6 meses na América do Sul: o início

Há uns meses, a Nova SBE lançou um concurso. O prémio? Uma bolsa de 5000€ para fazer um gap year e implementar um projeto de impacto social. Heloísa Dias foi a vencedora e, em setembro, começou a sua aventura de seis meses pela América do Sul. Queres saber como tem corrido a sua viagem? Continua a ler!

Como surgiu esta vontade de colocar a mochila às costas e “parar” um ano?

Na altura em que a Nova SBE lançou o concurso, eu tinha acabado de regressar de intercâmbio. Estava sem planos para depois da licenciatura e com imensa vontade de ter uma experiência que fosse diferente das habituais aulas ou dos trabalhos rotineiros, e que fosse noutro país. A princípio achei que não teria estofo para pensar num projeto social “do nada” e viajar sozinha, mas falando com amigos e familiares percebi que era uma oportunidade única que devia aproveitar.

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Boulevard Olímpico, Rio de Janeiro

Porquê a América do Sul? 

Já há muito tempo que tinha vontade de conhecer bem a América do Sul. E achei que se adequava a um gap year, pois era uma oportunidade de ganhar fluência em Espanhol e, ao mesmo tempo, as minhas bases nesta língua permitiriam que o meu trabalho voluntário tivesse mais impacto. O que, até agora, felizmente, tem-se verificado. Tenho conseguido praticar muito o idioma, e o facto de conseguir comunica sem dificuldades com as pessoas nas organizações permite-me fazer mais atividades.

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Na chegada ao Equador

Brasil, Colômbia, Equador, Perú, Bolívia, Chile e Argentina – é este o teu roteiro. Alguns deles já visitaste, mas qual o país que te deixava, ou deixa, mais expectante? 

A princípio, a minha maior curiosidade era a Colômbia. Pelos relatos, pelo que sabia da cultura e da história do país, tinha muita vontade de conhecer. Infelizmente só passei dez dias na Colômbia. Deu para matar a curiosidade mas não foi suficiente para conhecer tanto da cultura como gostaria… Isso ficará para outra viagem. Agora, acabei de chegar ao Perú e posso dizer que estes primeiros dias elevaram as minhas expectativas. Pela diversidade de paisagens, pela gastronomia e pelo equilíbrio entre a cultura local e a cultura ocidental. Além disso, o projeto de voluntariado aqui vai ser um grande desafio e isso também me deixa expectante.

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Lima

Programas de voluntariado, estágio num hostel e job shadowing. Queres explicar um pouco melhor o teu plano e o que tens feito durante o teu gap year?

Estou a sensivelmente um terço da viagem e já cumpri um dos projetos que tinha planeado, que era o voluntariado no Equador, onde estive a colaborar com uma fundação que trabalha com associações de mulheres indígenas para ajudá-las a desenvolver as suas atividades comerciais. Foi uma experiência muito diferente de tudo aquilo que já havia feito, e bastante interessante. Agora no Perú vou ficar mais uma temporada a trabalhar numa fundação que dá apoio educativo a crianças e a ideia é que, para além de ajudá-los com os seus projetos, eu ensine literacia financeira aos jovens (isto é, conceitos básicos de economia para o dia-a-dia). No resto da viagem, pretendo passar algum tempo trabalhar num hostel, em troca de alojamento, e gostaria também de fazer job shadowing, ou idealmente ter uma experiência profissional relacionada com a minha área de estudos.

A Associação Gap Year Portugal acredita que uma experiência de voluntariado é uma das coisas mais importantes de um ano de intervalo. Sei que já estiveste no Equador e no Perú em programas de voluntariado. O que é que sentes que ganhaste e aprendeste com experiências como estas? 

Acabo de chegar ao Perú e há uma semana ainda estava no Equador a fazer voluntariado. Sobre o voluntariado aqui em Cusco ainda não posso dizer nada, além de que estou muito curiosa e expectante para iniciar. Mas a experiência no Equador foi, sem dúvida, muito enriquecedora, por ser um projeto tão diferente de tudo o que fiz e vi em Portugal. O trabalho era com uma comunidade rural, onde eu própria vivia, e aí havia um estilo de vida muito particular e ideais diferentes. Buscam muito ser auto-sustentáveis (quase tudo o que comem é produzido por eles mesmos, por exemplo) e vivem num grande espírito de solidariedade, o que se traduz num quotidiano extremamente diferente daquele que vivia em Lisboa. Por outro lado, foi muito bom sentir que pude ajudar no banco comunitário e espero que o trabalho que desenvolvi não se perca e facilite os processos no futuro. Em geral, sinto que ganhei e aprendi muito com a experiência. Mas, talvez por ser tão recente, ainda é um pouco difícil traduzir em palavras objetivas.

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Mindo, Equador

“Um dos objetivos deste Gap Year, era sair da zona de conforto. Estou agora no meio de montanhas, com temperaturas baixas, sem wi-fi em casa (por mais fútil que isso soe) e fisicamente distante de todas as pessoas que amo”.  Isto foi algo que mencionaste no teu blog. Sentes que o objetivo de saíres da tua zona de conforto está a ser cumprido?

Sim, escrevi isso poucos dias após chegar ao Equador e acho que essa frase resume bem parte do que foi estar fora da zona de conforto. Por outro lado, a forma de interação entre as pessoas e a diferença de valores e ideais com que me deparei foram aspetos que levei mais tempo a me aperceber mas que também me colocaram fora da zona de conforto. Isto porque zona de conforto também é estarmos rodeados de pessoas que pensam como nós, e viver numa rotina em que as decisões já estão mecanizadas. E nesta viagem, a cada dia vivo situações que me fazem sair da zona de conforto, quer seja pela interação com as pessoas, quer seja pelo simples facto de serem eventos inesperados. Mas quando ultrapasso essas situações sinto-me muito orgulhosa e feliz por estar a viver esta experiência.

Que vantagens é que achas que esta pausa te trará a nível pessoal e profissional?

Por um lado, estar sempre a lidar e a contornar situações tão diferentes e algumas stressantes faz com que me sinta mais confiante agora do que era há um ano. Por outro, tenho passado mais tempo sozinha a observar e refletir, o que me permite mais autoconhecimento. E, acima de tudo isso, vai ser gratificante saber que cumpri um objetivo e concretizei algo que, no início, achei que não seria capaz de cumprir.

A nível profissional, acho que os aspetos que mencionei também se traduzirão em vantagens. Mas, de um modo mais objetivo, melhorei a capacidade de trabalho em equipa, os meus conhecimentos de espanhol e possuo um maior entendimento da cultura e da história destes países, o que também pode ser uma vantagem no futuro.

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Mitad Del Mundo, Quito

O que tem sido mais desafiante nestes dois primeiros meses de viagem?

Nas primeiras semanas, o mais desafiante foi passar tanto tempo sozinha e ter tantas pequenas responsabilidades – tratar dos voos, das estadias, averiguar as trajetórias. Tudo isso eram coisas pequenas mas importantes, que eu nunca tinha feito mas que tive de fazer porque não havia ninguém para as fazer por mim.

No Equador, o mais desafiante foi a diferença no ambiente, a diferença de mentalidade. Perceber que coisas óbvias para mim, naquele contexto não faziam tanto sentido. Isso obrigou-me a tentar ver tudo por outros pontos de vista, a ver beleza e interesse em coisas que antes não me diziam muito.

Nota: A entrevista foi realizada no dia 4 de novembro.

Podes acompanhar o resto da viagem em: http://heloisadias8.wixsite.com/helofromtheotherside

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