Gap Year: Porquê?

Quando anunciei pela primeira vez que iria fazer um Gap Year a surpresa foi geral e todos me chamaram louca. O que eles não sabiam era que isto era um plano que eu andava a matutar há mais de um ano.

Toda a minha vida trabalhei com um propósito – Educação de Infância – a profissão que tinhas escolhido aos 5 anos de idade. A escola nunca foi um fardo ou um pesadelo: tinha boas notas, bastantes amigos e, no fundo, sabia que era apenas um passo necessário para chegar onde queria. No momento de escolher o curso, apesar das vozes que adivinhavam o desemprego e que achavam um desperdício alguém com a minha média seguir educação, não houve hesitações. Sempre soube o que queria fazer, não havia quaisquer dúvidas…pelo menos até chegar ao último ano de curso. Foi com a aproximação da realização do que eu achava ser o meu sonho que comecei a questionar-me sobre o futuro.

Estava contente com o meu percurso até então, mas previa acabar o curso com 21 anos e não me via a entrar no mundo do trabalho das 9h às 17h para ficar presa nele o resto da minha vida. Estava a adorar a minha formação, ansiosa por pôr tudo em prática, mas ainda assim sentia que havia ainda tanto a aprender.

Na altura não conhecia ninguém que tivesse feito um Gap Year, na verdade nem sabia ao certo o que isso era; o que sabia é que tinha de haver algo mais, algo diferente. Estava certa – algo que não ocorre com frequência -, que o meu caminho era outro, e por isso, cometi a “loucura” de negar as ofertas de emprego que foram surgindo mesmo sem procurar.

Encontrar o percurso certo não foi fácil: poucos recursos, pouca informação e, acima de tudo, pouco acesso a histórias de sucesso e a alguém que visse o que eu estava a fazer não como uma irresponsabilidade mas como uma mais valia.

Comecei à procura de projectos de voluntariado em África, quase participei no Serviço de Voluntariado Europeu mas acabei como Au Pair nos EUA! E a verdade é que foi a experiência da minha vida. Muitas vezes penso que tudo mudou depois desse Gap Year nos EUA, mas a verdade é que quem mudou fui eu.

Benjamin Franklin Bridge, New Jersey, EUA
Benjamin Franklin Bridge, New Jersey, EUA
Pôr do sol em Washington DC, EUA
Pôr do sol em Washington DC, EUA

As experiências que vivi, as viagens que fiz, as pessoas que conheci e os desafios que enfrentei capacitaram-me de uma forma que nenhuma escola ou universidade poderia ter feito. Foram apenas 13 meses nos EUA, mas durante esse tempo visitei 2 países, 17 estados e 26 cidades, estudei numa universidade americana, visitei destinos de sonho e criei laços para uma vida.

Eu, que mal ia à casa de banho sem companhia, viajei um mês sozinha pelo Hawaii e pela West Coast dos EUA. Eu, que não abria a boca na sala de aula, fiz uma apresentação em inglês para 80 pessoas. Eu, que era super insegura e tremia sempre nas alturas de testes, tive a nota máxima na cadeira de psicologia que fiz numa universidade em Boston. Eu, que sempre achara que o meu sonho era trabalhar num infantário… descobri que isso já não era suficiente.

Los Angeles, EUA
Los Angeles, EUA

As mudanças não aconteceram de um dia para o outro; aliás, acho que só com o tempo é que nos apercebemos delas. Quando regressei a Portugal, estava super entusiasmada com a oportunidade de finalmente partilhar a minha experiência, mas a verdade é que me engasgava sempre que me perguntavam como tinha sido, porque era impossível resumir tudo o que eu tinha vivido em duas ou três frases. Não sabia sequer por onde começar. Era difícil, mesmo para mim, ter algum distanciamento e perceber o quando tinha aprendido, vivido e mudado em apenas um ano. Só com o tempo é que, pouco a pouco, me fui apercebendo que já não era a mesma miúda de há um ano.  Claro que o fundamental não tinha mudado, os valores mantinham-se e as paixões também mas havia um novo potencial que havia sido descoberto.

Concerto no Memorial Day, Washington DC, EUA
Concerto no Memorial Day, Washington DC, EUA

Antes mesmo de terminar o meu Gap Year percebi que, por muito que amasse o trabalho com crianças, uma sala de aula seria muito limitadora para mim, pelo menos durante os próximos 10 anos! Continuava a querer ser Educadora, mas agora sabia que havia outras formas de fazê-lo, e mais importante, estava um bocadinho mais confiante de conseguir encontrá-las.

Esse ano acabou por ser apenas o começo, porque depois do Gap Year nos EUA veio um Gap Year de voluntariado na Polónia, e o sonho de chegar a África ainda se mantém. Na verdade, às vezes sinto que vivo num Gap Year constante, mas não mudava nada.

O segundo Gap Year, voluntariado na Polónia, em circunstâncias e com desafios  totalmente diferentes, permitiu-me novamente que continuasse a crescer e a desenvolver-me a vários níveis. Depois dessas experiências surgiram novas oportunidades profissionais em áreas que nunca tinha imaginado experimentar, projectos inesperados e parcerias surpreendentes.

Central Park, New York City, EUA
Central Park, New York City, EUA

Os meus Gap Years permitiram-me conhecer mais um pedacinho do mundo e das suas imensas culturas e particularidades, aprender a dar mais valor àquilo que é português, coisas tão simples e que muitas vezes tomamos como certas, tornar-me mais independente e confiante, e acima de tudo a perceber que há coisas que temos de fazer por nós mesmos, decisões que não podemos deixar que ninguém tome por nós e medos que vale a pena enfrentar!

Portugal está a caminhar para a mudança, mas ainda há muitas vozes em discordância, pessoas que não percebem o valor destas experiências. Pois eu digo não hesitem. Para muitos pode até ter parecido que depois do Gap Year perdi o meu foco, mas a verdade é foi a partir daí que fiquei mais focada que nunca.

 

Fi Ferreira

Licenciada em Educação de Infância e apaixonada por viagens, escrita e basketball. O seu sonho é aliar o trabalho social e com crianças ao mundo das viagens e interculturalidade. Depois de um ano fantástico nos USA como Au Pair e uma experiência de SVE única na Polónia, decidiu criar o Mundo Inseparável Associação, a sua própria ONG que promove educação não formal e oportunidade de intercâmbio.

Gapyear

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