Chegada à Paz – Entrevista a Adriana Costa Santos

Adriana Costa Santos terminou a licenciatura de Relações Internacionais e decidiu fazer um Gap Year para pensar. Assim, quando lhe surgiu a possibilidade de ir ajudar num campo de refugiados em Bruxelas partiu e foi partilhando as suas crónicas no blog da Visão “Chegada à Paz“. Estas crónicas valeram-lhe o prémio “Corações Capazes de Construir”, da associação Corações Com Coroa, presidida pela Catarina Furtado.

Depois da tua licenciatura começaste logo a frequentar um mestrado ?

Depois de terminar a licenciatura em Relações Internacionais decidi tirar um ano para pensar no futuro, viajar, trabalhar e fazer voluntariado.

Antes de partir para Bruxelas fizeste Erasmus em Itália. Que importância teve essa experiência na tua formação?

No segundo ano da licenciatura fiz Erasmus na Universidade de Bolonha, num campus em Forlì, uma pequena cidade da região Emília Romana. Foi, sem dúvida, uma experiência que mudou a minha vida.
Tinha 19 anos e dei por mim sozinha numa cidade desconhecida, rodeada de desconhecidos que falavam uma língua desconhecida e tinham ideias e valores diferentes dos meus. Tive de me desenvencilhar e começar logo a fazer amigos. Aprendi que o sorriso é a melhor arma contra a solidão, que a língua é uma barreira muito mais facilmente ultrapassável do que aquilo que nos parece à primeira vista. Se eu achei complicado, ao início, chegar a Itália a dizer apenas ciao, pizza e lasagna, tendo conseguido comunicar e fazer a minha vida com pessoas que não conheciam uma palavra de inglês,  podes imaginar como terá sido comunicar com iraquianos, sírios e afegãos, e desenvencilharmo-nos para comunicar. Chega ao ponto de eles me contarem a história da sua vida, com os detalhes mais íntimos, e difícil não é só não perceber, é não chorar.
Foi a experiência de Erasmus que me ensinou que todas as adaptações são possíveis, se tiveres vontade e um sorriso na cara.
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Outras viagens e momentos que consideres terem sido importantes no teu percurso? 

Durante o primeiro ano da licenciatura, participei em vários intercâmbios dos programas da União Europeia – Youth in Action e Erasmus+ – experiências que considero muito importantes na minha formação como cidadã do mundo e no desenvolvimento de capacidades de comunicação tal como de contacto com diferentes línguas e culturas. Viajava com um grupo de portugueses (em cada viagem um grupo diferente, o que também implicava personalidades e histórias de vida diferentes) para a Roménia, Turquia, Espanha e Itália, e desenvolvíamos projetos com jovens de todas as nacionalidades. Semanas intensas de trabalho, diversão, descoberta de novos mundos, desenvolvimento de competências, de socialização, comunicação…

Como te veio a ideia de partir para Bruxelas e fazer voluntariado junto de refugiados? 

 

No fim do verão tinha algumas ideias em mente, mas estava ainda sem planos concretos. Nessa altura, quando decidi parar um ano, o meu Facebook enchia-se de comentários ignorantes sobre a crise dos refugiados, o Islão, a guerra na Síria e o terrorismo. As fotografias que nos chegavam pelos meios de comunicação e as notícias constantes de pessoas a morrer no mar e na terra, a serem deixadas à mercê da inospitalidade europeia, tiravam-me o sono. A minha melhor amiga estava de Erasmus em Bruxelas e falou-me de um campo espontâneo de refugiados iraquianos e sírios que se formava num jardim da capital da Europa. Propôs-me que eu viesse ajudar e ofereceu-me alojamento em sua casa. Não pensei muito e marquei um voo de um mês. Entretanto, comecei a escrever para a Visão, logo quando cheguei, crónicas sobre a vida no campo de refugiados e relatos impressionantes das vidas dos homens e mulheres com quem trabalhava todos os dias.

