Comunicação: Além da língua

A primeira vez que pensei fazer um Gap Year uma das coisas que me questionava era como me conseguiria adaptar a um país com uma língua desconhecida. Aliás, um dos grandes factores que me levou a optar por fazer primeiro o programa Au Pair (nos EUA) em vez do SVE (na altura na Lituânia ou na Grécia) foi a questão linguística.

Estava certa que fazer um Gap Year era um passo que queria dar, mas com tantos medos e receios que já tinha achei que seria mais fácil se começasse por um país cuja língua conseguisse entender.

O meu ano como Au Pair será sempre um período de eleição da minha vida, pois foi a minha primeira experiência como gapper e porque foi depois dessa aventura que ganhei coragem para outros desafios, nomeadamente um SVE na Polónia durante 7 meses. E se no meu ano como Au Pair desenvolvi imenso o meu inglês, foi com a minha experiência de SVE que descobri a magia da comunicação não-verbal.

Não vou mentir, ao início é assustador, porque realmente não percebes absolutamente nada! As pessoas até são simpáticas, falam mais alto, mais devagar, mas a verdade é que pouco importa, pois tudo soa tão estranho, tão diferente. Tarefas simples como ir ao supermercado ou carregar o saldo do telemóvel tornam-se verdadeiras aventuras, principalmente se como eu ficares numa pequena cidade onde poucos falam inglês. Mais desafiador ainda é ter de desenvolver actividades e workshops interculturais de 2 e 3 horas para a população local, sem acesso a tradutor.

A organização em que eu estava inserida dinamizava actividades para crianças (a partir dos 2 anos de idade), jovens e adultos tanto em escolas como na biblioteca local. Nas escolas secundárias geralmente tinha a sorte de ser recebida pelos professores de inglês, o que facilitava, mas nos restantes espaços raramente quem me recebia entendia inglês, o que dificultava não só a actividade em si mas todo o processo que antecedia, organização, materiais, definição de horários, etc.

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Numa das minhas primeiras visitas a uma escola primária, estava sozinha no ginásio com um grupo de 20 crianças e decidi jogar à apanhada (por ser um jogo simples). Contudo, depressa percebi que não sabendo nenhuma palavra em polaco e sem ter quem me ajudasse a exemplificar, explicar o jogo às crianças era mais difícil do que parecia.

Hoje em dia estamos tão habituados ao inglês ser uma língua universal que é fácil ficarmos frustrados quando alguém não percebe uma única palavra nesta língua, mas a verdade é que quando visitamos um país seja enquanto voluntários ou turistas, não devemos simplesmente esperar que eles falem uma língua que conheçamos. Somos nós, que vimos de fora, que temos de procurar alternativas de adaptação, e pela minha experiência, quando nós abrimos essa porta e mostramos vontade e disponibilidade para comunicar as pessoas à nossa volta estarão também mais dispostas a abrir-se pois reconhecem o nosso esforço.

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Para mim esta transição acabou por ser natural porque simplesmente não havia alternativa. Muitas vezes chegava às escolas ou à biblioteca e era apenas eu e as crianças, por isso através de tentativa-erro fui descobrindo diferentes formas de comunicar. Na verdade, se ao inicio ter um grupo de 30 crianças à minha responsabilidade sem qualquer tradutor parecia assustador, depressa me apercebi que preferia isso a ter a presença dos pais/professores/educadores, que muitas vezes limitam as crianças traduzindo (ou tentando traduzir, às vezes até de forma errada) tudo o que era dito. Eu percebo que apenas queriam ajudar, mas o mais importante não é que a criança entenda tudo o que é dito, mas que vá tendo contacto com outra língua de forma natural e que também ela descubra outras formas de comunicar.

Quando regressei à Polónia para apoiar os novos voluntários internacionais, estes ficaram impressionados quando me viram a interagir com as crianças pois acharam que eu era fluente em polaco, mas não é verdade. Muitas vezes quando as crianças me abordam eu não percebo o que elas dizem, ou percebo apenas pequenas partes, mas sorrio e digo algo simpático (que elas talvez também não percebam), e isso é suficiente para encoraja-las a comunicar. O mesmo se passa com os adultos, ou com as senhoras da universidade da terceira idade que me param na rua e me abraçam enquanto falam a 1000 à hora em polaco. O que interessa nem sempre é perceber o conteúdo das palavras, mas a intenção e a emoção que carregam. Mais do que entender o que dizem, o importante é criar uma ligação com as pessoas.

Durante o campo de férias, com mais de 60 crianças e 15 voluntários internacionais, deparámo-nos com um problema. Uma vez que havia voluntários polacos que falavam inglês, em vez de interagirem directamente com as crianças, muitos dos voluntários internacionais estavam dependentes da presença de um tradutor. Numa tentativa de lhes provar que uma língua comum não era necessária, uma manhã, a coordenadora polaca reuniu todas as crianças e voluntários no ginásio e iniciou uma pequena actividade utilizando apenas uma linguagem imaginária que tinha acabado de inventar. As crianças sem hesitação entraram na brincadeira, enquanto os voluntários em pânico e completamente perdidos perguntavam “Fi, Fi, que língua é esta??”.

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A verdade é que enquanto adultos temos tendência a complicar demasiado as coisas. A minha família e amigos em Portugal perguntavam-me como era possível fazer todas as actividades que fazia com as crianças, se elas tão pequenas não falavam inglês. Mas a realidade é que a faixa etária mais nova era a mais fácil de trabalhar, pois as crianças não deixam que a língua as limite. São capazes de estar horas a conversar comigo mesmo sabendo que não entendo, e estão sempre tão abertas a tudo, que rapidamente percebem o que fazer em cada actividade ou jogo. Com os adolescentes e adultos às vezes a barreira é maior pois mesmo que percebam algum inglês têm mais receio de cometer erros ou não perceber tudo.

Há uns meses trouxe a Portugal um grupo de três animadores internacionais (Polónia, Reino Unido e Itália) e convidei-os a fazer actividades num ATL local com crianças de 6-8 anos. No final do dia um dos pais perguntava à filha como tinha corrido a actividade o que tinham feito:

Criança – Correu bem. Brincámos e fizemos jogos.

Pai – Então mas tu percebias o que eles diziam?

C – Não…

P – Então como é que sabias o que tinhas de fazer?

C – Olha… não sei, mas eu sabia!

E é verdade, ela sabia! E participou em todos os jogos sem sequer perceber que a ausência de uma língua comum podia ser um problema.

Viver por um período prolongado num país onde não dominamos a língua é um verdadeiro desafio, pois estamos tão habituados a utilizar a linguagem falada, que quando esta ferramenta se torna inútil nos sentimos completamente perdidos. Contudo, com o tempo, e muitas experiências vamos descobrindo outras formas de comunicar, e percebendo que quando há interesse, independentemente da geração, passado ou meio social, não há limites para a comunicação.

Por Fi Ferreira: “Licenciada em Educação de Infância e apaixonada por viagens, escrita e basketball. O seu sonho é aliar o trabalho social e com crianças ao mundo das viagens e interculturalidade. Depois de um ano fantástico nos USA como Au Pair e uma experiência de SVE única na Polónia decidiu criar o Mundo Inseparável Associação, a sua própria ONG que promove educação não formal e oportunidade de intercâmbio.”

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