Aventuras de um InterRail na Europa

Viajar com um passe de um mês, válido para 30 países da Europa. É a isto que se chama fazer um InterRail, e foi exatamente esta aventura que os nossos entrevistados se propuseram fazer.
Joana e Tiago, de 23 e 24 anos respetivamente, puseram a mochila às costas no verão de 2014 e, em apenas 1 mês, viajaram por 13 cidades, de 7 países europeus.
Durante a sua viagem, aproveitaram, não só para visitar algumas cidades icónicas e outras menos conhecidas, como também para conhecerem malta jovem de todos os cantos do mundo. Ainda usufruíram das culturas e tradições de cada país.
Descontraídos e bem dispostos, receberam-me para a entrevista, num café virado para o mar na Costa da Caparica, onde dizem ter surgido toda a ideia do InterRail.

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Vários momentos durante o InterRail

Como é que surgiu a ideia de fazerem um InterRail?
Joana- Este é um sonho muito antigo que partilhamos. O Tiago tinha as memórias contadas dos InterRails do pai, e eu acabei por também ficar contagiada pela ideia. A verdade é que queríamos ter “ido à aventura” no ano anterior e acabámos por não o fazer. Em 2014, quando os dois estávamos mais que decididos, os nossos amigos “cortaram-se”. A vontade era grande e acabámos por ir só os dois. Para além de não valer a pena estar a desperdiçar mais um ano, também não sabíamos quando é que íamos voltar a ter férias grandes de verão.

Quais foram os preparativos para a viagem e as principais preocupações?
Tiago- Começámos por ver o mapa da Europa. Depois, escolher mais ou menos o percurso e, dentro desse percurso, tivemos a ver as cidades que nos atraíam e cativavam mais. De seguida, tivemos a preocupação de ver vários sites de viagens e de falar com pessoas que já tinham viajado muito, de maneira a nos darem conselhos sobre as cidades que íamos visitar e o tipo de viagem que íamos realizar de mochila às costas. Reunimos toda a informação que tínhamos e, mais perto da viagem, fizemos várias revisões com o que poderíamos levar e o que seria mesmo necessário. Para não perdermos tempo na viagem, planeámos o que fazer na primeira cidade, e só preparávamos o que fazer na próxima sempre na noite do dia anterior.

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Rota feita ao longo do mês de InterRail

Que destinos é que acabaram por escolher para a vossa aventura?
Joana- Paris, Florença, Pisa, Veneza, Ljubjana, Bled, Zagreb, Split, ilha de Korcula, Budapeste, Munique, Salzburgo e Innsbruck. Ao todo, visitámos 13 cidades, de 7 países europeus.

De todos os destinos, qual foi o que mais vos surpreendeu e porquê?
Tiago- Talvez tenha sido a Eslovénia. Não estávamos à espera do que iríamos apanhar. Ljubjana é uma cidade extremamente agradável, com um espírito jovem e bastante acolhedor. Bled é uma cidade muito pequena, que fica a 1 hora de Ljubjana e que, basicamente, tem um lago enorme, com um palácio no meio, numa ilha, e um castelo à volta, num dos lados do lago. Bled, para além de parecer tirada de um conto de fadas, é uma vila bastante jovem onde, à noite, só encontramos jovens de todas as nacionalidades, nas “milhares” de festas e bares ali existentes.

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Depois de um mergulho no rio, com a famosa ilha com o palácio como plano de fundo

Tiago, então é verdade que ser benfiquista até na Croácia dá jeito? Conta-nos essa tua peripécia
Tiago- Tinham-nos aconselhado a não levarmos nada marcado para Split, na Croácia, porque à porta das estações existem sempre imensas pessoas a alugar casas super baratas ao preço dos hostels. E foi o que nós fizemos! Arriscámos e chegámos à cidade já de noite; não tínhamos nada marcado. Depois de três pessoas virem falar connosco e de nós não gostarmos das ofertas, apareceu um rapaz com uma oferta de um quarto bastante giro e barato. Aceitámos. Fomos com o rapaz e, assim que dissemos que somos portugueses, perguntou-nos se conhecíamos o Benfica. Como é que eu não poderia conhecer? (risos) Eu afirmei que sim e que, para além de ser benfiquista, também sou jogador no rugby do Benfica e treinador. O rapaz “fez uma festa” e contou-nos logo que faz parte de uma claque chamada “Torcida Split”, que adora a claque NN do Benfica e que, por causa disso, nos ia fazer um super desconto no quarto; o quarto ia-nos ficar quase de borla. Entusiasmados com a ideia, chegámos ao quarto, o rapaz fala com o rececionista e, pelos vistos, tinham havido uns problemas com as reserva pela internet. O rapaz disse-nos logo que não íamos ficar ali, mas sim na casa dele. Ofereceu-nos a sua casa para passar a noite, levou-nos à porta, deu-nos a chave e foi-se embora com a namorada, dormirem não sabemos para onde. Ficámos admirados com tal simpatia e nem sabíamos como é que lhe havíamos de agradecer. No dia seguinte, fez questão de nos pagar o pequeno-almoço num café e que bebêssemos uns copos, logo pela manhã, pelo Benfica. Resumidamente, por eu ser benfiquista, tivemos uma noite à borla numa casa bastante acolhedora e ainda ganhei um amigo com a mesma paixão que eu.

