Erasmus: 1º dia, 1ª semana, 1º mês

Não vou dizer que fazer intercâmbio sempre foi um sonho desde que comecei a estudar pois não o era. Nunca tinha pensado muito nisso. Quando entrei no secundário ir estudar para o Reino Unido era uma ideia que me vinha à cabeça de tempo a tempo, mas não era nada que considerasse indispensável. Depressa isso acabou por mudar; comecei a sair mais da minha zona de conforto, a dormir em sofás, a apanhar aviões, a aborrecer-me por estar demasiado tempo no mesmo canto. Erasmus começou a fazer mais e mais sentido. Não sabia para onde, mas sabia que queria partir. Acabada de entrar no ensino superior pela segunda vez, Barcelona era o destino que me fazia sonhar. No segundo ano, a tempo das candidaturas para o intercâmbio, Berlim chamava-me. Acabei por saber que a escola não tinha nenhum acordo para o meu curso nessa cidade e as minhas três opções finais resumiram-se a Ljubljana, Tallinn e Brnö.

1º Dia

Com voo às 8h e morando a 2h de distância de Lisboa, o despertador marcou-se para bem cedo. Mas, no final de contas, nem foi necessário. Não preguei olho durante toda a noite, os medos que ocasionalmente me vieram à cabeça nos últimos meses decidiram juntar-se e dar uma festa. Na semana anterior ao meu voo, a Alemanha parecia ter virado alvo principal de ataques terroristas e a minha ligação no aeroporto de Frankfurt (um dos maiores do mundo) deixava-me tudo menos descansada. Juntava-se a isso o medo de poder ter uma companheira de quarto horrível, de as pessoas serem tão rudes como li algures, de ir sozinha e acabar por não me dar bem com ninguém, de ir para uma cidade que há uns meses nem sabia que existia. Ah e claro, o típico “e se o avião cai”. Mas aí lembrei-me das palavras que ficaram comigo quando partilhei o meu medo com outras pessoas. “Estás com medo? Só se for medo de cá ficar!”

Não estava especialmente feliz: Ljubljana era o destino que já tinha como certo, o que me agradava imenso especialmente porque é baratíssimo viajar para qualquer lado a partir dali. Quando abri o e-mail com a colocação, fiquei triste, vi todas as minhas viagens ir por água abaixo. Mas não era isso que me iria fazer desistir; Tallinn estava à minha espera.

Com a ajuda do pessoal da AGYP, consegui arranjar um sofá para dormir na primeira noite (o dormitório só abria no dia seguinte às 13h). Cheguei ao aeroporto, perdi-me à procura da bagagem, encontrei-a, apanhei um táxi – curiosamente, muito mais barato e eficaz que em Lisboa – e quando dei por isso já estava na casa da Gerit, a rapariga que me acolheu. O primeiro preconceito caiu por terra (afinal as pessoas não são assim tão rudes!). Sendo uma viajante e tendo feito já Erasmus também, ela tinha imensas histórias; falámos, ela respondeu a todas as minhas dúvidas e partilhou comigo os pequenos detalhes da cultura da Estónia. Ouvi-a falar ao telefone e, digo-vos, a semelhança do estónio com o japonês é imensa… não percebi patavina. O cansaço não me deixou ter tempo para ansiedades, nem o sol que teimava não se pôr às 23h me impediu de dormir que nem uma pedra. E ainda bem; no dia seguinte iam começar três semanas sempre a mexer.

anoitecer às 22h30
a minha casa por uma noite

1ª Semana

Na segunda-feira foi tempo de levar toda a tralha para o dormitório, conhecer aquela que seria a minha casa para o próximo mês e a minha colega de quarto da Costa Rica, Natália. A rapariga que na minha cabeça iria ser um pesadelo rapidamente foi substituída por outra que me aconselhou documentários, proporcionou conversas sérias e outras não tão sérias, cozinhou molhos, me ajudou nas compras e a perder o medo de estar pela primeira vez, em largos anos, a dividir quarto. Comecei o curso de Língua e Cultura Estónias, que me foi proporcionado pela Universidade (a custo 0!), com uma professora estónia fantástica que, no auge dos seus 70 anos, nos mostrou a cidade como nunca a teriamos visto se não a tivessemos conhecido. Desde almoços no quintal dela, passeios de bicicleta, até a comer batatas cozidas em discotecas russas, a Vilma mostrou-nos uma cidade escondida debaixo do nosso nariz. Na primeira semana visitámos também a cidade costeira de Pärnu, onde decorria um festival de artes e onde não parou de chover (o que parece ser a norma nos festivais).

