Europa: Interrail gratuito depende da “boa vontade” de terceiros

A notícia foi recebida com entusiasmo, no entanto ideia permanece agarrada ao papel. O Parlamento Europeu discutiu, no passado dia 3 de outubro, a atribuição de um passe de interrail na Europa a todos os jovens cidadãos europeus que completassem 18 anos de idade.

O plano seria arrancar com a iniciativa já em 2017, mas a medida está “dependente da boa vontade dos estados membro e das companhias de transporte, que terão de se associar a esta iniciativa, promovendo descontos para este objetivo”, explica o eurodeputado José Manuel Fernandes, à Associação Gap Year Portugal (AGYP).

A definição da companhia de transportes responsável pela distribuição dos passes de interrail, caso a medida seja aprovada, ficará ao critério dos estados membro da comissão europeia. Isto quer dizer que “o facto de a Comboios Portugal (CP) ser a responsável pela venda dos passes de interrail [em Portugal] não significa que seja ela a assegurar a atribuição dos passes gratuitos”, explica o eurodeputado, antes de indicar o Instituto Português do Desporto e Juventude como uma das hipóteses para efectivar o compromisso.

Questionada pela AGYP a propósito desta tomada de posição, a CP “não tem quaisquer comentários a fazer”, informa Bruno Martins, membro do gabinete de comunicação.

O interrail é, para muitos jovens, a primeira grande experiência em viagens. Segundo dados fornecidos pela CP à AGYP, foram vendidos na Europa cerca de 250 mil passes de interrail, em 2015, dos quais 2500 em Portugal. Já no período de janeiro a agosto de 2016, cerca 200 mil jovens europeus viajaram através do mesmo programa, sendo que 1700 adquiriram o passe em Portugal. Os jovens com menos de 26 anos representam 74% das vendas registadas pela companhia portuguesa.

A relação entre o custo do bilhete e mobilidade que confere aos seus utilizadores faz deste um modelo apetecível para quem pretende descobrir os trilhos europeus. Os preços variam entre 200 e 480 euros, em 2ª classe, para jovens até 25 anos, inclusive. A lista de destinos estende-se até aos 30 países

Responsável por definir o orçamento da proposta, José Manuel Fernandes estima a medida terá um “impacto de 1,5 milhões de euros”. O eurodeputado não garante, ainda assim, que será este o montante que sairá efetivamente do orçamento, pois o impacto nas contas europeias está dependente no “número de estados aderentes e dos compromissos com as entidades de transportes”.

Com a ideia a fermentar nos gabinetes europeus, José Manuel Fernandes revela-se otimista quanto à sua aprovação e esclarece que “o passe gratuito não vai ter com o jovem. Terá de ser este a manifestar interesse e inscrever-se para o receber”, rejeitando assim a ideia de que estes títulos serão sujeitos a sorteio.

Recorde-se que a proposta foi apresentada em plenário da CE pelo líder do Partido Popular Europeu (PPD), o alemão Manfred Weber. Ao jornal espanhol El Mundo, Weber afirmou que “a União Europeia deve dar-lhes [aos jovens] meios para descobrir quem são os seus vizinhos e que oportunidades podem proporcionar-lhes outros Estados membros”. Já José Manuel Fernandes sublinhou que “a juventude tem de ser a prioridade da UE, desde logo na defesa dos seus valores”.

Esta proposta surge numa altura em que a União Europeia vive uma crise de valores, que junta em pano de fundo a crises como a dos refugiados, a fomentação de movimentos de extrema-direita e a saída do Reino Unido da comunidade europeia, num processo designado ‘Brexit’.