Ao primeiro mês no Uruguai

A uma experiência de intercâmbio, tão distinta e pessoal como qualquer outra, com a diferença de que esta se passa no Uruguai, um destino bastante desconhecido e peculiar.

 Desde que entrei para a universidade que sonhava com o dia em que faria Erasmus. Não porque queria um escape à minha vida de estudante em Portugal, porque escapes, esses tenho-os durante todo o ano, mas sim porque queria viver essa experiência que todos contavam tão intensa. Os destinos foram surgindo ao longo dos anos de curso. Praga e Valparaíso, no Chile foram os prediletos durante muito tempo. Com o tempo, a América do sul parecia cada vez mais o destino de eleição e no final, um pouco pelo acaso da vida (e das médias de faculdade!) este país calhou-me na rifa. Sim, calhou-me, nunca direi que o escolhi porque creio que foi ele que me escolheu- deixem-me acreditar nisso!! Vim sozinha (sim, cá estou, em Montevideo), com uma mala de 15 quilos no porão e a mochila de campismo às costas, pronta para viver o melhor ano da minha vida. Vim sem bilhete de regresso a casa e com poucas expectativas sobre a cidade e o país. Vim sem tempo para regressar, sem tempo fixo digo. A data de regresso tem o seu limite a Setembro de 2017, até lá, quem sabe… Sabia que ia ser incrível, acredito que qualquer experiência do género o é quando se vai de mente aberta, mas vinha preparada para o frio do inverno e para a monotonia da cidade.

Pois está claro que me enganei. Levo pouco mais de um mês neste país e ele já ocupa um lugar bem grande dentro de mim. Sempre soube que queria vir de intercâmbio sozinha, sem conhecer ninguém porque sei que me desenrasco melhor assim. A verdade é que poucas vezes me senti sozinha, acho que só nos primeiros instantes em que pisei solo uruguaio é que a solidão me abraçou. Não durou muito!! Aqueles instantes gélidos do dia 1 de agosto, saindo do aeroporto, depois de uma noite (não) dormida no aeroporto de São Paulo, esperando um autocarro que parasse tempo suficiente para eu conseguir entrar, foram dos piores minutos da minha vida. Não sou de me ir abaixo, não, mas estar sozinha, sem dormir, com 10 graus (naquele tempo em que deveria estar a disfrutar do meu verão em Portugal), e arrancarem sem mim no autocarro que me levaria ao hostel, foi o gatilho para as minhas lágrimas disfarçadas! Acho que pus o pé esquerdo na estrada  primeiro nesse dia!! Umas gotas de água que depressa se dissolveram com o frio e com a amabilidade dos uruguaios. Depois, um hostel amigável, uma lareira acesa e amigos que ficaram para a vida.

A procura de casa foi algo intensa, e valeu-me umas quantas bolhas nos pés, alguns amigos novos e o descobrir de uma cidade que desde o início me conquistou. A faculdade surpreendeu-me e rendi-me completamente, à sua aura, à sua arquitetura, à sua liberdade…estou à espera de ver como acaba a história!!

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O que contar mais sobre uma cidade que à primeira vista parece não ter grande coisa para oferecer mas na qual vais descobrindo surpresas em cada recanto. Esta cidade que me recebeu com um frio de rachar, me apresentou o inverno na américa do sul e que me fez correr para a primeira loja a comprar umas luvas mal chegada.

Uma cidade tipicamente espanhola arquitetonicamente, como eu faço questão de dizer àqueles amigos deste lado do mundo que nunca foram a espanha. Uma cidade de ruas intermináveis com as árvores despidas (continua inverno aqui!). Essas ruas que já conheço de palmo a palmo. Uma cidade onde numa caminhada às 5 da manhã, me sinto mais segura que no Porto às 10 da noite. Uma cidade onde estão sempre dispostos a correr atrás de ti, sempre que perdes alguma coisa no meio da rua. Uma cidade que te apresenta a pessoas incríveis, onde a cidadania é exemplar. Uma cidade que te apresentou ao mate, essa bebida tão amarga mas que te aquece a alma, como um chá forte sem açúcar. Uma cidade em que te recebem em suas casas, de lareira acesa e ouvidos atentos ao que tens para contar.

Como descrever esta cidade em que podes encontrar, no interminável caminho para casa, às 4 da manhã, dois pares dançando tango no meio da rua. A música escuta-se desde muito longe,  no início é só um sussurrar, que te faz buscar por detrás de inúmeras portas pelas ruas vazias e, logo depois, começa a ouvir-se um som, distinto, algures muito próximo. Até que, ao virar da esquina, aí está, esse cenário tão puro no meio da imensidão de uma cidade deserta. Quase te sentes culpada por estares a interromper esse momento, tão mágico, e inesquecível, também para ti que és meramente um espectador. Passas ao lado, escutando silenciosamente,  com medo de quebrar a magia desse instante tão puro.

E esta cidade, este país, continua a surpreender-te a cada dia que passa. Até aos atrasos das gentes já te habituaste, porque eles fazem parte desta cultura. Uma cultura que defende o aproveitar o momento, e é a ela que te tens de render, tu, uma europeia que planeia todos os instantes. E essa cultura do momento também te ensina algo, ensina-te que há outras formas de viver, que a pressa não faz bem a ninguém, que parares e disfrutares daquilo que vai surgindo também é um bom lema, para algum tempo da tua vida…

E este país onde a educação é gratuita e entendem a necessidade que é crescer ao teu próprio ritmo continua a apaixonar-te. Onde não te “forçam” a terminar um mestrado com 22 anos e ir buscar trabalho porque foi para isso que tiraste o curso. Porque se trabalha, se viaja, se vive, se aproveita a vida e todas as possibilidades que vão aparecendo pelo caminho. Porque fazer um curso de arquitetura em 10 anos e a meio uma viagem à volta do mundo é um costume e uma tradição de muitos.

Como não te apaixonares por uma cidade que te dá feiras e mercados todos os dias, com pessoas tão peculiares em cada lugar, com inúmeros alfarrabistas onde encontras aquele livro que buscavas há muito a 30 cêntimos. E em cada paragem de autocarros, contrastando com a fila que se faz ordeiramente (nada como em Portugal, diga-se!) está sempre alguém, com uma guitarra, animando a tua passagem.

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E até ao espanhol já te rendeste, ao espanhol daqui- o uruguayo (com as suas muitas particularidades), ao espanhol dos amigos mexicanos, colombianos, chilenos, argentinos, paraguayos….! Rendeste-te às pessoas, à música, (ai a música!!), ao candombe, aos parques, ao frio, ao ambiente, ao mar que se sente como mar mas não cheira ao mar da tua Viana do Castelo. Até os preços exorbitantes do supermercado já sabes contornar com as idas frequentes aos mercados. E já tens hábitos, rotinas, coisas e pessoas que te acompanham… e novas que aparecem todos os dias. Porque estás de intercâmbio e tudo é novidade… e ainda agora começaste e em três meses vais começar outra viagem. Que não será melhor, nem pior, apenas outra. Apenas de outra cor, outros destinos, outras pessoas….

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E quem diria que uma última opção se tornaria a experiência de uma vida, de uma vida que já viu muitos lugares mas que procura inscessantemente pelo novo…e este novo, tão longe de casa, dá-te alento para o que vem, porque os dias vão ficar maiores e finalmente terás o teu verão

E, pela primeira vez, os teus anos em Dezembro serão passados numa praia qualquer, sob o sol do verão…como sempre quiseste!

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