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o dormitório, Muusa Majutus
aprender estónio
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Pärnu
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Pärnu
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Pärnu

 

1º Mês

O curso continuou e com ele continuaram as visitas e as descobertas. Keila-Joa relaxou-nos com os seus campos verdes e cascatas, perfilámos a costa de Tallinn em duas rodas, começámos a descobrir recantos e viver como se fôssemos daqui. O mês dividiu-se em aulas do curso, mergulhos no Mar Báltico – curiosamente mais quente que o nosso oceano – piqueniques, deambulares pela cidade, cervejas em parques à uma da manhã com boa soundtrack e outros mil planos que surgem quando aprendes a dizer “sim” mesmo quando os teus pés te suplicam para ficar em casa. A meio do mês, começo a raciocinar mais em inglês que em português – num mês inteiro só conheci um tuga que estava de passagem por aqui. O estónio deixou de parecer tão japonês (embora a parecença continue quando se ouvem os “mimimis”) e a senhora que anuncia as estações de elétrico começou a fazer um pouquinho mais de sentido. As paragens já estão na cabeça e os caminhos já parece que os percorremos há anos. Comecei esta semana as aulas e soube no momento em que me sentei na primeira aula o porquê de vir aqui parar. Estar numa sala de cinema a falar sobre história do cinema enquanto vemos pequenos clipes deixa-me arrepiada (sim, a minha escola tem uma sala de cinema, para além de um menu vegetariano de comer e chorar por mais. não, não vou parar de falar disto porque quão fixe é?). Se Ljiubljana estava na lista pelas viagens, Tallinn apareceu lá precisamente pela universidade. E, embora amigos meus me tenham dito que a escola foi a última razão pela qual escolheram a cidade dos seus Erasmus, sinto que vai ser uma das razões que mais me vai deixar feliz com a minha escolha.

 

 

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o menu vegetariano da escola a dar 10 a 0 ao da minha escola
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Keila-Joa
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Keila-Joa
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Keila-Joa
piqueniques na praia de Kadriorg
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descobrir Tallinn em duas rodas
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descobrir Tallinn em duas rodas
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os quase fluentes em estónio ao fim de três semanas
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russian disco

Após um mês no dormitório (de onde tive de sair pois o mesmo é para estudantes da Academia de Artes, onde realizei o curso de línguas), encontrei casa com outras três raparigas (duas espanholas e uma ucraniana), a cinco minutos a pé do centro da cidade e com elétrico para a universidade mesmo à porta. Depois de uma semana para descansar, a “típica” vida de Erasmus começou: os eventos para estudantes internacionais multiplicam-se e as festas são mais que muitas, aliando-se a isto um horário de aulas bastante mais preenchido do que estava à espera. Dá para sentir que estes cinco meses vão ser obra.

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a vista do meu quarto
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mis chicas no jantar inaugural da nova casa

A cidade que me parecia um prémio de consolação no início, ganhou rapidamente um lugar no meu coração. Mesmo com o seu tempo inconstante, mesmo com a falta de alho em pó e comida vegetariana, mesmo com a lentidão geral, mesmo com o seu humor inconveniente, mesmo com a sua insistência em ser pontual e as suas noites que começam demasiado cedo, Tallinn surpreendeu-me como nunca pensei. Uma cidade muito maior, muito mais viva e muito mais cultural do que esperava. Uma cidade que sai à rua para beber uma cerveja em todos os pôr-do-sol, que é incapaz de ficar em casa quando o sol brilha (por pouco que seja). Uma cidade que sabe fazer valer os momentos que parecem insignificantes à primeira vista, uma cidade que é orgulhosa de si mesma, até nas suas coisas mais pequenas. Uma cidade que me recebeu de braços abertos com a hospitalidade genuína de um estónio que mal te conheceu já te convida a fazer da sua casa, tua (mesmo que com poucas palavras). Sabe tão bem encontrar uma casa a quase 4000km de casa. Mal posso esperar pelas experiências que os próximos quatro meses me irão trazer.

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Head aega!