois, chegou a vez do Myanmar, um país descrito pela incapacidade de o ser feito por palavras. Somente quem o visita consegue compreender, na totalidade, o porquê de ser tão especial. O Myanmar foi não ver turistas durante dias e apanhar uma valente intoxicação alimentar (que não desejo a ninguém!). Foi encantar-me com a beleza única do seu povo, sempre com o seu thanaka na cara e o famoso longyi vestido. Uma beleza que inclui, principalmente, a sua bondade e predisposição em ajudar o outro. Foi pessoas usarem todas as ferramentas que tinham nas motas, para ajudar a reparar um banco de bicicleta. Foi gritarem, de forma sempre alegre, um “Mingalaba”, capaz de animar o dia a qualquer um.

Em duas rodas pelo Myanmar

Da Malásia fica a estadia em casa de uma família muçulmana, que me tratou de forma sempre acolhedora. Foi ter os bolinhos típicos mais frescos ao pequeno almoço. Foi fazerem-me as perguntas mais inesperadas, como “Qual o significado do teu nome?”. Foi, acima de tudo, uma troca de experiências e conhecimentos e a prova de que as diferenças só são barreira para quem não está disposto a ir além do que conhece.

Em boa companhia na Malásia

Por fim, fica a Indonésia, nomeadamente Bali e Gilis. A Indonésia foi explorar cascatas, campos de arroz e templos. Foi subir um vulcão e assistir a um nascer do sol inesquecível. Foi fazer snorkeling e nadar ao lado de tartarugas gigantes. Foi aprender a andar de mota. Foi descobrir praias secretas com água cristalina e areia branca. Foi aceitar boleias de desconhecidos. Foi ser acolhida em casa de um estranho e sair de lá com um amigo. Foi ir sem expectativas e partir com a certeza de que vou voltar.

Em Bali

Durante a viagem dei por mim a olhar para os sítios e para as pessoas, e pensar no quão sortuda sou por ter lá estado. Por ter visto e vivido tudo aquilo. Por ter conhecido partes diferentes do mundo. Por me ter apaixonado pela vida. Por ter crescido com o mundo. Fui acolhida com “Olás” constantes e inesperados, de adultos e de crianças. Hoje sou uma pessoa que sabe que o mundo é gigante, que há muito para ver e viver, que ficar parada não é opção. Que coragem e, quiçá, um pouco de loucura, são precisas – não para o conhecer, mas sim, para não nos atrevermos a partir.

Texto de Rita Soares – vencedora do Concurso Gap Year Portugal’ 17

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