1500 Km, 2 Tugas e 1 Macho Latino April 24, 2016 gui.afonso Mais Recentes Leave a comment Há uns dias escrevi-vos um post no qual pretendia ajudar-vos a partir numa aventura à boleia. Hoje, deixo-vos com uma experiência que se passou na primeira fase do meu gap year, pela Guatemala e Honduras. Viajei do Porto para a Cidade da Guatemala para ir ter com a Teresa, minha irmã, e com o César, um companheiro mexicano. Apesar de ter passado apenas 2 meses lá os momentos que vivi marcaram-me até aos dias de hoje. Algures nos arredores da Cidade da Guatemala a pedir boleia. Como já perceberam viajar “à boleia” foi parte dessa grande experiência. Na verdade, já tinha apanhado boleias, mas nunca tinha tido como base de transporte a boa vontade de terceiros. Durante o primeiro mês como estava a fazer voluntariado numa associação que ajudava familias Mayas só deu para sair da cidade aos fins-de-semana, o que já foi bom para me ir acostumando ao estilo de viagem que íamos ter. Depois dessa primeira fase, começou então a viagem. Partimos de Panajachel com rumo a Livingston (norte), ironicamente, de autocarro. Começa bem? Hã? Isto é que é viajar á boleia, sim senhor. Mas, tenho uma justificação válida, não deixem de ler já. A verdade é que por vezes se torna complicado sair das grandes cidades, sair do centro para a periferia e de boleia, é quase impossível (ainda o fizemos, mas foram raras as vezes). “Andar à boleia” não é tão simples como levantar um dedo. É preciso ser persistente e ter noção dos melhores sítios para fazê-lo (certamente que o centro do Porto ou as laterais da A1 não serão os melhores sítios), é preciso ter noção da melhor altura para o fazer (sendo que o dia é considerado o mais seguro e eficaz por maior parte dos viajantes) e depois há a questão de ter uma rota delineada ou simplesmente ir ao sabor do vento. Percurso de viagem (um bocado aldrabado). Mas bem, foram 21 boleias ao todo. E a primeira posso dizer que foi das mais recordáveis (e das poucas que tiveram registo fotográfico) – José, camião TIR, Los Encuentros-Chimaltenango (cerca de 3/4 horas). Falámos de tudo um pouco, desde a política corrupta da Guatemala às boleias mais caricatas que ele já tinha dado. E ainda me lembro do intenso cheiro a plátanos (bananas para cozinhar) e da simpática desarrumação da sua cama onde nos sentamos. “Onde ficavam a dormir?” Muitas vezes as boleias não nos deixavam no nosso destino marcado, e quando deixavam raramente seria no centro. Por isso, quando era de noite e considerávamos, por segurança, não viajar mais, montávamos a “casita” (tenda) onde nos deixassem e despedíamo-nos com um caloroso “Muchas gracias! Que te vaya bien!”. Praias e jardins, debaixo de uma ponte ou até mesmo na pura estrada, foram alguns dos sítios aos quais chamamos casa por uma noite. Facto: A Guatemala e as Honduras não são considerados os países mais seguros do mundo. E apesar de nos terem avisado muitas vezes a tomarmos precauções e não passar por certos locais a verdade é que tivemos sempre bastante sorte, à excepção de uma vez que fomos mais descuidados e nos roubaram coisas da tenda. Mas isso até aqui “em segurança” no nosso país pode acontecer se deixarmos os nossos pertences abandonados num sítio em que não prestamos atenção. Acampamento selvagem numa praia em Livingston “Buenos dias, nos puede adelantar un poquito? Por favor! Por fa!” Este era um dos discursos que eu dizia com mais frequência nas lombas das estradas e bombas de gasolina onde pedíamos boleia, e embora pareça um pouco aldrabado (o meu espanhol, após algum tempo ficou fluente, mas nunca soube escrever muito bem) as pessoas entendiam-me e muitas vezes ficava radiante por ser minha a oportunidade de congratular os meus companheiros com uma viagem rica em conhecimento e ao mesmo tempo baixa em gastos. Demoramos