Uma volta pela Europa à boleia: A viagem May 13, 2016 gapyear Mais Recentes Leave a comment Depois de ter escolhido o seu companheiro de viagem e de ter arranjado fundos para a viagem estava na hora de partir. 57 anos depois, António Valadas, director da Multiway, recorda a viagem que fez para visitar os seus amigos europeus que conheceu em 1957. A viagem Era a primeira vez na vida que ia pedir uma boleia e para começar tinha logo decidido dar uma volta à Europa, à Europa que era possível naquele tempo, numa altura em que os países do chamado Bloco de Leste nos eram inacessíveis. O plano que tinha elaborado contemplava ir visitar jovens que eu tinha conhecido durante o meu “ano americano”. Expliquei ao Rui, meu companheiro de viagem, qual era a ideia. Para ele, que apenas queria ir também, era indiferente. Fizemos uma concessão aos nossos pais, que não acreditavam muito que conseguíssemos fazer o que pretendíamos. Aceitámos que nos oferecessem a viagem de comboio de Lisboa a Madrid. A partir daí começava a aventura. Madrid, Espanha Naquela altura era muito pouco vulgar haver gente à boleia na Península Ibérica. Só a partir de França é que a prática começava a ser conhecida. Atravessar Espanha à boleia foi difícil. Havia poucos carros e os que passavam por nós nem percebiam o que nós pretendíamos. Começámos logo a falhar no plano. O objetivo da primeira etapa era irmos até Valencia, mas acabámos por ficar em Cuenca graças á boleia de um jovem advogado. Percebemos logo que o plano estabelecido teria que servir de guião, mas que teríamos que ter a flexibilidade suficiente para estar preparados para ficar em qualquer lado. Outra coisa que percebemos, quando já andávamos pelo sul de França, foi que teríamos mais sucesso se pedíssemos boleia separados. O que a conseguisse primeiro tentava convencer o condutor a levar o outo, mas se não o conseguisse, paciência. Marselha, França Mais tarde, quando nos fomos tornando mais autónomos, estabelecemos um plano com datas limite em que um esperava pelo outro numa cidade do percurso, normalmente na Pousada de Juventude local. Se o outro entretanto não aparecesse seguia até ao ponto seguinte. Foi assim que atravessámos sozinhos toda a Alemanha de sul a norte e só nos reencontrámos em Hamburgo. Para os mais distraídos, isto tudo passava-se numa época em que não havia telemóveis ou internet, ou seja, a comunicação era impossível. E agora o dinheiro, como é que resolvíamos o problema numa época em que não havia cartões multibanco nem nada que se parecesse. Levávamos “travellers cheques”, um cheque com determinado valor que tinha que ser levantado num banco mediante a confirmação na altura do nosso passaporte e assinatura. Se os perdessemos ou roubassem, ficávamos sem acesso a fundos, mas quem os levasse não conseguiria levantar o dinheiro. Quando chegámos a Oslo decidi que precisava de mais algum dinheiro para poder comprar pequenas prendas para trazer para a família. Uma amiga norueguesa arranjou-me uma quinta onde eu apanhava fruta e fazia outros serviços. Além de ganhar dinheiro, ainda me deixavam trazer toda a fruta que queria quando regressava ao Hostel, ao fim do dia. Isso tornou-me muito popular entre os colegas dos outros países. Oslo, Noruega E agora por falar de comida. Por vezes os carros paravam na estrada para o almoço. Perguntavam-nos muitas vezes se não queríamos comer, e nós, envergonhados, dizíamos que não, obrigado. Enquanto os outros se banqueteavam nós sentávamo-nos num canto da estrada e comíamos umas sandes ou, vá lá, uma peça de fruta. Um dia disse ao Rui “Se eles nos convidarem outra vez nós aceitamos” Devo dizer que foi uma ótima ideia. Valia a pena ver a cara dos nossos condutores a verem-nos comer com ar esfomeado. Tivemos mais alguns episódios cómicos com comida, como um tipo numa carrinha de gelados que nos deixou comer todos os gelados que quisemos, ou uma família alemã que nos encheu de salsichas. Por falar de carrinha, tivemos boleia em todo o tipo de veículos. Atravessei parte da Suíça à pendura numa motorizada, preocupado em segurar no saco e na mochila sem cair num precipício da montanha. Em Lyon apanhei boleia de um camião TIR e na Alemanha até um carro da polícia nos deu boleia uma vez, para nos tirar dum local onde não devíamos estar. No alojamento nem sempre conseguimos ficar nas Pousadas de Juventude, hoje em dia mais conhecidas por Hostels. Fechavam a horas certas e depois dessa hora já não havia nada a fazer. Em Hannover fiquei uma noite num dormitório na estação de caminhos de ferro para sem abrigo. Em Hamburgo ficámos, com mais três que se juntaram, a dormir à porta de uma loja até sermos sacudidos pela polícia, quando começou o movimento matinal. Na Suécia dormimos num armazém de sacos de farinha, que tinha a porta aberta. Em Gotemburgo os donos do carro deixaram-nos dormir lá dentro, mas fechados à chave. Na manhã seguinte desceram e abriram-nos a porta. Em Copenhague acabei também por dormir em carros, mas já sem o conhecimento dos donos. Nem toda a gente deixava os carros fechados. Tive sempre o cuidado de deixar um papel a agradecer. Sempre fui bem educado! Pousada de Juventude em Berna E agora a pergunta: sem telemóveis como é que comunicavam? Mandávamos postais aos nossos pais. Eles, sabendo o nosso percurso, enviavam cartas para as “Postas Restantes” dos correios. Quando chegávamos a uma nova cidade íamos o correio saber se havia correspondência para nós. Foi assim que tive conhecimento que os meus pais, já cheios de saudades, iam estar em França e gostariam de se encontrar comigo já no nosso percurso de regresso. Indicaram a data e o nome de um hotel em Tours e eu confirmei que nesse dia iria lá aparecer. A minha mãe nem me reconheceu quando me viu. Estava negro, de andar ao sol há dois meses e tinha perdido onze quilos e ganho uma barba. O regresso a Portugal já se fez com os meus pais, mas o Rui e eu estipulámos condições. Tínhamos que completar a viagem tal como estava estabelecido, de forma que os meus pais ficavam em hotéis em cidades que tivessem Hostels para nós podermos ficar. Todas as manhãs nós íamos para a estrada, num local combinado, e eles passavam e “davam-nos boleia” Não imaginam a inveja que causávamos aos nossos colegas de estrada quando lhes dizíamos que tínhamos boleia garantida. Enfim, foi uma experiência que nunca esqueci. Aprendi muito, cresci, descobri em mim capacidades desconhecidas e um poder de desenrascanço que nunca teria imaginado. Os meus pais foram fabulosos porque acreditaram em mim. Este artigo é a segunda parte de uma aventura pela a Europa à boleia. Se queres saber mais sobre a preparação de António, dá uma olhadela ao artigo Uma volta pela Europa à boleia: A preparação. Tweet gapyear Test desc