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À procura da próxima “cidade benfiquista”

Em toda a viagem, qual é que foi o local mais estranho/diferente onde dormiram?
Tiago- O local mais estranho, mais inesperado, talvez tenha sido num hostel em Innsbruck, na Áustria. Quando lá chegámos, achámos esquisito não haver ninguém na receção, apesar do hostel ter aparência moderna e arranjada. Quando olhei para o fundo do corredor, vi um senhor a andar de um lado para o outro, a bater literalmente com a cabeça nas paredes. Eu achei aquilo tudo muito estranho e disse à Joana que achava que estávamos numa casa de malucos. Claro que a Joana, como não viu porque tinha ficado à porta do hostel, começou a dizer que devia estar a exagerar e pensava que eu estava a brincar. Entretanto, fomos os dois para a entrada do hostel e, de repente, apareceu uma senhora com deficiência física e motora, que nos disse que a receção estava fechada porque a rececionista tinha ido passear, como fazia todos os dias. Ainda afirmou que era melhor virmos mais tarde porque a receção só estaria a funcionar a partir das 17h. E nisto, enquanto eu estava a tentar comunicar com a senhora, entrou um grupo de pessoas ao berros e meio descontrolados. Como já tínhamos pago, achámos por bem voltarmos mais tarde para percebermos toda aquela situação. Quando voltámos, já lá estava a rececionista, e a própria nos explicou logo que o hostel, das 9h às 17h, funcionava como escola / centro de dia para pessoas com deficiências físicas e motoras e pessoas com perturbações mentais e que, basicamente, durante essas horas estava fechado.

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Centro de Innsbruck

Qual foi o maior imprevisto que vos aconteceu durante o InterRail?
Tiago- O maior imprevisto foi num comboio, na Áustria. Tínhamos apanhado o comboio que ia de Veneza para Ljubjana, passava na Áustria, mas não tinha escalas, ou seja, não parávamos em nenhum sítio. O passe de InterRail dá acesso a todos os comboios e direito à entrada em todos. Contudo, há partes dos comboios onde são obrigatórias reservas, principalmente naqueles comboios que têm muita gente, ou nos comboios que têm as camas noturnas. Os que dispõem de lugares para seis pessoas, também é preciso reservar. Porém, nós estávamos descansados porque, supostamente, neste comboio não era preciso nada disso. Estávamos em viagem já há algumas horas quando, de repente, “do nada”, chega uma austríaca, a meio da noite, a acordar-nos aos berros, e a mandar-nos a nós e a mais não sei quantos backpackers, sair imediatamente do comboio. Nós estávamos sentados nos lugares em que não era preciso reserva e, mesmo assim, a austríaca disse-nos que, todas as pessoas que não tinham reserva, teriam de sair ali porque o comboio iria encher em Viena e os outros passageiros teriam prioridade em relação a nós. Claro que nós e mais 20 ou 30 pessoas de mochila às costas saímos todos revoltados, mas não havia nada a fazer. Eram 4 da manhã e teríamos de esperar pelo outro comboio até às 8h. Para piorar, a estação era minúscula, sem uma única casa de banho e, o pior de tudo, é que era gelada por estar localizada no meio das montanhas. Tivemos de dormir no chão porque nem sequer um banco existia.

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A única maneira de dormir na estação na Áustria

Como é que fizeram a gestão do que levar em viagem? Como organizaram as vossas mochilas?
Joana- Primeiro, tivemos em atenção a dimensão da viagem que íamos fazer e que, tudo o que levássemos, seríamos nós a carregar às costas. Logo aí, eu comecei a reduzir. Depois, apercebemo-nos de que tínhamos de ser super objetivos e levar apenas o essencial e indispensável. Eu, como rapariga, percebi que tinha de deixar o meu lado mais feminino e vaidoso em Portugal; não havia espaço para tudo (risos). Escolhi peças de roupa fáceis para conjugar com tudo, e tive em atenção escolher apenas roupas mais práticas. No final disto tudo, e tendo já minimamente a noção do que era preciso, acabei por levar roupa a mais.

Voltavam a repetir um InterRail? Se sim, que destinos juntavam à vossa viagem?
Tiago- Sim, voltava a repetir um InterRail já amanhã! Aproveitava e juntava à nossa viagem , todas as cidades que ainda não visitámos na Europa.
Joana- Eu também repetia, e juntava as cidades que visitámos e que gostámos mais.

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De partida para Portugal, depois de 1 mês de aventura pela Europa

Depois desta aventura pela Europa, no verão passado o Tiago fez um mochilão pela Ásia e agora preparam-se para fazer um mochilão pela América do Sul.

Este casal é o exemplo do que é viajar por países europeus e de como o dinheiro pode ser trocado pelas peripécias e imprevistos.