cerca de 9 dias para chegar desde Livingston (costa norte da Guatemala) a Utila (ilha no norte das Honduras). Foi uma viagem agitada, turbulenta, complicada, mas, acima de tudo, enriquecedora. Houve momentos em que a comida acabava e em que nos sentíamos fracos e doentes por estar molhados da chuva da noite ou por termos passado horas ao sol fulminante do dia. Com isto, a paragem que fizemos em San Pedro Sula, pelo meio do percurso, foi essencial para recompor os sentidos e as forças. Volto a falar da persistência. A persistência e a força mental que criei em diversas adversidades. Por exemplo: Já na costa para a ilha onde se apanha o ferry, a minha irmã e o César não queriam de todo pagar o bilhete para a viagem de barco, e embora não fosse um balúrdio achavam que conseguiríamos arranjar uma melhor solução. Eu simplesmente não percebia porque não podíamos apanhar o último ferry do dia e ir como todas as outras pessoas nesse momento para a ilha, onde já havia gente à nossa espera. Acabamos por passar lá a noite e, apesar de ser observado pelos locais como um animal de zoo durante dia e noite, no fim a experiência tinha valido a pena. Vou passar a explicar: Como é óbvio todos os barcos que iam para as ilhas não eram os ferrys de turistas. Haviam cargueiros e barcos de pescadores. Com a noite que passamos no porto apercebemo-nos da vida no “muelle” (porto/cais) e soubemos a melhor maneira e mais rentável de nos deslocarmos para a ilha. Assim percebemos que havia muitos outros barcos a partir para a ilha e a muitas outras horas. Logo pelas 07.30 da manhã já tinhamos arranjado um “negócio” bem melhor do que o que teríamos tido no dia anterior. Eles tinham razão. Pagamos 25 euros os 3 e fomos numa lancha com 5 pescadores. A outra hipótese era 75 euros num ferry cheio de turistas. E pode-se dizer que além de aprendermos muito sobre a cultura local foi uma viagem com bastante mais adrenalina e diversão. Boleia no barco de pesca Chegada a Utila Viajamos desta maneira não só por ser de graça mas também por toda a liberdade que nos dá, pelas ligações que nos traz e pela oportunidade de ver o outro lado, o outro local, a outra perspectiva. Apanhei boleias de todos os tipos, desde mota a barco. E várias pessoas ajudaram-nos, desde as que simplesmente nos diziam para subir para a parte de trás das carrinhas (não se mostravam, talvez pela insegurança que se vive nestes países) às pessoas mais carinhosas que nos davam de lanchar, almoçar e por vezes até, de dormir. Aparte de tudo o resto, o melhor desta experiência, deste modo de viajar e destes escassos 33 dias de viagem foi a liberdade. A liberdade que o mundo me ofereceu e que as pessoas tão generosamente me dedicaram ao longo da estrada. É incrível a sensação de estar fora das grandes cidades, no meio do nada, onde o vento sopra com mais força ainda e com um simples levantar do polegar poder ter a sorte de conhecer pessoas e viajar para qualquer outro sitio. A apanhar uma boleia para Copan. A apanhar uma boleia paraa Copan. Em Copán, numas ruinas mayas. No topo dum vulcão inactivo. Chicabal. “Qual foi a melhor e a pior boleia?” A pior, foi numa pick-up velha que transportava gado, imaginem como estaria o porta-bagagens… Nesta fui agarrado aos ferros metálicos mas do lado de fora da carrinha, para não ter que pisar coisas indesejadas. E a melhor, a que se pode dizer que me deu mais adrenalina foi num camião-TIR que transportava areia. O senhor viu-nos no meio da noite, meios desesperados e deixou-nos subir para a parte de cima do atrelado. E o céu? Nunca tinha visto um tão estrelado. Sentia-me vivo. Senti tudo. A velocidade e as curvas, o vento a soprar, as árvores das extremidades a crescer, e principalmente o meu coração a bater. A bater de felicidade. A bater de alegria, e claro, a bater de liberdade. Tweet