Um ano depois, estou ainda em Bruxelas. Investi muito na causa e não conseguia deixar tudo para trás. Estou a fazer um mestrado em Antropologia na Universidade Livre de Bruxelas e a escrever a minha tese sobre a mobilidade social descendente, utilizando o trabalho de campo na experiência de integração dos refugiados iraquianos e sírios que chegaram a Bruxelas em 2015.

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Ainda escreves para a revista Visão?

Comecei o mestrado, a minha amiga voltou para Portugal e eu tive de arranjar trabalho para pagar o alojamento e os estudos. Trabalho de manhã num restaurante, à tarde faço baby-sitting e continuo o voluntariado na Plateforme Citoyenne de Soutien aux Réfugiés.  Além disso, tenho um namorado, também como e durmo de vez em quando. Por isso, o tempo livre que tenho é muito pouco. Estou agora em época de exames, mas vou tentar voltar a escrever o mais depressa possível. Se não escrevo é por falta de tempo, mas não deixei de ter muitas histórias para contar.

Alguma que queiras partilhar ?

Ainda agora venho do hospital onde está internado um menino de 13 anos que encontrámos a dormir na Gare du Nord. Veio da Eritreia sozinho, atravessou a Europa a pé e foi, por entre vagões de comboios, que estivemos a conversar, com gestos e google tradutor. Contou-me uma história de arrepiar.

Que importância teve poderes não só vivenciar mas também escrever sobre o que tens vivido estes meses?

Escrever para a Visão foi uma experiência incrível. Não foi só facto de estar aqui a ajudar no terreno, mas foi também o poder de aumentar o impacto contando as histórias destas pessoas que não têm voz. Poder desfazer mitos e preconceitos, ignorância e medo do desconhecido, combatendo-os com esclarecimento e palavras de verdade.

Recebeste o prémio “Corações Capazes de Construir” e foste distinguida como jovem promissora na solidariedade pela Notícias Magazine do DN. Que relevância tiveram os reconhecimentos?

Não consigo conter a felicidade que há em mim por ter recebido um tão grande reconhecimento. O prémio foi uma honra para mim e fico muito feliz, principalmente por ver a questão dos refugiados ser destacada no grande debate dos direitos humanos, num momento em que a crise migratória do Mediterrâneo foi quase esquecida pelos meios de comunicação internacionais.

Todo o trabalho de integração que os Estados europeus têm negligenciado está ainda por fazer nesta segunda etapa da “chegada à paz” e tem sido assegurado pelo trabalho exemplar das organizações não governamentais que, por toda a Europa, promovem a adaptação à nova vida dos que fogem da guerra. Acredito que é preciso que todos os cidadãos europeus tomem conhecimento desta realidade. O prémio foi também de todos os refugiados sem voz, pela capacidade de resistência e adaptação a uma Europa que parece não os querer ver. Sem todo o trabalho que fizemos em conjunto, sem as bonitas relações de amizade e confiança que tenho desenvolvido ao longo da minha experiência, nunca teria tido a oportunidade de contar as suas histórias aos portugueses que me puderam ler e enviar, até hoje, tantas mensagens de motivação e carinho.

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É um trabalho que faz parte de uma experiência incrível na minha vida, que mudou a minha forma de ver e sentir o mundo, de pensar e julgar a realidade que me rodeia. Este prémio veio dar-me força para continuar e ainda mais esperança em como está nas nossas mãos fazer a diferença que falta no mundo. Acredito que a divulgação das histórias que conto possa servir de inspiração aos jovens portugueses, tão castigados e desmotivados pela austeridade e pela falta de incentivos que se viveram em Portugal nos últimos anos. E que a realidade dos refugiados seja melhor compreendida por quem me leia.

Projetos futuros?

Projetos futuros…concluir o mestrado, continuar a trabalhar na integração dos refugiados aqui em Bruxelas e voltar a escrever.

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